quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ENTREGA


Deixa,
Não há solidão
Que dure o tempo de nossa humanidade

Que solidão é a falta de paz consigo
E o medo é um sofrimento da antecipação

Deixa,
Mas não me arraste
Aos seus confins

Preciso das suas auroras
Se não podes dar-lhes luz
Deixa que ajude a pari-las

Deixa,
Me ilumine
Corrobore

Me preencha com a insensatez
Dos que criam luz do breu

Às vezes o sentido é a direção a não seguir

domingo, 28 de agosto de 2011

Carinho, que te quero bem

(poema sobre as mãos de Jan Vianna)

O nome é diminutivo, pra que não se diga que falta espaço.
Acomoda-se onde houver disposição, desejo, necessidade, ou mais carinho. . .
Mas o carinho, antes que nada, foi feito pra preencher todo e qualquer espaço.
Espaço vago, espaço útil, espaço pleno. Inclusive preencher a vida em que falta de espaço, com aquilo que mais precisa: carinho.
Porque onde há carinho, sempre cabe mais um.
Mais um carinho, mais um afeto, mais uma gota de felicidade. . .
Aliás, carinho é a felicidade que não transborda
O carinho só incomoda quem não sabe de que se trata
Carinho gesto, carinho beijo, carinho sexo, carinho abraço . . .
Inclusive carinho só carinho mesmo. Sem pretensões, definições, processos . . .
Carinho é aquilo que, mesmo se não sabemos, quando não temos, faz falta.
Expressar carinho é dizer ao outro que somos dotados de uma particular e peculiar fonte de energia vital
que jorra, brota,
incontrolável,
de cada molécula de nós mesmos,
e por isto doamos
e, ao cabo, ainda que não seja este o propósito,
nos retroalimentamos.
É um looping sem fim.

sábado, 11 de junho de 2011

Um Poema Ligeiro


Para o selo roubado
Um poema ligeiro
O prazer pressionado
Entre o afã e a pressa

Um sinete
Que lacra um afeto
A ser guardado
Ou proferido alhures

A estampilha
Que adorna um ardor
Recôndito
E exposto discretamente

Um beijo
Tal e qual nunca fora
Mais veloz e eterno que o tempo

sábado, 21 de maio de 2011

Elegia de um tempo não vindo

É que vez em quando deparamo-nos com um destempo.
Como se uma solerte, traiçoeira divindade tivesse cindido as horas.
E inserido um nada em meio a uma incógnita.
Um reverso de deja vu.
Algo que passa e não percebemos.
E a esse desnotar se somasse o estranhamento de um passado esdrúxulo.
Como um dia, estranho, vago.
Se alguém souber como repor um dia que passa, suplico, me avise.
Pensando bem, acho que há uns 10 anos nesses 45 que mereciam ajustes.
A questão não é de se repassar a vida, nem reclamar dos feitos e ausências.
Sim, admito algum sussurro de compulsão perfeccionista.
Mas, ora, nem tratar-se ia de desvelar imperfeições recônditas ou explícitas.
Nem mudar rumos, cenários ou desterros.
O que me assalta são pequenos lapsos de lucidez, suponho.
Em que se esvaem entre os dedos pequenos catalisadores de acertos.
E, assim, como num suspiro, notamos escapar, tardiamente, um relance.
Não, menos, uma fagulha de acontecimento,
Que poderia, talvez, tornar o tenso em firme.
A languidez em ternura.
O grito em certeza serena.
Um não, em leque de possibilidades.
Não, não!
Nada da ambição tosca e inócua de mudar as grandes correntes do tempo.
Nem anular os erros que nos fazem crescer, mais do que mil elogios.
Os impasses ficam mesmo por entre os acertos e erros.
Momentos que não são decisivos a ponto de mudar o rumo das coisas,
Nem o deleite vadio que antecipa a precipitação entre mar bravio e a rocha.
Trata-se daquele tempo em que não fizemos nada,
Pois nada havia para ser feito.
Mas onde justamente poderíamos ter estado atentos,
Para o turbilhão da vida que nos assola desprevenidos.
Privando-nos do tento para alcançar as variáveis possíveis.
Não todas, mas justo aquela que nos deslindaria o passar dos tempos.
O tempo que perdemos, mas não soubemos a tempo de que se tratava.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Código Florestal: A lei endossando o crime e outras injúrias



Algumas reivindicações de setores econômicos acerca do código florestal são aberrantes. A “necessidade de desmatamento” a pretexto do desenvolvimento econômico é esdrúxula quando se ocupa de uma visão unilateral da questão: o lucro.

Em alguns anos é possível que gerações futuras nos condenem pela voracidade em destruir os biossistemas naturais. Cheguei a ouvir, certa vez alguém dizendo que os países centrais dispuseram dos recursos naturais de forma incontinente para alavancar suas condições  socioeconômicas, e agora que seria a vez do Brasil.

