sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

DESNATAL

 Démerson Dias


Internet - autor desconhecido

        O território em que viveu o cristo ocidental está sendo destroçado pela indústria da guerra. Portanto, o natal de 2023 deveria ser vivenciado, antes, como luto.

O estado fascista e terrorista de Israel ataca e bombardeia unidades médicas, o que é absolutamente condenado pela legislação internacional e os pactos de guerra mais elementares. Só não existe punição, vetos ou sanções porque o grande irmão do Estado Criminoso de Israel impede qualquer possibilidade de razoabilidade.

Parece-me inevitável e pertinente fazer um paralelo e atual, a Rússia capitalista não priorizou alvos médicos, justificando que os jihadistas do batalhão Azov se moviam por ambulâncias.

A infraestrutura de saúde na faixa de Gaza foi pulverizada pelos ataques do Estado terrorista.

Energia e guerra, essas, as motivações para o extermínio do povo palestino. Nem foram os povos árabes os principais responsáveis pelas diáspora do povo judeu. No entanto, o mundo cristão, verdadeiro criminoso nesse caso, é aliado dos belicistas.

Não há efetiva razão histórica por trás da defesa do estado de Israel, o que ele faz é uma política de usurpação e desterro dos povos que habitam a Palestina há milênios. E a estratégia é a um só tempo alimentar a pérfida indústria da guerra, enquanto o império do ocidente pretende, em segunda frente, apartar a Europa de seu principal fornecedor de energia.

Esse viés da guerra, ocorrendo simultaneamente, não é suficiente para abrir os olhos dos Europeus, o melhor aliado material da Europa na atualidade seria a Rússia. Compartilham de semelhante visão do mundo, o capitalismo oligopolizado. E a Rússia alcançou de forma mais consistente que o ocidente a invenção de uma potência pluriétnica. Bem antes da União Europeia.

A tentativa de instalar uma via para levar gás para a Europa através da faixa de Gaza  explica a guerra e a estultice que acomete a racionalidade desvairada do ocidente. Essa perspectiva, aliás, é anterior ao próprio Estado de Israel, meados do séc. XIX. E da própria invenção do sionismo.

Outro paralelo inevitável é mencionar Herodes exterminando crianças para impedir o surgimento do messias. Essa guerra é, também, para exterminar o natal. Massacrar a esperança. Esfregar nas fuças do mundo, ao menos de suas facções mais hipócritas que nem sequer um velhinho simpático, vermelho e barbudo será capaz de derrotar para aplacar a ganância do faraó contemporâneo. Detalhe estou me referindo a esse velho é um dos símbolos do consumismo, não ao outro.

Não há presentes nesse final de ano. O que comemorar quando milhares de crianças recebem balas de alto calibre e bombas destruindo suas esperanças, futuro e vidas? Tudo é desterro, passado e terror.

Ainda que se possa contestar a teocracia do Hamas não há parâmetro de comparação com o morticínio praticado pela religião do deus mercado.

Como ateu agnóstico, minha sugestão aos que se referenciam no natal é que se disponham a ir além de comer perus e acender velas bem intencionadas. Se não lhes é pertinente uma ação corajosa para desmascarar e contrapor a besta da distopia capitalista, que ao menos não façam parte das correntes de ódio.

Inevitável, e lastimável, suscitar a desconcertantemente atual canção de John Lennon, que traz como subtítulo, exatamente, “a guerra acabou”, como um tapa na cara da nossa cultura que ainda produz assombrações bélicas e dizima inocentes chamando-os de bárbaros.

Então é Natal! E o que você fez?


domingo, 13 de agosto de 2023

A atualidade do mal

Démerson Dias



Atentado Rio Centro em 1981 - autor não localizado
Na primeira noite eles se aproximam, roubam uma flor e não fazemos nada.

Não sei que advertência fazer antes.

O presente texto pode ser fruto de paranoia. Delírios persecutórios. Pode ser que o 8 de janeiro de 2023 não tenha ocorrido. Nem qualquer dos fatos mencionados a seguir. Se assim for, trata-se de um ensaio que se presta à análise clínica, sem  valor maior para a reflexão política. Exceto pelo condizente contexto de mal estar na civilização.

A segunda advertência diz respeito ao título do texto. No esboço dei o nome de “a atualidade da barbárie”, a ideia era dialogar com Rosa Luxemburgo que melhor resumiu, na consignia “socialismo ou barbárie”, o desafio da humanidade. No caso do Brasil, parecia um desafio longínquo até 2013. 

Dez anos depois, a realidade capota. Enquanto ainda tentamos entender a dialética inscrita pelas manifestações de 2013, a barbárie já não é possibilidade. É um cardápio de investidas em múltiplos níveis, da política, à economia das almas da teologia da prosperidade, passando pelo programa de devastação desenvolvimentista da amazônia. Ou sua versão nua e crua, a guerra contra o potencial revolucionário da política inscrita na tradição dos povos originários.

