terça-feira, 4 de maio de 2021

Fascista e genocida!

Démerson Dias


Covas abertas em cemitérios de São Paulo para acolher os
óbitos por Covid-19 (Lalo de Almeida/Folhapress)
O formalismo é a fórmula mais elementar de submissão à ordem capitalista, ou qualquer outra ordem impositiva. Através dele algumas categorias e conceitos tornam-se, se não o seu oposto, uma subversão distorcida que destitui a essência das formas e conteúdos, para representar até mesmo o seu avesso.

Cabe à vítima denominar seu agressor, e não o contrário. O estupro não foi realmente crime até que as vítimas tiveram coragem de encarar e acusar de maneira contundente seus agressores. Ainda hoje, operadores legais resistem, através dos mais inventivos expedientes e recursos retóricos, para poupar os protegidos da ordem.

Usar o formalismo para negar à vítima o direito de denominar seu agressor é um dos expedientes mais ordinários em favor da ordem opressora. Ainda hoje, o povo armênio luta pelo direito de denominar seus algozes no genocídio infringido pelo governo otomomano no início do século passado. Quem não pode definir e nominar sua dor, perde o direito à própria identidade.

Em termos formais, o bolsonarismo comete crime contra a humanidade e até o parlamento Europeu, do outro lado do oceano, já percebeu isso com clareza rasgante. Brasileiros condescendentes ou solidários com os direitos dos torturadores insistem em amenizar a truculência, como se tratasse "da ordem natural das coisas". Saibam, tantos quantos queiram espernear, que instauramos a ordem dialética das coisas. Essa é a guerra de narrativa que importa à transformação histórica da realidade.

 Para nós é genocídio, o extermínio dos inimigos de classe da burguesia. A familícia bolsonárica é apenas o carrasco excelente de turno, tais quais os antigos capatazes e capitães do mato.

Setores escolásticos da esquerda precisam aprender que é a determinação política dos oprimidos que transforma a abordagem sobre a realidade.

Seria possível discorrer, com o mesmo preciosismo desses escolásticos, sobre a confusão (premeditada, ou incauta) entre o fascismo e sua variável alemã. Essa, dissolveu até mesmo a unidade da burguesia internacional. O nazismo foi o fascismo que nem a burguesia internacional conseguiu deglutir. A banalidade do mal em estado de arte. E não por questão moral, ou estética, mas por que aquele deslocava, o controle do oligopólio de poder das mão da burguesia para as mãos da nomenclatura nazista. O bolsonarismo não tem alcance ou conteúdo suficientes para ser nazismo. Nossa opção, nem mesmo é infundada, mas os fundamentos que nos importam e são caros, estão nos laços de solidariedade entre as vítimas, e não na aceitação dos valores morais que a burguesia prega e impõe.

O nosso papel é descontruir a ordem obsoleta e reacionária. "Arriba el sur".

Por isso, exaltamos as formas constituídas pelas vítimas da opressão, não pelos opressores.

O rap é doloroso e agressivo porque sua estética é a denúncia da violência da civilização sobre aqueles condenados à marginalidade. E o grito dos despossuídos é a resposta daquilo que se pretende calar.

É nesses termos, e não nos termos admitidos pela ordem, que afirmamos que o bolsonarismo é fascista e genocida.

Não estamos pedindo permissão de doutores para dispormos das terminologias. Estamos expropriando o léxico, pelas malversações e insuficiências da formalidade.

Além de armadilha conceitual, o recurso do formalismo implica na necessidade das forças da ordem de, por um lado, suprimir o protagonismo da vítima sobre sua própria história. De outro, seguir desconstituindo a realidade da opressão, através, exatamente, das justificativas criadas sob encomenda para cumprir esse papel.

Nós, as vítimas, somos os transgressores do sistema. Quem justifica e explica o sistema são as forças reacionárias (mesmo as inconscientes). E é assim porque é nossa função expor, escandalizar, acusar e recusar o modelo de interpretação da realidade definido nos termos dos opressores. 

Quem está declarando que Bolsonaro é genocida, não está preocupado em convencer a corte de Haia sobre uma tese jurídica. Aliás, não dependemos do veredito de Haia. O mundo, antes, é território dos sentidos, só depois (e a partir deles) descende para as instâncias do conhecimento. E a palavra genocídio não é monopólio das esferas judiciais, cada palavra pertence, sobretudo, aos que dela se valem para caracterizar e compreender o mundo (ave, pedagogia do oprimido!).

Do mesmo modo, fascismo é a política que instala o avesso diametral da política enquanto espaço de intervenção plural. É o autoritarismo que avoca, para si, o estatuto de verdade incontestável. É a forma política exaurida e imposta, por meio da força (política, social, militar) para exterminar o direito à rebeldia.

Deixamos para as doutores discutirem, à luz de futuro, o quanto de nossas determinações caberão nos escaninhos da formalidade.

É golpe, é fascismo, é genocídio! O racismo é estrutural, e as políticas compensatórias são válidas, porque os sujeitos da luta contra a opressão da escravocratura arrancaram, na marra, as respostas que o ordenamento conservador se empenhou em suprimir e tutelar, ao extremo e com violência.

Da mesma forma, vamos condenar a violência a ser a iniciativa do agressor, e não a resposta da vítima. Podemos para isso, inclusive, expropriar dos agressores, o sentido de legítima defesa da vida. Por isso, também, vidas negras importam. Por que o direito à vida é privilégio dos brancos. Por isso o feminicídio, por que "legitima defesa da honra" é justificativa abominável para distorção da dor pelo vernáculo machista.

Quem não entendeu ainda, melhor já ir se acostumando. Não vamos nos calar. Não vão nos calar. Porque enquanto ele, sim, nós, #elenão.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Xi, francisquinho, deitaram a língua na jabuticaba!