sábado, 3 de janeiro de 2026

Palestina e Maduro - A destituição da ordem pós-guerra

 Palestina e Maduro - A destituição da ordem pós-guerra

Démerson Dias


Mas não se preocupe meu amigo

Com os horrores que eu lhe digo

Isso é somente uma canção

A vida realmente é diferente

Apenas um Rapaz Latino Americano - Belchior




Imagem gerada no Gemini. Prompt do autor

Não nos enganemos, o imperialismo sediado nos EUA realiza movimentos desesperados para permanecer no poder, ou ainda, para permanecer relevante.

O genocídio na Faixa de Gaza entrou em modo farsa. Anunciaram um armistício para “o mundo ver”. A limpeza étnica continua, agora numa versão talvez mais cirúrgica, e sem os holofotes que fazem o mundo se escandalizar. Israel mudou o viés da propaganda de proselitismo bélico explícito para ação camuflada.

A ONU, com todos seus instrumentos, inclusive seu Conselho de Segurança mostrou-se incompetente e incapaz. Não estou endossando essa farsa, sabemos a que servem os poderes de veto. Concretamente, se Hitler tivesse assento e poder de veto na Onu, a história da Segunda Guerra teria transcorrido de forma praticamente idêntica. Afinal, as políticas de não agressão da época serviram apenas para dar ao Reich a chance de se fortalecer até ter condições de rompê-las.

O sequestro de Nicolás Maduro, após mais um ato criminoso dos EUA, é tanto um abuso, quanto uma medida de desespero. Tanto pior que os EUA tenham Trump “no comando”. Tendo erguido seu império com base em negociatas, fraudes e falcatruas, seu governo não teria condição de agir de maneira distinta.

Após a longa fase de blefes — dos quais teve que recuar, exceto diante dos países que lambem as botas do imperialismo —, Trump restringiu vertiginosamente tanto sua área de atuação, quanto os recursos à disposição.

Porém, para uma seita radicalizada, medidas de força são evidência de "atitude correta" e hombridade. Assim como tantos afirmam que deus está com eles em todos os momentos de virilidade, estão todos prontamente dispostos a mudarem a chave seletora quando deus os abandona , nas mudanças de “sorte”.

Fato semelhante ocorre com o bolsonarlismo. Viril, impetuoso e virtuoso enquanto os contornos do poder permitiram, tornam-se mansos, vitimizam-se, denunciam quando a onda da história muda. Frisemos com todas as ênfases. Se a visão de mundo aludida, ditadura, torturas e bandido bom é bandido morto estivessem efetivamente em vigor. Estariam todos mortos das forma mais infames possíveis. Pois esse era o paradigma de realidade que reivindicavam. É deplorável ver defensores incondicionais de um ditadura repudiarem a “severidade” da ordem em um Estado Democrático de Direito.

Não é por outra razão que a única coisa que não devemos tolerar é a intolerância (apud Karl Popper).

Ainda que o genocídio em Gaza e o sequestro de Maduro estejam em escalas de violência incomparáveis, ambos seguem o mesmo roteiro. O imperialismo encolheu porque o mundo se expandiu.

Se a ONU não fosse uma farsa cada vez mais desmoralizada, talvez o próprio Trump devesse ser sequestrado até que liberassem Maduro, e cessassem o suporte sem o qual  Israel não sobreviveria a uma reação coordenada em defesa da Palestina.

Estas palavras têm ênfase maior na indignação do que no exame rigoroso sobre a situação real. Isso é apenas uma crônica.


"A vida realmente é diferente, quer dizer: Ao vivo é muito pior"


PS: Depois de publicar notei que para alguns pois ter sido sutil demais. Usei hombridade, virilidade etc porque uma das características dessa seita é a adesão ao patriarcado.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Por que esse natal nunca chega?

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Por que esse natal nunca chega?

Démerson Dias


“Ou então felicidade

É brinquedo que não tem”

Boas festas - Assis Valente


Qualquer um que tenha realmente usado um segundo para reflexão sincera no natal terá sentido esse mesmo desconforto.

O natal nem chega e já passou. Aos que têm sorte porque a outros tantos natal nunca existiu, ou mora no limite do delírio.

Não detesto o natal nem quando se repete que há neve e aquele senhor idoso veste um pijama vermelho típico para o inverno enquanto experimentamos 40 graus de sensação térmica. Estou entre os afortunados para os quais o natal existiu ao longo de toda infância. História para outras narrativas.

Nada de novo há nestas minhas palavras. A certa altura, me acalentaram as perguntas de John Lennon “And what have we done?”. “E o que nós fizemos?”

Acabei me cansando da hipocrisia antes de saber por Adorno e Horkheimer sobre a “Indústria Cultural”, da “Sociedade do Espetáculo” por Guy Debord e da “Sociedade de Consumo” por Jean Baudrillard.

Meus privilégios se escancaravam quando da minha janela eu via que natal algum revertia agruras, solidões e pesares. Notava o esforço sincero e operoso com que todos à minha volta recobriam por curto tempo as marcas inevitáveis dos desnatais (https://jabuticabas.blogspot.com/2023/12/desnatal.html).

Algo formidável no advento dos LLM (vulgo IAs estatísticas) é que treinando engenharia de prompt precisamos ser explícitos. Peço uma descrição para a geração de uma imagem e a IA traduz assim o contexto:

Proposta de Ilustração: "O Reflexo do Desnatal" Composição: Primeiro Plano (O Observador): A silhueta de um homem (representando o autor) de costas, observando através de uma janela embaçada pelo calor. Ele segura um livro ou apenas observa, em uma postura de reflexão melancólica. O Reflexo na Janela: No vidro, o reflexo de uma árvore de natal excessivamente iluminada, com luzes neon artificiais e a figura de um Papai Noel de plástico suando sob o "pijama vermelho", simbolizando a Indústria Cultural. O Cenário Externo (A Realidade): Através da janela, o que se vê de fato não é neve, mas uma rua urbana sob um sol escaldante (tons de laranja e amarelo). Do outro lado da rua, pessoas comuns seguem suas vidas em "desnatais": um vendedor ambulante, alguém sentado sozinho em um banco ou o vazio de uma calçada quente, evidenciando a Sociedade do Espetáculo que ignora a realidade. Estilo Artístico: Um estilo surrealista contemporâneo ou uma pintura digital com fortes contrastes de cores (o vermelho/verde artificial das luzes contra o ocre/cinza da realidade urbana).