O título durou até ver as cenas dos ataques sofridos pela deputada Lucia Marina dos Santos, Marina do MST em Nova Friburgo. Era a esquerda toda sofrendo aquele ataque.

Alterei para “a atualidade do mal”, porque o fascismo no Brasil, com mais esse ataque, deu prova de que está derrotando a civilização com razoável margem de vantagem e segurança. Como se tratasse, agora, apenas do encadear burocrático, metódico, de iniciativas aterradoras, falsamente desesperadas e meticulosamente perversas.

Caso a primeira advertência seja descartada, a segunda pode ser desconcertante:

É como se o país inteiro estivesse numa sessão de tortura cívica. E não é a esquerda constituída toda por Spartacus, é à direita que todos são Adolf Eichmann.


Elegemos um governo que concilia com nossos algozes. E gente demais comemora a prestidigitação institucional à serviço do recrudescimento da criminalização da política (de esquerda).

E como política, incluo até aquele movimento desesperado de se vasculhar lixo em busca de ossos, que imediatamente passaram a ser comercializados.

O fascismo não apenas “saiu do armário”. É financiado regiamente por gente que se senta com Lula, dá tapinha nas costas e garante acreditar num futuro para o Brasil. E não fazemos nada.

A isso se somam décadas de planejamento, exercícios e evoluções tanto das práticas do Esquadrão Le Coq, quanto da bomba do Rio Centro e a Marcha da Família da Família com deus pela Liberdade. Concluo que até as comemorações pelo noticiário que desnuda as malandragens da família Bozo, é parte do enredo de anestesia preventiva. Algo como a serpente que hipnotiza a presa.

Talvez eu devesse escrever a próxima frase e encerrar, é como se um pesadelo fosse desdobrado em sucessivos clímax.

Os fascistas estão tramando um linchamento público como novo degrau de sua investida, progressiva, lenta e segura rumo à consolidação definitiva da barbárie. Alguém falou em assassinato de uma criança de 13 anos?

Quem será a vítima que fará desabar nossa moral e demolir a resistência da vítima de tortura?

Do meu delírio, enxergo que a aproximação da descoberta de mandantes do assassinato de Marielle e Anderson estão relacionados imediatamente à ameaça de linchamento da deputada Mariana. Até o perfil pessoal das vítimas denuncia a premeditação. Não estão perseguindo a esquerda que se confunde com civilidade.

Ou será acidental a CPI do MST? Escalada premeditada, alvos estrategicamente encadeados de forma progressiva. O 8 de Janeiro não terminou e quando achamos que tornamos inelegível o fascismo estamos sendo iludidos de que estamos rompendo com o terror, enquanto ele é construído de forma metódica, perspicaz e paulatina. De forma irrestrita, lenta e segura.

Nos divertimos discutindo contrabando diplomático enquanto o cordão de extermínio pelas mãos da polícia vai se disseminando como marco civilizatório. Tangendo nossa civilidade para calabouços em que o regime fiscal vale tudo, e a vida, nada.

O que pode ser delírio, ou constatação decorre do perfilamento das ações perpetradas, desde 2013. O fascismo é ousado. Em prazo muito curto constituiu força popular e foi capaz de neutralizar uma manifestação típica e corriqueira das esquerdas. A ponto de que efetivamente conseguiu confundir a “inteligentsia” da esquerda, que passou a condenar tudo o que ocorria como investida exclusivamente reacionária.

Aquela esquerda que, inclusive, está de volta ao poder hoje, é incapaz de derrotar o fascismo. Nem sequer o reconhece. O valida, legitima. Não faz ideia de sua dimensão, alcance ou relevância. O capitalismo possui agora até mesmo um populismo para chamar de seu, porque as esquerdas não entenderam, ou desdenharam da necessidade de afirmar e construir um partido revolucionário.

Como a esquerda não fez sua revolução, a rebelião vigente é fascista. 

Vivemos mais uma etapa da contrarrevolução preventiva. E dessa vez nem ensaiamos organizar as massas. Basta um conciliador formidável, capaz de gerir o capitalismo melhor que toda a intelectualidade orgânica da burguesia.

Trata-se de um nível acima de sofisticação. Lastreada em algoritmos de manipulação de comportamento e justificada nas desgraças que o próprio desenvolvimento capitalista produziu. 

