quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Rosa, o portão e a rosa


Rosa, generosa, através dela fui adornado por esta bela imagem. Dentre suas diversas belezas, ela não guarda para si o que pode enaltecer os demais. Sim, o belo não é apenas saciedade dos nossos sentidos, desejos, ou necessidade de nos preencher de algo que destoe das inúmeras vicissitudes e amarguras.
O belo nos adorna. De admirá-lo, assimilamos um fragmento de teor incerto que, como semente, passa a habitar e florescer em nossa humanidade.
Assim era a rosa, encantada com o mundo além do jardim.
A cada nova paisagem, trazida por uma mudança na incidência do sol sobre as áreas vizinhas, tudo era razão para fazer-se cada vez mais bela.
Queria sorver aquela beleza e não entendia como o insensível portão não permitia a concretização de algo tão essencial a sua existência.
Pobre portão, o jardim todo o supunha vil, insensível.
Que maldade, aprisionar a rosa!
Mas era ele também prisioneiro... O que mais temia era que um dia algo fizesse o que ele próprio, por si, não era capaz. Caso lhe abrissem e permitissem à rosa a liberdade, como haveria de viver, sem o roçar de suas pétalas?
(dd/l)

terça-feira, 10 de abril de 2012

Bilhete do falso amor inacabado

Ao cabo éramos mesmo arqueólogos.
De platitudes, de razões, desrazões, das sadias insanidades.
Mas o afeto era mais explícito que sabido, ou assumido.
Até que um inusitado pedaço de afeto desgrenhado num verso de uma folha de talonário, instaurou uma afetividade remota.
De um achado quase vulgar de tão singelo, perdido entre taras, desvios e devoções venais, imaginamos o contexto em que existiu o curioso bilhete.
Trazia em si as virtudes de um amor ferido, inacabado, mas que depende de reafirmar-se, concluso, para que os afetos de acomodem, ou desarranjem de vez.

“Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que você não significa nada.
Não poderia dizer mais que alimento um grande amor.
Sinto, cada vez mais, que já te esqueci!
E jamais usarei a frase Eu te amo!
Sinto, mais tenho que dizer a verdade.
É tarde demais!!!” (sic)

A simetria das contradições é desconcertante. Uma leve inclinação afetiva do mesmo bilhete delata que o amor é insepulto. Não há ruptura, há lamento, provavelmente pelo amor unilateral.

Não te amo mais, estarei mentindo, dizendo.
Que ainda te quero, como sempre quis.
Tenho certeza de que nada foi em vão.
Sinto dentro de mim.
Que você nada significa, não poderia dizer, mais
Que alimento um grande amor, sinto.
Cada vez mais, que já lhe esqueci, tanto jamais usarei essa frase.
Jamais usarei eu te amo, mas tenho que dizer a verdade.
Eu te amo, é tarde demais!!!!

“Futuros amantes, quiçá, se amarão com o amor que eu um dia deixei pra você”

Ficamos sem saber porque estava perdido num desvão da posteridade. Se o desprezo foi tamanho, ou se foi lançado num gesto de desmedida entrega reconciliatória.


O texto do referido bilhete, foi encontrado pelos funcionários do Arquivo Geral do TRE-SP. Cujo local dava lugar a um bingo e um sexshop.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Iluminuras

Conheço José De Arimatéia Silva, o Ari, de longa data. Nem posso dizer que foi grande a convivência, os diálogos. Mas a afinidade não tem dessas frescuras, é meio à flor da pele, no akasha, tao, ou qualquer outra dessas inominâncias. Independente dos ângulos geométricos entre nós, esse laço não se desfez e agora vamos realizando de forma um pouco mais cuidadosa, como devemos zelar pelos afetos. Descubro, depois, que algo mais nos conecta, a flor do lácio. Não me comparo apenas remeto porque a forma que Ari persegue não descuida da estética propriamente poética. Minhas réguas estão desajustadas nessa aspiração.
Tenho também a satisfação de ter sido pelo menos uma das janela de acesso de Ari a outra transbordância das minhas relações sensíveis: Claudia Cristina Tonelli, essa de uma história que ainda vamos desvelando no decorrer dos sentimentos. Natural, Ari encontra Claudia e também transborda. Queria poder ter inveja, tanto da troca entre eles, quando desse blog que, confessamente, é cria afetiva do encontro. Mas não tem jeito, somos de uma geração fadada à consagração do afeto (e do prazer também, mas dizer isso no facebook também é pecado, xxxxxx ).
Transbordâncias plúrimas. Não sobra espaço vazio. Mas juro que se tivesse um pouquinho de inveja seria mais assíduo com minha própria pena. Mas o que desampara é o apego e o egoísmo. O amor não nos deixa desamparados porque nos preenche os vazios. Eis ai, as Iluminuras do Ari complementando suas plenitudes. E ajudando a preencher as lacunas do mundo. EVOÉ!
Siga para: http://iluminuras-jose-arimateia.blogspot.com.br/

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ENTREGA


Deixa,
Não há solidão
Que dure o tempo de nossa humanidade

Que solidão é a falta de paz consigo
E o medo é um sofrimento da antecipação

Deixa,
Mas não me arraste
Aos seus confins

Preciso das suas auroras
Se não podes dar-lhes luz
Deixa que ajude a pari-las

Deixa,
Me ilumine
Corrobore

Me preencha com a insensatez
Dos que criam luz do breu

Às vezes o sentido é a direção a não seguir

domingo, 28 de agosto de 2011

Carinho, que te quero bem

(poema sobre as mãos de Jan Vianna)

O nome é diminutivo, pra que não se diga que falta espaço.
Acomoda-se onde houver disposição, desejo, necessidade, ou mais carinho. . .
Mas o carinho, antes que nada, foi feito pra preencher todo e qualquer espaço.
Espaço vago, espaço útil, espaço pleno. Inclusive preencher a vida em que falta de espaço, com aquilo que mais precisa: carinho.
Porque onde há carinho, sempre cabe mais um.
Mais um carinho, mais um afeto, mais uma gota de felicidade. . .
Aliás, carinho é a felicidade que não transborda
O carinho só incomoda quem não sabe de que se trata
Carinho gesto, carinho beijo, carinho sexo, carinho abraço . . .
Inclusive carinho só carinho mesmo. Sem pretensões, definições, processos . . .
Carinho é aquilo que, mesmo se não sabemos, quando não temos, faz falta.
Expressar carinho é dizer ao outro que somos dotados de uma particular e peculiar fonte de energia vital
que jorra, brota,
incontrolável,
de cada molécula de nós mesmos,
e por isto doamos
e, ao cabo, ainda que não seja este o propósito,
nos retroalimentamos.
É um looping sem fim.