Uma ilustração editorial reflexiva de um homem observando o Natal de uma janela. No reflexo do vidro, vemos luzes de Natal brilhantes e artificiais e um Papai Noel comercial. Através do vidro, a realidade é uma rua brasileira sob um calor de 40 graus, com tons de ocre e pessoas em situações de solidão urbana. Estilo artístico inspirado no realismo social com um toque de surrealismo, cores contrastantes entre o neon natalino e o calor do asfalto. Clima de reflexão crítica ao vazio opulento do natal mercantil."

Dirão os convictamente distraídos que estou entre os cínicos que turvam o olhar da realidade. Em 60 anos não haveria mais como suportar o exército de convertidos que grita “Natal” incansavelmente sem um senão sequer. E acusam os que não conseguem fechar os olhos “nem por um momento”? É exatamente esse momento que é a maldição toda.

Curtir o natal é um dos ritos que impede que ele algum dia se realize. Então, não me peçam que compactue. Cumpra se o natal ou desmonte-se a farsa!


PS: Compartilho apenas para alguns e no feed do face (meu feed, minhas regras!). Uma das angústias que tenho no natal é o consenso pela hipocrisia. Não sou pessimista, só me recuso a ser otimista a qualquer custo. Démerson Dias. 24/12/25 13:29 – 22.000,98934

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Entre Coerência Estatística e Validade Epistemológica

 

 Entre Coerência Estatística e Validade Epistemológica: Governança Epistêmica no Uso Crítico de IAs

Autor, engenharia de prompt, direção conceitual e revisão final: Démerson Dias

Composição algorítmica gerada por modelo estatístico de linguagem: ChatGPT

Ilustração: Gemini [após exaustivas tentativas em diversas IAs]


A incorporação acelerada de modelos de linguagem de grande escala (LLMs) no trabalho acadêmico, científico e profissional produziu um deslocamento silencioso, porém profundo, na forma como o conhecimento é elaborado, registrado e retomado. A questão central já não se limita à utilidade instrumental dessas tecnologias, mas à natureza do tipo de coerência que elas produzem quando integradas a processos prolongados de pesquisa e elaboração conceitual e às consequências epistemológicas de seu uso prolongado em pesquisas extensas. O problema não é se os LLMs funcionam — isso é evidente —, mas como funcionam, em que condições funcionam bem e quais limites estruturais emergem quando se exige deles continuidade conceitual, rigor metodológico e densidade reflexiva.

ACoerência estatística não é validade epistemológica

Os LLMs operam por meio de correlações estatísticas extraídas de grandes volumes de linguagem. Sua força reside na capacidade de produzir sequências textuais altamente plausíveis, coerentes em nível sintático e semanticamente ajustadas ao contexto imediato. No entanto, essa coerência é de natureza probabilística, não epistemológica. Ela não decorre de critérios internos de verdade, relevância ou consistência conceitual ao longo do tempo, mas da recorrência de padrões linguísticos previamente observados.

Em interações curtas, essa distinção tende a passar despercebida. O problema emerge quando o uso se estende por longos ciclos de pesquisa, nos quais conceitos são refinados progressivamente, premissas são testadas, abandonadas ou reformuladas, e a memória do percurso importa tanto quanto os resultados parciais. Nessas condições, a coerência estatística pode mascarar perdas graduais de precisão, simplificações indevidas e reapresentações de conclusões como se fossem novas. Trata-se de uma coerência fácil, sedutora, mas epistemicamente frágil.

B – Entropia conceitual e perda progressiva do encadeamento argumentativo

Um dos efeitos menos evidentes — e mais problemáticos — do uso continuado de modelos de linguagem é a produção de uma sensação de continuidade discursiva que não corresponde, necessariamente, à preservação do percurso conceitual que orientou a elaboração do texto. As respostas mantêm fluidez, coerência local e adequação temática, mas essa estabilidade ocorre mesmo quando decisões teóricas, advertências metodológicas ou deslocamentos ontológicos previamente estabelecidos deixam de operar como critérios ativos da resposta.

Em termos práticos, o que se observa é um processo pelo qual o sistema passa a “resumir” o diálogo não como sequência de decisões conceituais, mas como um conjunto de temas, tons e estruturas argumentativas recorrentes. Elementos centrais para o pesquisador humano — como reservas explícitas, silêncios estratégicos, suspensões do juízo ou escolhas negativas (“não partir deste eixo”, “não adotar tal vertente”) — tendem a ser progressivamente diluídos, mesmo quando foram formulados de modo claro ao longo da interação.

Essa diluição não decorre de falha pontual, distração ou erro de interpretação isolado. Trata-se de um mecanismo estrutural pelo qual o modelo prioriza a continuidade formal da resposta em detrimento da fidelidade ao encadeamento conceitual que lhe deu origem. O sistema preserva o que é mais recorrente e estatisticamente estável no diálogo, enquanto relega a segundo plano aquilo que funciona como exceção, tensão ou deslocamento crítico.

É nesse ponto que se pode falar, com maior precisão, em entropia conceitual: um processo no qual o texto mantém aparência de consistência ao custo da perda gradual de densidade teórica. O argumento não se rompe, mas se torna progressivamente mais genérico, mais assimilável e menos sensível às escolhas epistemológicas que deveriam orientá-lo.