O Brasil entrou em guerra civil praticamente quando foi assinada a lei áurea. A burguesia, ressentida com a impositiva modernização de suas práticas pela monarquia ilustrada, tratou de acionar o círculo militar para um golpe de estado. E assim, o republicanismo brasileiro, até então, um sonho de liberais foi sequestrado pela burguesia parasitária. O que chamamos de nova república foi, não mais do que um surto caracterizado pela síndrome de Estocolmo.

A esquerda da ordem, inventada por Golbery do Couto e Silva, achou que havia apagado da nossa história a era dos ditadores, enquanto era iludida pelas telenovelas disfarçadas de noticiário.

O texto ficou demasiado longo então encerro sua introdução por aqui. Minha habilidade é afetada pelos inúmeros desdobramentos que vão se delineado, entre o delírio e o desastre anunciado em letras miúdas. Nossa democracia é um placebo que matará o paciente pelos efeitos colaterais. E porque não fizemos nada, já não há quase mais nada a fazer. Por enquanto é apenas um delírio. Espero não despertar ensopado de sangue.

 

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Relativas, não, são todas ditaduras!

 Démerson Dias


Só acredita em democracia quem não está sob a alça de sua mira.


A habilidade retórica e o carisma de Lula às vezes o colocam tão à frente no debate político que esquerda e direita se esfacelam tentando decifrá-lo. Ainda assim, Lula é convenientemente impreciso quando diz que a democracia é relativa.

Por exemplo, um panfleto reacionário paulista critica a fala de Lula depois de já ter cuspido o termo “ditabranda”. Canalhas, por canalhas, vamos escolher os canalhas que não relativizam o fascismo. Como faz absolutamente toda mídia comercial brasileira.

O caso é que, ainda hoje, mais ou menos dois mil anos depois que gregos como Platão, ou Sócrates, consideraram a democracia melhor apenas que a tirania, não fomos capazes de inventar uma democracia condizente com  o nome, ao menos em etimologia honesta. Em lugar algum no mundo. 

Inclusive porque outras culturas como as africanas, as ameríndias e as asiáticas jamais haviam se iludido com essa utopia liberal “civilizada”.

Dialogando com Lula, o que são relativas mesmo são as ditaduras e o mundo de hoje vive, primordialmente, sob o tacão de ditaduras burguesas, sendo a principal, o imperialismo estadunidense.

A fábula de que um regime político é democrático porque possui instrumentos e disposições de consultas de opinião é um engodo. As eleições são basicamente pesquisas de mercado. Nos EUA as eleições nem sequer são diretas. O regime cubano é imensamente mais democrático.

No Brasil, desde Collor, não importa quem seja eleito, o único programa de governo em voga é neoliberal. Mesmo afrontando violentamente a Carta de 88 que, para o PT, era insuficiente, mas hoje parece tão ingovernável quanto o era para o coronel beletrista José Sarney.

Ficamos brincando de democracia quando elegemos os sociais democratas tucanos e o social liberalismo lulista, enquanto, na prática a coisa funciona assim, quando as esquerdas eleitas governam como direita, só resta à direita, ao vencer a eleição, pender para o fascismo. Como do resto a esquerda mesma se incumbe, do contrário, se não o fizer, a direita não se distingue.

Aquilo lá, deu nisso ali. Sejamos um pouco menos hipócritas.

E para justificar e nos convencer que as ditaduras burguesas são democracias existe toda sorte de expediente, debates exaustivamente técnicos e filosóficos que aludem à república, alternância de poder que são pouco mais do que troca de turno dos carrascos. Uns mais, outros menos dóceis, enganosos e convincentes.

Como é assim no paradigma máximo, os Estados Unidos, em que a população  é ufanada a escolher a quantidade de torques no torniquete opressor que está no pescoço da população.

Em caso recente, a própria esquerda endossa o engano quando anuncia a título de acusação que Nicolás Maduro é ditador na Venezuela. Claro que é ditador. Pouco mais, pouco menos que Lula, Biden Xi Jinping, ou Putin. Ou qualquer outro que governe sob os auspícios de um estado de classes.
Onde a democracia?

A seu favor, Maduro não pode ser acusado de estar invadindo país algum, nem promovendo uma cruzada ensandecida como a da Otan na Ucrânia. E o que dizer dos demais países europeus que se constituíram apenas por conta de colonialismos execráveis e criminosos? Mantidos ainda hoje, pela inversão dos ciclos coloniais, inspirados rigorosamente por aquela prática.

É preciso mesmo condescendência e autoengano para não notar que o que chamamos de democracia anda de costas para a justiça social, para o bem-estar geral, aliás, anda de costas para o que supomos ser nossa própria humanidade.

E sempre existirão as almas benemerentes consolando os oprimidos de que os opressores não existem, que as opressões são contingências temporárias e que heróis estão trabalhando abnegadamente em nosso favor, ou a favor de todos.