Argumento curioso. Hitler instituiu o III Reich patrocinou o genocídio de milhões de pessoas, supostamente para que a Alemanha deixasse de ser um país à reboque da Europa. O que seria do mundo se cada país em condição econômica e social precária reivindicasse seu “direito natural” a instituir um III Reich próprio?

Alguns crimes ambientais deveriam ser considerados como “lesa-humanidade”

E a questão nem é assim tão maniqueísta. As distorções na proposta para o código florestal não podem ser pensadas a partir do foco imediatista, utilitarista, nem clientelista. De que adianta acomodar populações urbanas à beira de córregos, expondo-as a doenças, alagamentos e precariedades, quando o Estado, ou seja a expressão política da sociedade, deveria garantir condições de moradia dignas?

A forma acintosa como o governo (Executivo e Legislativo) assumiram unilateralmente a discussão, propicia toda gama de distorções. E algumas suspeitas ignominiosas.

Por exemplo, a publicada pelo Correio Braziliense que dá conta  de que 15 deputados e 3 senadores seriam beneficiados com a revogação de nada menos que trinta violações à lei ambiental. Numa sociedade séria, ou regime político, correspondente, estas pessoas deveriam estar afastadas do processo decisório desse tipo de questão. Mas não, são elas mesmas as principais patrocinadoras do tema no congresso, sob vergonhoso endosso do governo e diversos parlamentares.

Há algum tempo, quem vive em cidades como São Paulo vem assistindo o resultado de alterações açodadas e desmedidas sobre leitos de rios e córregos. Sabemos também, há muito mais tempo ainda, que a ocupação organizada e não predatória do solo e de seus recursos não apenas resolveriam, como potencializariam a capacidade produtiva do pais.

No entanto a prática contumaz e criminosa como isso ocorre, (e que foi consolidando-se, inclusive, ao arrepio da lei), ao invés de ser combatida e revertida, está a ser chancelada a partir, exatamente, dos queixumes daqueles que, até então, nem mesmo atenderam a disposições legais elementares.

Do sumário executivo de um consistente relatório de 120 páginas, elaborado pela Academia Brasileira de Ciência (ABC) em conjunto com Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), destaco alguns elementos:



O Brasil detém uma imensa extensão territorial para a produção agropecuária: são cerca de 5,5 milhões de km2 com uso potencial para os mais diversos tipos de cultivos e níveis de adoção de tecnologias agrícolas. Entretanto, 76% do total dessas terras aptas apresentam alguma fragilidade decorrente de limitações nos solos, condição que requer planejamento criterioso na ocupação agrícola, com adoção de práticas de manejo conservacionista que também levem em consideração as emissões de gases de efeito

 . . .

Entretanto, mesmo considerando os avanços na agricultura conservacionista e o sucesso da agricultura tropical, o processo histórico de ocupação do território brasileiro resultou, em alguns casos, no aumento das pressões sobre o meio ambiente, em processos erosivos, na perda de biodiversidade, na contaminação ambiental e em desequilíbrios sociais. Assim, o desperdício dos recursos naturais decorrente do uso inadequado das terras é uma realidade a ser enfrentada e levando a repensar essa ocupação para evitar os erros do passado e promover uma gradual adequação ambiental da atividade rural. A agricultura brasileira, que atualmente, possui uma nova dimensão socioeconômica e ambiental e é responsável pelo superávit comercial brasileiro, demanda ciência, inovação, tecnologias modernas e atenção redobrada quanto aos seus impactos sobre os recursos naturais.

Os diagnósticos realizados demonstram que existe um passivo da ordem de 83 milhões de hectares de áreas de preservação ocupadas irregularmente, de acordo com a legislação ambiental em vigor. Estima-se que o impacto da erosão ocasionado pelo uso agrícola das terras no Brasil é da ordem de R$ 9,3 bilhões anuais, que poderiam ser revertidos pelo uso de tecnologias conservacionistas e pelo planejamento de uso da paisagem, gerando benefícios ambientais.

Há necessidade de medidas urgentes dos tomadores de decisão para reverter o estágio atual de degradação ambiental. Para estancar esse quadro, as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais (RLs) deveriam ser consideradas como parte fundamental do planejamento agrícola conservacionista das propriedades. A percepção das RLs e das APPs como uma oportunidade deve ser acompanhada de políticas de Estado de apoio à agricultura que simplifiquem e facilitem os trâmites burocráticos. Para concretizar essa proposta, é indispensável uma articulação entre os órgãos federais, estaduais e municipais visando à implementação da legislação ambiental, que não pode ficar sob a responsabilidade exclusiva do proprietário ou possuidor rural. Os Estados e os municípios desempenham papel importante na estruturação dos órgãos responsáveis pela regularização das RLs e APPs.

...

Recomenda-se a implantação de políticas públicas mais consistentes voltadas a garantir que todos os produtores – notadamente os que têm menos acesso a tecnologias disponíveis – venham a integrar efetivamente a sistemas produtivos técnica e ambientalmente corretos.