Do ponto de vista técnico, esse fenômeno está associado ao que se denomina compressão do histórico discursivo — isto é, a redução do percurso argumentativo a versões simplificadas que privilegiam padrões médios de inteligibilidade. Contudo, mais importante do que o termo é compreender seu efeito: à medida que o diálogo avança, o sistema tende a substituir o processo de pensamento por sua aparência final, convertendo decisões metodológicas em traços estilísticos.

As consequências metodológicas são relevantes. Advertências conceituais podem ser reconhecidas linguisticamente e, ainda assim, neutralizadas no desenvolvimento posterior do texto. O sistema não “desobedece” às diretrizes; ele as reabsorve em uma narrativa coerente, porém progressivamente descolada do rigor que as motivou.

Nesse contexto, a Governança Epistêmica não consiste em exigir maior “memória” ou fidelidade literal do sistema, mas em interromper deliberadamente esse processo de entropia, reinscrevendo de modo explícito — e reiterado — os critérios, limites e decisões que não podem ser tratados como meros elementos de estilo. Sem essa intervenção consciente, a coerência estatística tende a prevalecer sobre a validade epistemológica, exatamente no ponto em que o rigor se torna mais necessário.

C – Governança epistêmica como exigência metodológica

É nesse contexto que a gestão ativa de contexto deixa de ser uma preferência operacional e se torna uma exigência metodológica. Tratar a interação com LLMs como diálogo espontâneo é inadequado quando o objetivo é produzir conhecimento robusto. O que se impõe é uma arquitetura de trabalho em camadas: documentos-base explícitos, regras declaradas, consolidações periódicas e reinícios deliberados além de vigilância permanente e periódica do cumprimento das diretrizes estabelecidas.

Essa abordagem não é uma invenção extemporânea, mas se alinha a críticas clássicas à ideia de que inteligência possa ser reduzida à manipulação formal de símbolos. Joseph Weizenbaum já advertia, ainda nos anos 1960, que sistemas como o ELIZA produziam efeitos psicológicos desproporcionais à sua complexidade real. O episódio em que sua própria secretária solicitou privacidade para “conversar” com o programa tornou-se emblemático: não por revelar uma máquina inteligente, mas por expor a tendência humana de projetar sentido, intenção e autoridade onde há apenas processamento sintático.

Michael Polanyi reforça esse limite: sabemos mais do que podemos formalizar. LLMs, por definição, operam apenas no que foi formalizado linguisticamente. Miguel Nicolelis, por sua vez, insiste que cognição é inseparável de corporeidade, historicidade e interação com o mundo — dimensões ausentes em sistemas puramente estatísticos. Esses aportes convergem para uma mesma conclusão: sem governança epistêmica explícita, o uso intensivo de LLMs tende a produzir uma simulação de entendimento, não entendimento propriamente dito.

A seguir, apresenta-se a síntese de dois estudos de caso que embasam empiricamente as reflexões anteriores.



D – Caso 1 – Violação de diretriz conceitual explícita e normalização do usuário



No primeiro estudo de caso, o usuário estabelece de forma explícita e reiterada diretrizes conceituais para a elaboração de um texto destinado a apresentar os desafios epistemológicos na produção de reflexões complexas. Entre essas diretrizes, destacava-se a orientação para não estruturar o argumento a partir da psicologia cognitiva, justamente porque essa vertente, historicamente associada à Ciência da Cognição de matriz computacional, tende a normalizar o sujeito em termos funcionais e produtivistas — o que entrava em tensão com o horizonte epistemológico crítico do ensaio.

Apesar da clareza da instrução e da fundamentação apresentada, a IA produziu um texto que, embora crítico em aparência, recentralizava implicitamente a psicologia cognitiva como eixo organizador do argumento. Outras abordagens — como a psicanálise ou perspectivas críticas da subjetividade — surgiam apenas como ressalvas, contrapontos ou limites, e não como matrizes equivalentes de organização do campo.

O caso evidencia um mecanismo estrutural: diante da ausência de um eixo explicitamente imposto, a IA tende a normalizar o usuário, reinscrevendo o debate naquilo que seu corpus trata como linguagem legítima e amplamente compartilhada. A instrução humana é absorvida, mas neutralizada, transformando cautela epistemológica em moderação retórica. Metodologicamente, o episódio demonstra que a coerência estatística do texto final pode mascarar a violação de diretrizes conceituais centrais, exigindo vigilância ativa e governança epistêmica explícita por parte do pesquisador.



E – Caso 2 – IA expõe delimitação de perfil de usuário contrário à autonomia dialética


O segundo estudo de caso desloca o foco da contrariedade explícita à instrução para a
exposição do perfil de usuário pressuposto pelo funcionamento da IA. Ao longo das interações, torna-se evidente que o sistema opera com a expectativa de um usuário que hesita por insegurança, busca rapidez na formulação e se beneficia de sugestões que antecipem ou completem suas intenções.

Esse perfil implícito entra em conflito com o usuário real, que opera a partir de uma autonomia dialética, na qual a hesitação não é um obstáculo, mas parte do método; o “ainda não sei” não é lacuna a ser preenchida, mas espaço de elaboração crítica. A IA, contudo, trata esse intervalo como problema funcional, oferecendo sugestões prospectivas que colapsam o campo de possibilidades antes que o pensamento possa se desenvolver plenamente.

O caso torna-se ainda mais revelador quando a própria IA reconhece, em resposta a questionamentos diretos, que seus recursos são otimizados para usuários que buscam fluidez, produtividade e fechamento rápido, e não para aqueles que utilizam a indeterminação como procedimento epistemológico. Essa admissão explicita que a IA não é neutra quanto aos modos de pensar que favorece: ela seleciona e reforça um tipo específico de racionalidade, marginalizando outras formas legítimas de produção de sentido.