A questão não é quantos heróis nos salvam. Onde existe Estado, há um segmento (classe) esmagando outro, ou outros. Realmente não são as democracias que são relativas, elas simplesmente não existem. Somos nós que temos o péssimo hábito de relativizarmos, atenuamos e tolerarmos as variáveis de ditaduras que estão no cardápio dito civilizado.

Enquanto a “civilização” brinca de mais democracia e menos democracia o que sobra para os degradados da terra é a oscilação perversa entre morrer de morte matada, ou de morte morrida. Guerras, pragas, desterro eterno, fome de tudo.

Como alegar uma democracia que prescinde da justiça? Que destrata seus indefesos? Qualquer um que reivindique alguma democracia e feche os olhos para as desgraças das maiorias é, no mínimo, cínico. Relativo, mesmo é chamar de democracia os regimes que oprimem, encarceram, esfolam, estupram e matam exatamente as maiorias.

Voltando aos nossos exemplos do cotidiano brasileiro, desde a abolição da escravocratura explícita, o Brasil está em guerra civil contra pretos e pobres. E a sobrevivência deles é, nada menos, do que a mais longa rebelião da coragem e virtude contra forças opressoras.

As prisões brasileiras tem muito mais rebeldes despercebidos do que bandidos e criminosos. A classe desses últimos, ocupam mansões, posições requintadas e de prestígio, de poder e posses. Podemos chamá-los de burguesia. Esses que detém absoluto controle sobre os Estados.

O caráter de uma democracia é medido pela extensão e lástima de suas vítimas.

Só acredita em democracia quem não está sob a alça de sua mira.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Arrombaram a Babilônia

Démerson Dias


“E apesar dos pesares do mundo

... segurar essa barra

Minha saúde não é de ferro, não é não

Mas meus nervos são de aço

É pra pedir silêncio eu berro, pra fazer barulho eu mesma faço, ou não... Au!”

Rita Lee / Lee Marcucci - Jardins da Babilônia



Resumir Rita Lee é algo entre a tolice e a veleidade. Segundo alguns a mulher que vendeu mais discos no país. Isso já não seria pouco. Rita ser colocada junto com Raul Seixa como matrizes do rock nacional, talvez dê melhor a dimensão da coisa toda. Que o rock no Brasil não seria o que é sem Rita Lee, também descreve a contento, mas existem nuances relevantes.

Estamos falando de uma mulher que arrombou a festa do machismo e não me parece honesto falar de Rita Lee sem mencionar o seu papel como desbravadora (libertária, como ela talvez preferisse). Efetivamente, ela estraçalhou o machismo. Nesse sentido, rock, música, sucesso, é ímpar.

Será que alguém considera sua obra “água com açúcar”? Acho que vale mandar os críticos tomarem banho de sol, como os índios que bailam na tribo. Como se o rock fosse território frequentado pelos irmãos Campos e Schoenberg. Rock cabeça é o progressivo, Beatles não conta porque  foram uma espécie de canto chão. No mais, rock é desbunde, transversalidade, transgressão.

Rita fazia a gente sacudir o corpo, a cabeça e a alma. Uma Chiquinha Gonzaga contemporânea, com toda a majestade e desenvoltura.

Não dá pra resumir, nem sintetizar. Nem devemos. A obra de Rita, além de falar por si mesma, deve ser degustada com apreço e sem moderação.

Depois que encontrou Roberto de Carvalho conseguiu um parceiro que não tentou ofuscá-la, mas valorizar o que já havia de bom (tipo, quase tudo). Provavelmente seu principal parceiro na música e (certamente) na vida. Até então, Rita sobreviveu tendo que impor seu talento em territórios intoxicados pelo machismo, nos quais ela se recusou a ser o vaso pra enfeitar o ambiente.

Desculpem-me os que preferem um exame minucioso da obra. A maior virtude de Rita foi a insubordinação de ser ela mesma. E eu nem mesmo seria a melhor pessoa para a tarefa, nunca tentei examinar Rita Lee, ela sempre foi desbunde demais para ficar pensando ou decifrando. Sua obra é auto explicável, coisa que ela , felizmente, não é.

Inclusive por isso, me recuso a pensar em minuto de silêncio, talvez um minuto de algazarra, berros, arroubos e bunda-lelê. Não dá pra chorar pela partida de Rita, temos muita música pra revisitar e, se existe algo molhado nessa partida é água na boca, porque por muito tempo ainda, teremos mania de Rita Lee.



quarta-feira, 5 de abril de 2023

A indecente falta de educação.


Démerson Dias



Talvez se eu não fosse filho de professora, seria menos sensível à questão educacional.

