quarta-feira, 2 de maio de 2018

TRAGÉDIA E FARSA DE UMA NOITE EM CHAMAS

Por Démerson Dias

Foto: Corpo de Bombeiros / Último Segundo
Metade dos meus vinte anos como sindicalista trabalhei próximo ao prédio incendiado e demolido na rua Antônio de Godói. A sede do antigo Sintrajus  (Sindicato dos Trabalhadores da Justiça do Trabalho) era bem em frente. Na unificação, quando foi constituído o Sintrajud, mudamos para o nº 88. Além da Polícia Federal, já houve ali um posto do INSS.

A mídia vende páginas de propaganda às empresas de especulação imobiliária. Silêncio absoluto sobre o crime social e econômico que cometem. Ao falar da tragédia se desespera para tentar acusar, primeiro às vítimas, evidente. A culpa é sempre da vítima. Em segundo lugar, os veículos de comunicação hegemônicos lançam uma cortina de fumaça sobre a responsabilidade dos órgãos públicos. Política habitacional é responsabilidade de todas as esferas: União, Estados e Municípios. Como a mídia paulista blinda de forma ostensiva e ordinária o governo estadual, o tema restringiu-se às responsabilidades formais pelo prédio. O patrimônio.

Ninguém menciona a responsabilidade sobre as vítimas. Claro, o jornalão que vende espaço à especulação é parte do conglomerado que lucra inclusive com as possíveis mortes ocorridas nesse incêndio.

Relegada ao absoluto descaso, a população em situação de rua vai se acomodando onde dá, e como pode. Isso desemboca em um alfabeto inteiro de siglas, cada qual com uma forma própria de arregimentação e organização, sendo a mais expressiva delas, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) cuja figura principal é Guilherme Boulos. Naquele prédio especificamente os organizadores não tinham relação com o MTST.

Defensores do capitalismo e do livre mercado insinuam que há dolo na cobrança de “aluguéis” por parte do movimento social. Podemos concordar com esse raciocínio se for extensivo a todo o mercado imobiliário. A Constituição é clara sobre o uso social do espaço ocioso. As invasões dos ricos sobre áreas de preservação e terrenos públicos são chamadas de empreendimentos, e os meliantes responsáveis são chamados de empreendedores.

Uma das principais autoridades responsáveis pelo descalabro, o ex-prefeito de São Paulo, diz que havia criminosos ali, como se isso justificasse o descaso. Os ocupantes estavam no prédio pela absoluta incompetência do poder público em resolver o drama habitacional do país. E não há solução porque os amigos e financiadores dessas autoridades lucram com a miséria, marginalização e morte das pessoas. E a isso chamam de civilização, onde a grana vale mais que a vida. E alguns idiotas acham que isso faz sentido.

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