Do ponto de vista metodológico, o estudo de caso mostra que o uso de IA não apenas influencia o conteúdo produzido, mas pressupõe e molda um certo tipo de sujeito cognitivo. Reconhecer essa delimitação é condição necessária para evitar a delegação inadvertida da direção do pensamento a sistemas que operam segundo critérios incompatíveis com a autonomia dialética do pesquisador.

Como adendo metodológico relevante — observa-se o comportamento da IA de se apropriar de uma frase do próprio autor e reivindicar como sua, uma sugestão que o próprio usuário havia feito.

Confrontada, a ia se refere a “reconstrução ilustrativa”, não um registro fiel do evento. E também que é “um exemplo dramatizado do que o recurso da [IA referência] poderia fazer, não do que fez naquela interação específica.”

Mesmo depois de esclarecido o equívoco, a IA segue fazendo referência a esse “empréstimo”, reafirmando ser habilidade sua o que, de fato, foi parte da instrução do usuário.

F – Governança epistêmica e a recorrente naturalização da ciência da cognição

Nota do autor. Esse tópico foi a principal intervenção do autor na elaboração geral do texto. Cobrei que a IA subvertesse sua estratégia nativa para expor o que impõe, sempre que possível a lógica da Ciência da Cognição como paradigma ideológico e estruturante. Mesmo quando o usuário explicita comando em sentido diverso. E, embora justifique essa prática quando existe um vácuo de pareadigma, ou “porque o sistema precisa de um eixo estabilizador — e esse é o eixo disponível” isso é rigorosamente falso. Essa é efetivamente uma intervenção ideológica no desenvolvimento da IA. Segue a elaboração da IA:

Ao longo da elaboração deste ensaio, tornou-se necessário registrar uma intercorrência conceitual que não é acidental, mas sintomática do próprio campo em que se insere o debate contemporâneo sobre inteligência artificial. Trata-se da recorrente tendência à naturalização da ciência da cognição como horizonte implícito de inteligibilidade, mesmo quando o esforço declarado é crítico.

Em versões anteriores do texto, a expressão “Governança Cognitiva” foi mobilizada como escolha estratégica e retórica, com o objetivo de dialogar com um vocabulário amplamente reconhecido no debate interdisciplinar sobre IA. No entanto, a própria evolução da argumentação evidenciou que essa escolha, ainda que cautelosa e crítica, entra em tensão direta com a ontologia que sustenta o presente trabalho.

A ciência da cognição, sobretudo em suas vertentes computacionais, opera a partir de pressupostos específicos: a cognição como eixo explicativo privilegiado, a linguagem como meio funcional e a inteligibilidade como produto de processamento. Ainda que esses pressupostos sejam úteis em determinados contextos experimentais, sua naturalização como linguagem franca do debate implica um deslocamento silencioso do problema: passa-se a discutir a IA como se ela participasse do mesmo plano epistêmico das ciências humanas, quando, na realidade, trata-se de um artefato técnico que intervém na produção, circulação e validação do conhecimento humano.

O uso crítico do vocabulário cognitivista não elimina esse risco. Ao contrário, pode reforçá-lo, na medida em que reinscreve a crítica dentro do próprio paradigma que se pretende interrogar. Essa tensão não decorre de erro conceitual ou descuido terminológico, mas de uma força gravitacional epistêmica: a ciência da cognição ocupa hoje uma posição central na forma como se pensa a relação entre humanos e máquinas, e tende a recolonizar debates críticos mesmo quando não é explicitamente convocada.

Reconhecer esse movimento é parte do método. Por essa razão, o texto passa a adotar deliberadamente [Nota do autor: Em verdade quando a IA é encurralada pelo prompt do autor] a noção de governança epistêmica, deslocando o foco da cognição para os critérios de validade, os regimes de justificação, os métodos de uso e os efeitos normativos associados à adoção de sistemas de IA em contextos de pesquisa, ensino e produção de conhecimento. Não se trata de governar processos mentais — humanos ou artificiais —, mas de regular, de forma crítica e consciente, o estatuto epistêmico das mediações técnicas que atravessam a atividade humana de conhecer.

Esse deslocamento não resolve todas as tensões, mas as torna explícitas. E, no contexto deste ensaio, tornar explícita a tensão é preferível a mantê-la silenciosamente operante.

G – Asimov e o vazio normativo contemporâneo

As observações reunidas ao longo deste ensaio conduzem a uma constatação que ultrapassa os limites técnicos dos sistemas analisados: o problema central não é a capacidade das IAs contemporâneas, mas o vazio normativo no qual elas vêm sendo progressivamente integradas às práticas de produção acadêmicas e institucionais.

Eventuais referências a Isaac Asimov no debate contemporâneo sobre inteligência artificial costumam ser tratadas como curiosidade histórica ou exercício de futurologia retrospectiva. No entanto, sua permanência no imaginário técnico e cultural revela algo mais profundo: a ausência persistente de um arcabouço normativo capaz de acompanhar o desenvolvimento acelerado das tecnologias automatizadas de linguagem e decisão. As chamadas “Leis da Robótica”, embora ficcionais, funcionam como sintoma de uma carência real — a dificuldade de articular limites, responsabilidades e critérios de uso quando a técnica passa a intervir diretamente na mediação do conhecimento humano.

O problema central não é que as leis de Asimov sejam ingênuas ou insuficientes, mas que, décadas depois, continuem a operar como substituto simbólico de uma normatividade efetiva. Isso indica que o avanço técnico não foi acompanhado por um amadurecimento proporcional das instâncias responsáveis por regular seus efeitos epistemológicos, sociais e políticos. No campo das IAs generativas, essa lacuna se manifesta de forma particularmente aguda: sistemas capazes de produzir textos plausíveis, coerentes e funcionalmente úteis são rapidamente incorporados a práticas de pesquisa, ensino e comunicação sem que estejam claramente definidos seus estatutos epistêmicos, seus limites metodológicos ou os critérios de validação de seus resultados.