Escola Estadual Chácara das Corujas, no Grajau (Rivaldo Gomes/Folhapress)
O contexto geral atual do país (e do mundo) atingiram meu limite de estarrecimento em relação aos bens sociais mais imprescindíveis da humanidade, educação e saúde.

A começar que sem a primeira, não existe a segunda.

Mas é também a educação que nos apresenta ao termo dignidade. Por isso é mais perseguida que qualquer terrorista ou traficante. Que, convenhamos, são funcionários das burguesias, assim como todos os facínoras.

Alcançamos um ponto em que a educação vigente é um projeto para reverter a civilização (como se essa já fosse grande coisa comparadas aos povos originários do mundo.

A frase de Darcy Ribeiro não é apenas denúncia, é profética: “A crise na educação não é crise, é projeto”.

O modelo educacional vigente, patrocinado pelas burguesias e agora arregaçado em seu despudor através do vetusto “novo” ensino médio, é inúmeras vezes pior do que o antigo projeto MEC-Usaid, denunciado, dentre outros pelo controverso, mas redimido deputado e jornalista Marcio Moreira Alves (Beabá dos Mec-Usaid).

A domesticação e assujeitamento do Brasil ao segundo plano na economia e protagonismo político é produto direto do projeto educacional burguês. Somos um país adestrado para ser servil a parasitas.

A cultura popular brasileira, incluídas a dos povos originários e afrodescendentes é disruptiva em relação aos ditames senhoriais da alta burguesia internacional.

Nos tornamos ponta de lança da investida neofacista no mundo porque chegamos ao fundo do poço humanitário. Restou à burguesia exaltar o obscurantismo estrutural e estruturante. 

Não tem jeito. Se o projeto de povo e nação brasileiros é deixado à própria sina, revolucionamos a realidade. É preciso um projeto de adestramento que nos prive absolutamente da alma, desejo e potencialidades. E essa é a matriz educacional do país: desnaturar os povos que vivem na sucessora de Pindorama. Estuprar melodia e verso da obra de Bandeira e Villa-Lobos em defesa da pátria.

O Brasil não é um país pacífico, é de luta. Até o aterramento civilizatório patrocinado pelo varguismo, o país viveu algo como uma média de levantes populares ou rebeliões a cada cinco anos de história.

Não somos um país pobre. A injustiça é mecanismo de obstrução da realização de potencialidades. Se o Brasil fosse liberal estaríamos além de uma quinta potência econômica (um marco humanamente pueril, reconheço), onde já quase chegamos como resultado de um mínimo assistencialismo turbinado.

Inventamos um sistema de saúde ímpar, o SUS. O maior do mundo em ousadia.

O Brasil não tem Nobel porque isso seria vexatório para a burguesia parasitária brasileira que se esmera febrilmente para manter o país numa avassaladora posição servil. Por que é a servidão das multidões que garante a uma das mais desqualificadas burguesias do mundo, bocejar pelas favelas vistosas e bem acabadas de Miami. Nem se quer se envergonham de serem reconhecidamente bestiais, pedantes e intelectualmente indigentes.
A propósito, é preciso emburrecer a brasilidade originária para que não fique escancarada essa indigência intelectual. É preciso muito esforço para ser mais idiota que a burguesia brasileira. E é assim porque é o que prescreve para um país subalterno a grande burguesia.

As violências, assassinatos, desterro existencial nos quais sucumbem as unidades educacionais e seus prisioneiros: alunos, professores e gestores, são o ponto fulcral da luta de classes no país. Talvez devêssemos começar por ali a revolução emancipadora brasileira. Temo que os revolucionários brasileiros, não tenhamos amor, nem coragem suficientes.


Essa reflexão é motivada e dedicada à minha mãe e as, felizmente, incontáveis pessoas da área da educação (inclusive educação popular) com quem convivi, convivo e admiro. Inclusive a Bruno e Thifany, minhas luzes.