Os dados científicos disponíveis e as projeções indicam que o País pode resgatar passivos ambientais sem prejudicar a produção e a oferta de alimentos, fibras e energia, mantendo a tendência das últimas décadas de aumento continuado de produtividade, desde que políticas mais consistentes de renda na agropecuária sejam implementadas.

Para a harmonia e o avanço na utilização das terras brasileiras, há necessidade de um cuidadoso planejamento integrado de uso compatibilizando os zoneamentos agrícola e ecológico-econômico com o ordenamento territorial e a revisão do Código Florestal, dentro de um novo conceito de paisagens produtivas sustentáveis.

Diz ainda o sumário que o país, detentor de 20% da biodiversidade do planeta pode beneficiar-se, inclusive economicamente, desses recursos, o que seria potencialmente inviabilizado, ao se atender apenas às intenções imediatistas da atual propositura legislativa, provocando eventualmente retrocessos irreversíveis nessa área.

E conclui: “O Brasil é o país que abriga o maior número de espécies de plantas, animais e microrganismos do mundo. Isso representa um enorme diferencial de capital natural, estratégico para o desenvolvimento socioeconômico do país, que precisa ser conservado e utilizado de forma sustentável. Ao mesmo tempo, a inovação tecnológica está na raiz do sucesso brasileiro da agricultura tropical e é o trunfo mais poderoso para qualificar países na competição no mercado globalizado.

O aprimoramento do Código Florestal brasileiro deverá servir de base para políticas públicas inovadoras dentro do conceito do ordenamento territorial brasileiro e do planejamento da paisagem.

Não se trata de posição de ambientalistas radicais (se é que um ambientalista de verdade pode abster-se de sê-lo) ou de opositores raivosos a qualquer forma de desenvolvimento. E sim da opinião de cientistas historicamente comprometidos com os interesses do país.

A advertência é a de que, nem a sustentabilidade, nem os interesses econômicos estão, de fato, sendo alcançados com a versão do código em pauta.

Ocorre que o projeto de lei é encarado por alguns como a oportunidade de um butim ambiental antes que outros “retardatários da devastação” prevaleçam-se da leniência legal e oficial. Uma lei para os espertalhões de ocasião que irá penalizar a esta e às próximas gerações. Esse raciocínio, já é um velho conhecido nosso: “levar vantagem em tudo” (e como há falsos moralistas endossando a proposta!).

A proposta de alteração do Código Florestal não é apenas, privada de virtudes. Trata-se de um tolo (porque imprevidente) achaque por parte de uns poucos a um patrimônio (eu acho que é a discussão vai muito além da questão da propriedade, e da contraposição entre direito público e privado, mas concedo aqui à contemporaneidade do debate) que não é nem somente do nosso país, nem tampouco do nosso tempo.

É impressionante que governantes estejam imensamente mais preocupados e comprometidos com a entrada do país no “conselho de guerra, tutela e assassinatos” da Onu, onde somos sobejamente periféricos, mas recuse-se terminantemente a encarar com visão soberana e estratégica um contexto em que somos “primus inter pares”.

A mediocridade, de fato, é um calabouço.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sentimental

Percorrer as ruas, escaninhos e vales da memória
Sentir-se, despertencer-se e seguir pelos meandros de coisa alguma.
Deparar-se com a infinidade de valores, alguns mais autênticos que nunca e outros, notórios desconhecidos.
Acreditar que é possível crer na vida, ainda que a mesma diga o contrário sob a perspectiva de um presente quase remoto, insensível.
O que nos salva, então, da memória, é realizar um presente. Não o que nos agrade, mas que abasteça de esperança.
Um átimo de esperança, um fio de relevância que nos conduza para fora da insensatez que por vezes nos abate. Algo que demarque os limites do que é vago, do que é desperto, e do que é semente de porvir.
Como uma vida nova que surge, uma centelha com potencial para reverter nossa descrença, reavivar-nos do cansaço e intimar-nos de volta à vida.
A vida, ora essa, não seria menos que os dissabores. Com tudo o que nos ressuscita diante da inesperada e sempre certa morte. Esta mesma que nos leva a cada dia, um pouco mais que os dissabores, um pouco menos que as alegrias.
Perguntar se há sentido é, provavelmente, a direção errada. Nos leva, talvez, ao nada. O sentido é a direção para onde apontam nossos pés. Não é a vida improviso, ou rascunho. Veja-se no espelho as marcas da sua trajetória. Da vida que nos brinda com a existência, e desiste, ao que parece ao meio do caminho.
Não, claro. Não é o presente que nos preserva, são as marcas que deitamos realidade adentro conformando o que somos entre vida e morte. A vida que nos repousa para sempre. Intangíveis tanto quanto nossos equívocos. Consistentes na medida das nossa realizações.
Ah, vida! Caminho sem volta.

terça-feira, 15 de março de 2011

Charles Aznavour - Yesterday When I Was Young

Há alguma sensação quanto a um tempo perdido, embora o caminho adiante não me pareça tão difuso. Um dia, quando eu crescer quero estar numa plenitude como essa.