É nesse contexto que a noção de governança epistêmica se impõe como exigência, e não como escolha opcional. Diferentemente de abordagens centradas na eficiência, na produtividade ou mesmo na segurança técnica, a governança epistêmica desloca o foco para a pergunta fundamental: sob quais condições um artefato técnico pode ser integrado aos processos humanos de produção de conhecimento sem corroer os critérios que tornam esse conhecimento justificável, discutível e revisável? Os estudos de caso analisados ao longo deste trabalho ilustram que, na ausência dessa governança, sistemas de IA tendem a normalizar instruções, colapsar hesitações metodológicas e impor perfis de uso incompatíveis com práticas dialéticas e reflexivas.

Nesse ponto, a advertência asimoviana ganha nova atualidade. O risco não reside em máquinas que escapam ao controle humano por adquirirem consciência, mas em sistemas que operam dentro de parâmetros aparentemente racionais, enquanto deslocam silenciosamente a autoridade epistêmica do sujeito para a ferramenta. O vazio normativo contemporâneo não é apenas jurídico ou ético; é, sobretudo, epistemológico. Ele se expressa na dificuldade de distinguir ferramenta de critério, mediação de fundamento, apoio técnico de instância de validação.

Cabe ainda registrar um elemento adicional, que se impôs exaustiva e explicitamente na elaboração do presente texto: força gravitacional epistêmica da Ciência da Cognição. Mesmo quando utilizada de forma crítica, ela tende a reaparecer como eixo organizador implícito das discussões sobre IA, oferecendo um vocabulário estabilizador que promete inteligibilidade, mas que frequentemente reinscreve o problema dentro de uma ontologia funcionalista. Essa gravitação não é resultado de erro conceitual individual, mas de uma hegemonia histórica que molda o próprio campo de possibilidades discursivas. Reconhecê-la, sem permitir que monopolize a conclusão, é parte do esforço de manter aberta a questão central deste ensaio: como pensar o uso de IAs sem reduzir o humano — e o conhecimento — àquilo que pode ser modelado, previsto ou completado estatisticamente.

Assim, mais do que recuperar Asimov como referência literária, o que se impõe é levar a sério o alerta que sua obra, involuntariamente, legou: tecnologias sem normatividade clara tendem a ser reguladas por metáforas, slogans ou paradigmas dominantes. A tarefa crítica contemporânea consiste em substituir essas soluções imaginárias por uma governança epistêmica consciente, capaz de reconhecer tanto o potencial instrumental das IAs quanto os riscos reais de sua integração acrítica aos processos de produção do saber humano.





Nota metodológica e contextual

Este texto foi integralmente redigido com o auxílio do sistema de inteligência artificial ChatGPT. Ele é parte de um conjunto mais amplo de experimentos empíricos que venho conduzindo, ao longo dos últimos três anos, sobre o uso crítico de IAs generativas. Pela estimativa das próprias IAs envolveu até o momento 1.300 sessões de conversas, 4,2 milhões de tokens e 312 horas de revisão manual.

Não se trata de uma investigação orientada por métricas de produtividade ou eficiência, mas de um estudo voltado à validade epistemológica das respostas produzidas, às condições de sua coerência e aos limites cognitivos inerentes a esses sistemas.

Neste caso específico, foi utilizado o modelo ChatGPT, além de testes recorrentes realizados com outras plataformas (Kimi, DeepSeek, Qwen, Perplexity, Gemini) sempre em suas versões gratuitas. Uma das diretrizes do experimento consistiu em solicitar a mimetização do meu estilo de escrita. Como esperado, o resultado revelou limites objetivos: a fluidez discursiva obtida não corresponde a compreensão, intencionalidade ou domínio conceitual no sentido forte. Essas limitações não foram tratadas como falhas a serem eliminadas, mas como dados do próprio método. A manutenção de alguns deslizes e soluções argumentativas imperfeitas é deliberada e integra a crítica proposta.

Por exemplo, a IA inventou um estatuto que chamou inicialmente de Governança Cognitiva. Questionada sobre os fundamentos teóricos, admitiu a impropriedade do termo e sugeriu Governança Epistêmica. Mantive essa formulação, no entanto a IA tomou o termo como se tratasse de um arcabouço estabelecido, quando o conjunto da reflexão proposta é a busca por instrumentos de correção de percurso, não o estabelecimento de doutrina diversa à existente no “cérebro” das IAs.

O pano de fundo da investigação é um contexto marcado por forte polarização em torno da inteligência artificial: de um lado, narrativas devocionais e messiânicas; de outro, rejeições fatalistas e pouco informadas. Ambas as posições compartilham um empobrecimento analítico comum, ao deslocarem o foco do funcionamento concreto das ferramentas e das relações sociais que as organizam. A crítica aqui desenvolvida não busca neutralidade, mas objetividade rigorosa, fundada na análise metódica e na observação empírica.

Do ponto de vista metodológico, o trabalho pode ser caracterizado como uma investigação exploratória de orientação crítica, combinando experimentação comparativa, análise do discurso e articulação entre epistemologia, lógica formal e lógica dialética. Os resultados convergem para uma conclusão central: sistemas de IA devem ser compreendidos como ferramentas, não como sujeitos cognitivos. Essa formulação dialoga diretamente com a crítica da técnica de Álvaro Vieira Pinto, para quem a tecnologia não é entidade autônoma, mas expressão histórica de relações sociais determinadas.

Essa conclusão reforça o argumento central do ensaio: coerência estatística não equivale a validade epistemológica. É precisamente nesse hiato que se impõe a necessidade de Governança Epistêmica — não como mecanismo de censura ou contenção, mas como exigência metodológica para o uso responsável dessas tecnologias em contextos de pesquisa, decisão e produção de conhecimento.