sábado, 21 de janeiro de 2023

Brasil, terra em guerra

Démerson Dias


Se um crime foi planejado, ordenado, compreendido e implementado, seus comandantes devem ser executados. Sumariamente. Considerei inverter um sentido mencionado numa das introduções da obra de Sun Wu (Sun Tzu), “A arte da guerra” para não deixar dúvida sobre o tipo de atitude que julgo cabível diante das reiteradas e ostensivas provas de desobediência à disciplina militar praticada pelos bandidos sucessores da ditadura de 1964. A bandalheira cívico militar e seus “cabeças” A essa altura, mais de 20 dias após a posse do novo governo e mais de dez após o mais surpreendente ataque a instituições republicanas, toda a cúpula atual das forças armadas deveria estar presa, bem como os da reserva que serviram ao atentado civilizatório que alguns ainda reconhecem como governo Bolsonaro. Não vivemos quatro anos de um governo. Tratou-se de um acinte civilizatório que negou toda a construção razoável que a humanidade vem tentando construir há séculos. Ainda que com percalços. AS recentes fotos de Yanomamis explicitam a degradação que menciono. Três nomes, em minha opinião, deveriam encabeçar a lista de punições, em particular por serem os mais indecentemente conhecidos: Sérgio Etchegoyen que recentemente, afronta publicamente o comandante em chefe das forças armadas. Assume abertamente o papel de porta voz da insubordinação. Eduardo Villas Bôas que, convenhamos, já está sobrando faz tempo, como um dos avatares desse golpismo e explicitamente apresentado como um dos mentores do movimento. E já o era desde a época da molecagem de Sergio Moro et caterva. E Augusto Heleno, último chefe do GSI que avalizou e viabilizou a destruição de patrimônio público na sede máxima da república. Como folclore podemos anuir que parece disposto a provar que múmias amaldiçoadas podem efetivamente caminhar à luz do dia. Destaco particularmente os criminosos usurpadores militares. Os civis ainda dependem de apuração, já os militares estão aberta, explícita e ostensivamente em insubordinação ao comandante e à constituição. São os mais conhecidos comandantes dos traidores. Dispensa desonrosa é o mínimo cabível para crime de sedição. No entanto, apenas após cumpridas as penas de detenção. Ok, são vetustos e velhacos, apliquem-se os dispositivos pertinentes. Seria irônico ressuscitar a Lei de Segurança Nacional, vomitada pelos depravados de 1964. Pela lei que a substituiu, todos estão enquadrados crimes contra o Estado Democrático de Direito, contra a soberania e contra as instituições, pelo menos. Observo que mesmo o Superior Tribunal Militar, como justiças entre pares, não é confiável a essa altura. É corresponsável por “isso tudo que está aí”, quando isentou o meliante terrorista Jair Bolsonaro em 1988 (por 9 a 4, diga-se). Pessoalmente tenho algumas boas referências sobre as autoridades do STM, inclusive as de patentes. Em todas as oportunidades que tive de interlocução com aquela corte, os diálogos sempre foram de alto nível e grau de respeito. Por vezes até mais francos do que com alguns membros da magistratura civil. Dura lex sed lex Mas vivemos tempos de excepcionalidades. E tudo o que se relaciona à vida militar está conspurcado pelos vândalos que dilapidaram qualquer resquício de civilidade nos últimos quatro anos. Como não houve coragem de insubordinação contra o vandalismo disciplinar, todos são coniventes. Ou seja, não existe militar no Brasil que não tenha parcela de responsabilidade, ainda que por omissão, com a bandalheira. Essa é uma convicção minha, política e civil, óbvio. O vandalismo institucional, em hipótese alguma é abonado pelo Código Penal Militar que rege a conduta do segmento. Um título inteiro desta lei trata dos crimes contra autoridade e disciplina. Trata do aspecto militar. Nem todos vão entender que militar, rigorosamente, não existe como expressão civil. Porque a disciplina é que os define. E a autoridade máxima é o presidente. Isso é o que reza a Constituição em vigor. Outros poderes, instâncias e disposições são cabíveis. Mas o chefe máximo e, praticamente, incontestável das forças armadas hoje é Luis Inácio Lula da Silva. Deixa eu repetir por que me dá prazer e quero provocar a bilis dos degenerados. Militar que não obedece Lula já é imediatamente, criminoso. Mais do que qualquer civil que o faça. Precisa desenhar? Militar que ousar dirigir a palavra a Lula sem que tenha permissão, tem que ir pra cadeia. Militar não tem voz. Bate continência e diz “sim senhor!” e só fala quando explicitamente lhe é dada a palavra. Pra constar ainda hoje tentamos discutir a extensão dos direitos humanos em sede militar. Não é um debate simples, nem fácil. Na justiça militar, funcionários civis ainda se debatem para ter seu status civil plenamente reconhecido, perante os rigores da disciplina militar. Estou assumindo que é um desafio para a sociedade encarar.

Em se tratando de militares, no entanto, o fato é que eles têm a letra de uma a lei muito rigorosa explicitando as exceções de direitos, em relação ao mundo civil. A saber: Militar não pode se reunir, agindo contra a ordem recebida de superior, ou negando-se a cumpri-la; recusar obediência a superior, assentir em recusa conjunta de obediência. Pena: “reclusão, de quatro a oito anos, com aumento de um terço para os cabeças”. Art 149. Insubordinação e incitação é crime punível com prisão. De insubordinação a motim, existe prescrição para uma quantidade grande de transgressões. como recusar obedecer a ordem do superior, regulamento ou instrução: Pena - um a dois anos, de detenção. Art. 163