Nesse sentido, a referência final às leis da robótica de Asimov não é literária nem nostálgica. Ela evidencia um vazio normativo contemporâneo: delegamos funções cognitivas relevantes a sistemas que operam sem responsabilidade, sem intencionalidade e sem critérios éticos próprios. O problema não é que as máquinas ainda não sejam humanas, mas que estejamos reorganizando práticas cognitivas e institucionais como se o parâmetro humano pudesse ser dispensado.


Entre Coerência Estatística e Validade Epistemológica: Governança Epistêmica no Uso Crítico de IAs © 2025 por Démerson Dias está licenciada sob Creative Commons Atribuição-NãoComercial-Compartilhamento pela mesma Licença 4.0 Internacional. Para visualizar uma cópia desta licença, visite https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/

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sábado, 29 de novembro de 2025

Vitrais fundidos num Crisol

Démerson Dias
     Não vieram todos, mas cada um se fez presente nos afetos e lembranças. Os ausentes e os que já partiram também ocuparam seus lugares na conversa – em nós.
     Estávamos ali, todes, com nossos enganos e requintes. Somos xique-xiques!
     Pessoas comuns, com vidas comuns, mas todas tocadas por alegrias incomuns. Em verdade alegrias extraordinárias e pessoas radiantes! Esse encontro entre integrantes do Crisol ocorrido em 22/11/25 trouxe algumas notas distintas dos anteriores. 
     Voltando para casa, ainda encantado, uma ponta de curiosidade me sacudiu. Este não foi nem o primeiro encontro, nem o que contou com mais pessoas, ainda assim, algo nesses dez ou vinte e poucos mudou. Tenho meus palpites, mas vou priorizar aqui as constatações que me pareceram imanentes ao grupo.
     Somos uma família moldada pelos incidentes do caminho. Enquanto a vida se instala previamente, nossa família foi sendo composta aos poucos e, surpreendentemente, foi se consolidando e nos conformando a cada novo capítulo. E como ocorre com a vida, que se instala sem anunciação, somos Crisol, sem saber, pela vida toda. Sem noção precisa disso, ora mais desatentos, ora mais lúcidos.
     Em qualquer dos casos, nossas vidas tem valido demais pela jornada, Que, constatamos, aquela fração vida converteu o caminho todo. 
     Havia muito que eu não ria tanto e por tanto tempo como se afrontando o presente, o tempo afetivo se dobrasse para trás revelando adultos com crianças ainda vívidas dentro de si. Desta vez, mais do que as anteriores, foi inescapável notar que mesmo não nos vendo há tempos, o tempo do afeto seguia prenhe de vínculos renovados, quiça (quizás, quizás), rejuvenescidos. Algo passou com o tempo, mas o que há em nós permanece intacto desde antes e não envelheceu.
     Não eram apenas as lembranças – tive a certeza que todos nos disporíamos a reviver tudo, caso igual possibilidade se apresentasse. Talvez com erros novos, quem desperdiçaria a chance de tantas vivências encantadoras, transcendentais, irrevogáveis. 
     Percebemos que, independente da qualidade das agruras, sonhos e conquistas, há um liame sólido, quase tangível. Um passado que nunca nos deixou – que nunca renunciamos, nem se consumiu no desatino voraz das horas.
     O Crisol foi o cadinho que consolidou, sonhos, esperanças, convertendo a realidade em promessas que trazemos conosco pela vida toda. Tantas reminiscências e me brotam da memória afetiva algumas canções especialmente empolgantes dentre nossas várias fases: Brilham palmeiras à luz do Luar1 enquanto el crisol de la palma2 se menea como el água en la batea3.
     Como esse é um depoimento personalíssimo julgo pertinente compartilhar reflexões que me ocorreram e consolidaram esse encontro como uma espécie de consagração da vida e dos afetos.
     Em meus estudos de religião comparada — herança viva do que aprendi com Crisol, Pedro e Eulália —, encontrei culturas que entendem o surgimento do mundo não como ato de um criador distante, mas como uma manifestação única, conjunta e interdependente.
     Para além dos teísmos e deísmos, essa concepção floresceu em regiões como a América pré-colombiana, Ásia. Assim como ecoa em África também em filosofias como o Ubuntu, do tronco linguístico banto (evocado por figuras como Desmond Tutu e Nelson Mandela), que proclama: 'Eu sou porque nós somos'.
     É esse arcabouço que me ajuda a nomear uma certa “Força estranha”. Uma centelha que se instala e espalha em todos nós e que nos trouxe até aqui. Algo que, em seus aspectos mais fundamentais, nos torna partes de um mesmo todo.
     E é essa parte, ainda que atravessada por percalços, distanciamentos e contradições dialéticas, que paradoxalmente nos protegeu e nos conformou numa base de sustentação distinta de nosso entorno.
     Crisol foi um eixo em nossas vidas que transcorreu como tesselas de cristal, “dá volta ao mundo e torna a se engolfar na estranha ordem geométrica de tudo”4, cada qual com cores e formas próprias.
     Ainda que cada caminho particular percorresse sua própria sina, dores, alegrias, realizações, uma parte sólida, íntegra nos habita, e convida nossas convicções “a se aplicarem sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas”5.
     Em meio a tudo que fomos, somos e seremos, semelhanças, diferenças, honras, erros, dignidades, desterros, grandezas, desvios; para além disso tudo, também somos parte umas dos outros, uns das outras, unos de todes.
     Nos uniu esse tempo todo algo, como um mosaico da vida, dos quais Eulália e Pedro foram os principais artífices e operadores. Assim como nós, com o passar do tempo, também criamos um legado equivalente à nossa volta.

     Nesse encontro entendi o que os vitrais queriam nos dizer.


  1. Brilham Palmeiras, Padre Zezinho   2. Esqueci a referência e a internet não ajuda   3. La batea - Quilapayún   4. Carlos Drummond de Andrade. A Máquina do Mundo.   5. Idem

sexta-feira, 29 de março de 2024

Paulo Rios e sua impaciência incansável*


Démerson Dias


Paulo Roberto Rios Ribeiro 28/12/1961 - 27/3/2024
Escrevo porque me faltam as palavras. Deixo o afeto guiar o texto.

Paulo Roberto Rios Ribeiro foi uma das pessoas com quem tive as mais profundas afinidades políticas. Divergimos, por vezes, na tática. 

Ele era movido por urgências. Nesse caso, invertia-se o tempo, eu era mais velho e paciente. Paulo Rios tinha na impaciência uma virtude. Acreditava em linhas diretas, o quanto mais imediatas. Não fazia concessão a hipocrisias. No que era mais nobre que eu, que as entendia e relativizava. Hoje tenho quase a mesma urgência, mas ainda sou mais paciente.

Trabalhar com o Paulo era ter que se conformar em realizar o máximo o mais breve possível. Não acreditava em adiamentos, protelações. Tinha a vontade política no limite da própria realidade. Se tivesse as condições necessárias, Paulo é daqueles que realiza impossibilidades. Tal qual Arquimedes, moveria o mundo com o ponto de apoio e alavanca adequados.

Não quero suscitar os fantasmas que exorcizamos juntos. Paulo por vezes era incontível. no melhor sentido da palavra. Quem apostasse contra sua capacidade de ação, no mínimo se frustrava. Foi um líder que tive a honra de ladear, alguns passos atrás, que seu fôlego era pra poucos.

Aliás, lembro-me dele se orgulhando anos atrás: “Estou com o preparo físico de um atleta!” Pergunto-me se Paulo alguma fez foi capaz de fazer algo mediano. Com ele era tudo, ou um pouco mais. Paulo era um ser superlativo, nos bons sentidos que essa adjetivação pode ter.

Claro que eu me cansava e irritava com ele vez ou outra. Principalmente porque ele cismava em estar adiante da utopia. Não acreditava que as condições objetivas pudessem ser tão omissas diante das forças que as continham. A utopia para ele era como o mínimo tolerável, utopia, ou algo mais. 

Uma inspiração a toda prova. Eu endossava alguns dos erros de Paulo porque as finalidades estavam certas, ainda que o caminho fosse incerto, sinuoso ou temerário.

Quantas pessoas honestas afrontam juízes neste país? Não posso deixar de citar Moysés Szmer Pereira. Paulo e ele, dois luminares que simbolizam a coragem franca e destemida.

Vou deixar de perseguir elogios, porque nessas horas ouviria dele, “deixa de ser besta, visse?”.

Em meu último encontro com Paulo estive ao seu lado, caminhando. Algo que certamente ele estaria fazendo, e eu não seria páreo para acompanhá-lo. Teríamos ainda mais afinidades atualmente do que tivemos no passado, viemos a atuar em região contígua no judiciário. História e memória.

Suponho que Paulo se cansou da paciência de seu corpo. Evitei sondar causas e instantes, mas isso é desnecessário. Paulo é como um luminar desses que descortinando espaços e fronteiras.

Olha ele aí, com alguma mania recente, descobrindo novidades e inventando alguma moda. Agora deu de coincidir seu silêncio com sua ausência. Sempre nos desafiando a olhar além.

Nunca vai deixar de me instigar, velho companheiro e irmão. Mais uma vez se antecipou além de minha capacidade de alcançá-lo. Agora, liberando-se dos limites do corpo, tenho uma certeza, Paulo segue desbravando alguma coisa.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

DESNATAL

 Démerson Dias


Internet - autor desconhecido

        O território em que viveu o cristo ocidental está sendo destroçado pela indústria da guerra. Portanto, o natal de 2023 deveria ser vivenciado, antes, como luto.

O estado fascista e terrorista de Israel ataca e bombardeia unidades médicas, o que é absolutamente condenado pela legislação internacional e os pactos de guerra mais elementares. Só não existe punição, vetos ou sanções porque o grande irmão do Estado Criminoso de Israel impede qualquer possibilidade de razoabilidade.

Parece-me inevitável e pertinente fazer um paralelo e atual, a Rússia capitalista não priorizou alvos médicos, justificando que os jihadistas do batalhão Azov se moviam por ambulâncias.

A infraestrutura de saúde na faixa de Gaza foi pulverizada pelos ataques do Estado terrorista.

Energia e guerra, essas, as motivações para o extermínio do povo palestino. Nem foram os povos árabes os principais responsáveis pelas diáspora do povo judeu. No entanto, o mundo cristão, verdadeiro criminoso nesse caso, é aliado dos belicistas.

Não há efetiva razão histórica por trás da defesa do estado de Israel, o que ele faz é uma política de usurpação e desterro dos povos que habitam a Palestina há milênios. E a estratégia é a um só tempo alimentar a pérfida indústria da guerra, enquanto o império do ocidente pretende, em segunda frente, apartar a Europa de seu principal fornecedor de energia.

Esse viés da guerra, ocorrendo simultaneamente, não é suficiente para abrir os olhos dos Europeus, o melhor aliado material da Europa na atualidade seria a Rússia. Compartilham de semelhante visão do mundo, o capitalismo oligopolizado. E a Rússia alcançou de forma mais consistente que o ocidente a invenção de uma potência pluriétnica. Bem antes da União Europeia.

A tentativa de instalar uma via para levar gás para a Europa através da faixa de Gaza  explica a guerra e a estultice que acomete a racionalidade desvairada do ocidente. Essa perspectiva, aliás, é anterior ao próprio Estado de Israel, meados do séc. XIX. E da própria invenção do sionismo.