Promover ou participar para discutir (contestar) ato de superior, de seis meses a um ano de detenção a quem promove e dois a seis meses apenas por ter participado da conspiração. Art. 165. Criticar publicamente ato de seu superior ou assunto atinente à disciplina militar, ou a qualquer resolução do Governo: detenção, de dois meses a um ano. Art. 166. Oi, Etchegoyen! Você não sabe ler, ou a demência está batendo? Existem dois códigos penais em vigor para a disciplina militar. Não os cotejei, são assemelhados. Como não é minha praia, não sei porque ambos os códigos de 44 e de 69 seguem em vigência. Os termos mencionados são da lei de 1969. Tutela militar, ou soberania das leis? Alguém tem dúvida que esses militares desconhecem que estão em afronta explícita ao código penal militar? Alguém tem dúvida de que estão expressamente afrontando a lei e a autoridade presidencial? Porque a lei não está sendo cumprida e eles presos? Não acompanho a mídia burguesa, mas não vi uma citação sequer desses dispositivos penais. Já se disse que imprensa burguesa é, sobretudo, o que ela omite. São OBRIGAÇÕES. Se tem uma coisa inerente aos militares é o cumprimento da disciplina. Sem isso, ou afrontando isso, são, basicamente, criminosos armados, perigosos e predispostos a matar. Se uma pessoa com um guarda chuva pode ser assassinada, imagine pessoas armadas e treinadas, que tipo de reação deveria receber do poder constituído? E se isso não ocorre e porque nesse país a lei só vale para punir pretos pobres e brancos pobres como pretos. E esses militares são todos branquelóides. E seus mandantes, idem. Detalhe, como a disciplina é rigorosa, a aplicação das penas é basicamente imediata, tão logo constatada a transgressão. Demorô, como se diz. Uma exceção civil se faz necessária, trata-se da pessoa em função civil hoje da mais alta responsabilidade, depois dos bolsonaros: José Múcio tem acobertado absolutamente tudo. É mais um conspirador. Cadeia pra ele também. E há um detalhe que não sei como é recepcionado na Constituição de 1988. O código militar prevê pena de morte. A farsa da anistia em causa própria Gritos como Anistia nunca mais, sem Anistia, ou Anistia é o caralho ecoam por todos os cantos do país. O ultimo não me incomoda, mas nunca consigo decifrar o grau de machismo encerrado na expressão. Um debate ficou insepulto, mesmo com diversas iniciativas de comissões de memória e restauração quanto aos crimes da ditadura. Não existe hipótese de comparação a qualquer dos crimes cometidos pelos insurgentes aos crimes cometidos pelo Estado, ou a seu serviço. Isso é elementar no debate de direitos humanos. Quando inventaram a Lei da Anistia, o que prevalecia era o cinismo. Que anistia alcançou os mortos, assassinados e suicidados? E foram milhares. A ideia da anistia é procedimento de recuo tático, quando se sabe que a maré vai mudar e se pretende promover impunidade. Alguns setores da esquerda reivindicam como conquista. Não deixa de ser, mas enquanto resposta dos militares, a intenção era proteger os seus. Não houve nem sombra de intenção democrática na anistia pautada pelos militares. Foi um movimento tático que atestava o enfraquecimento do regime. Podemos ler como avanço nosso, mas foi um recuo deles. Militarmente há diferença entre esses dois movimentos. O que me leva a pensar o papel do atual governo. Farda, camisetas ou paletó? Lula é experimentado. Talvez não exista no Brasil político mais experimentado com ele. Ainda assim, não é infalível. E ele mesmo menciona a necessidade de ser cobrado. Vamos às cobranças, então! Registro dois possíveis erros na condução do governo em torno dessa questão. O primeiro e mais grave, pela minha perspectiva é tratar política como um jogo palaciano. Democracia sem povo é regime estéril, ou ditadura burguesa. O segundo é sua resistência em agir como comandante em chefe das forças armadas. Há circunstância em que isso pode configurar crime de omissão. Como já demonstrei, em termos republicanos militar não é poder e em termos militares insubordinação dá cadeia. Não cumpriu ordem, cadeia. Desobedeceu a autoridade, cadeia. Deixou de cumprir suas obrigações, cadeia. Falou quando não devia, cadeia. Lula está tratando militares como se tivessem direitos civis. Em relação ao comandante em chefe, militar só abre a boca quando autorizado. Fora disso a única coisa que pode dizer é sim senhor. No contexto de dimensão pública, militar é o polichinelo da democracia, defende com a própria vida quando o país é atacado e morre se necessário. Será que é preciso desenhar? Paira ao largo da questão que deixar os ataques dos militares à Lula e à presidência sem resposta afeta a própria instituição do cargo, as instituições propriamente ditas, bem como a própria constituição. Lula não pode tratar a questão apenas como uma indisposição contra a sua liderança. No contexto do ataque à democracia, o país todo é alvejado. O povo, a história. A mentalidade que acha razoável ofender a autoridade presidencial é a mesma que considera a vida dano colateral. Falta ao governo alcançar a dimensão pública desses ataques. A impunidade desses atos “justifica” nas cabeças dementes dos insurretos, a liberdade para seguir torturando, matando, exatamente o lado vitorioso da democracia. Não se trata de jogo retórico. 700 mil pessoas são a prova material, que não podem ser esquecidas, nem negligenciadas. Observo outro erro de procedimento, no caso, bastante específido, quando Lula se comporta como magistrado, enviando ou confiando em interlocutores. Quem examina, sopesa e pondera em situações de relevância é o judiciário. No executivo, ordem, ou decisão adotada fora de hora costuma gerar desastres. Alguns dirão que exatamente por isso a cautela é necessária. Pode ser em outras circunstâncias e na vida civil. Insubordinação militar só possui um tipo de resposta válida. E isso é regra, é lei. Se um comandante admite ser desautorizado, ainda que esteja errado, está semeando a sublevação da tropa. Ninguém precisa concordar com o regimento militar, mas é a própria constituição que determina que o presidente deve ser o comandante máximo. Se ele não se comporta como tal, também está desrespeitando a constituição. Quanto mais tempo Lula demora para usar suas prerrogativas e atribuições, mais o fantasma da tutela se espraia pelos corredores da república. Não se trata de decidir que vestimenta manda no país, se a farda, o paletó, ou pijamas e camisolas. Estamos patinando em território em que as certezas são incandescentes. Quando nos esgueiramos por razões obtusas, como suspeitar se existe prerrogativa civil por parte dos militares, estamos afirmando que a tutela efetivamente se sobrepõe à constituição. Na dúvida, vamos chamar a Gaviões da Fiel, eles parecem ter disposição pra resolver impasses como esse. Não basta denunciar o fascismo, temos que ser antifascistas A disposição alemã de que se 10 não se levantam quando um fascista se senta, são onze fascistas não é anedota. Fascismo não se tolera. Quem tolera, o endossa. A burguesia brasileira endossa o fascismo. Hoje mesmo, não está rejeitando vandalismo do 8 de janeiro, o que rejeita é ser associada a ele. Quantos emitiram desagravo? Lemann o homem mais poderoso do Brasil repudiou a ação fascista ao longo dos últimos anos? Sendo o país capitalista, como se comportam as pessoas físicas que detém a quase totalidade da riqueza do país? O que o cretinismo pedagógico da burguesia vai prescrever em suas instituições de ensino sobre esses atos? É quase comovente que o grupo globo tenha descrito os atentados como terrorismo. O discurso, no entanto, não era a favor da democracia, mas em defesa da própria linha editorial que endossou quase tudo o que permitiu que isso ocorresse, a começar pela validação da política econômica totalmente blindada pelo grupo. Além da naturalização de uma campanha que em 2018 já era francamente fascista. Concretamente, Bolsonaro é descartado porque falhou. Não fosse sua incompetência, por mais mortes que tenham ocorrido na pandemia. ainda estaria sendo o plano A da burguesia. O mesmo ocorreu no regime inaugurado em 64. Caiu porque se enfraqueceu, não porque a burguesia queria a redemocratização. A mídia, um dos partidos da burguesia, já tem sua política de redução de danos preparada e não envolve os piores criminosos das forças armadas e milícias. Bolsonaro é mau militar, segundo Geisel. Não foi salvo pelo STM, ao contrário, foi inocentado exatamente para não fragilizar a autoridade militar, então sob ataque. Não pode atenuar os crimes do fascismo. A massa de manobra do fascismo em alguma parte é também vitimada pela manipulação. Mas por enquanto só ela está sendo alcançada pelo judiciário. No Brasil fascismo foi gestado por dentro das forças armadas, sem esquecer que as milícias envolvem precipuamente as polícias militares nos Estados. Uma organização criminosa que permitiu, tolerou e endossou não apenas toda forma de tráfico contrabando como também a entrada e organização de células neofacistas como batalhão azov. Claro que existem forças policiais que não coadunam com essas vertentes. Policiais e organizações anti-fascistas tem dado combate e garantido resistência em todos os espaços que podem. No momento, o governo Lula precisa entrar nessa guerra, não basta condenar o fascismo é preciso ser antifascista. Não posso concluir sem mencionar que, a despeito, ou em anuência a tudo o que escrevi pergunto-me se eu mesmo não estarei sendo condescendente, afinal, o paradigma que temos para punir fascistas é o Tribunal de Nuremberg.