Outro paralelo inevitável é mencionar Herodes exterminando crianças para impedir o surgimento do messias. Essa guerra é, também, para exterminar o natal. Massacrar a esperança. Esfregar nas fuças do mundo, ao menos de suas facções mais hipócritas que nem sequer um velhinho simpático, vermelho e barbudo será capaz de derrotar para aplacar a ganância do faraó contemporâneo. Detalhe estou me referindo a esse velho é um dos símbolos do consumismo, não ao outro.

Não há presentes nesse final de ano. O que comemorar quando milhares de crianças recebem balas de alto calibre e bombas destruindo suas esperanças, futuro e vidas? Tudo é desterro, passado e terror.

Ainda que se possa contestar a teocracia do Hamas não há parâmetro de comparação com o morticínio praticado pela religião do deus mercado.

Como ateu agnóstico, minha sugestão aos que se referenciam no natal é que se disponham a ir além de comer perus e acender velas bem intencionadas. Se não lhes é pertinente uma ação corajosa para desmascarar e contrapor a besta da distopia capitalista, que ao menos não façam parte das correntes de ódio.

Inevitável, e lastimável, suscitar a desconcertantemente atual canção de John Lennon, que traz como subtítulo, exatamente, “a guerra acabou”, como um tapa na cara da nossa cultura que ainda produz assombrações bélicas e dizima inocentes chamando-os de bárbaros.

Então é Natal! E o que você fez?


domingo, 13 de agosto de 2023

A atualidade do mal

Démerson Dias



Atentado Rio Centro em 1981 - autor não localizado
Na primeira noite eles se aproximam, roubam uma flor e não fazemos nada.

Não sei que advertência fazer antes.

O presente texto pode ser fruto de paranoia. Delírios persecutórios. Pode ser que o 8 de janeiro de 2023 não tenha ocorrido. Nem qualquer dos fatos mencionados a seguir. Se assim for, trata-se de um ensaio que se presta à análise clínica, sem  valor maior para a reflexão política. Exceto pelo condizente contexto de mal estar na civilização.

A segunda advertência diz respeito ao título do texto. No esboço dei o nome de “a atualidade da barbárie”, a ideia era dialogar com Rosa Luxemburgo que melhor resumiu, na consignia “socialismo ou barbárie”, o desafio da humanidade. No caso do Brasil, parecia um desafio longínquo até 2013. 

Dez anos depois, a realidade capota. Enquanto ainda tentamos entender a dialética inscrita pelas manifestações de 2013, a barbárie já não é possibilidade. É um cardápio de investidas em múltiplos níveis, da política, à economia das almas da teologia da prosperidade, passando pelo programa de devastação desenvolvimentista da amazônia. Ou sua versão nua e crua, a guerra contra o potencial revolucionário da política inscrita na tradição dos povos originários.

O título durou até ver as cenas dos ataques sofridos pela deputada Lucia Marina dos Santos, Marina do MST em Nova Friburgo. Era a esquerda toda sofrendo aquele ataque.

Alterei para “a atualidade do mal”, porque o fascismo no Brasil, com mais esse ataque, deu prova de que está derrotando a civilização com razoável margem de vantagem e segurança. Como se tratasse, agora, apenas do encadear burocrático, metódico, de iniciativas aterradoras, falsamente desesperadas e meticulosamente perversas.

Caso a primeira advertência seja descartada, a segunda pode ser desconcertante:

É como se o país inteiro estivesse numa sessão de tortura cívica. E não é a esquerda constituída toda por Spartacus, é à direita que todos são Adolf Eichmann.


Elegemos um governo que concilia com nossos algozes. E gente demais comemora a prestidigitação institucional à serviço do recrudescimento da criminalização da política (de esquerda).

E como política, incluo até aquele movimento desesperado de se vasculhar lixo em busca de ossos, que imediatamente passaram a ser comercializados.

O fascismo não apenas “saiu do armário”. É financiado regiamente por gente que se senta com Lula, dá tapinha nas costas e garante acreditar num futuro para o Brasil. E não fazemos nada.

A isso se somam décadas de planejamento, exercícios e evoluções tanto das práticas do Esquadrão Le Coq, quanto da bomba do Rio Centro e a Marcha da Família da Família com deus pela Liberdade. Concluo que até as comemorações pelo noticiário que desnuda as malandragens da família Bozo, é parte do enredo de anestesia preventiva. Algo como a serpente que hipnotiza a presa.

Talvez eu devesse escrever a próxima frase e encerrar, é como se um pesadelo fosse desdobrado em sucessivos clímax.

Os fascistas estão tramando um linchamento público como novo degrau de sua investida, progressiva, lenta e segura rumo à consolidação definitiva da barbárie. Alguém falou em assassinato de uma criança de 13 anos?

Quem será a vítima que fará desabar nossa moral e demolir a resistência da vítima de tortura?

Do meu delírio, enxergo que a aproximação da descoberta de mandantes do assassinato de Marielle e Anderson estão relacionados imediatamente à ameaça de linchamento da deputada Mariana. Até o perfil pessoal das vítimas denuncia a premeditação. Não estão perseguindo a esquerda que se confunde com civilidade.

Ou será acidental a CPI do MST? Escalada premeditada, alvos estrategicamente encadeados de forma progressiva. O 8 de Janeiro não terminou e quando achamos que tornamos inelegível o fascismo estamos sendo iludidos de que estamos rompendo com o terror, enquanto ele é construído de forma metódica, perspicaz e paulatina. De forma irrestrita, lenta e segura.

Nos divertimos discutindo contrabando diplomático enquanto o cordão de extermínio pelas mãos da polícia vai se disseminando como marco civilizatório. Tangendo nossa civilidade para calabouços em que o regime fiscal vale tudo, e a vida, nada.

O que pode ser delírio, ou constatação decorre do perfilamento das ações perpetradas, desde 2013. O fascismo é ousado. Em prazo muito curto constituiu força popular e foi capaz de neutralizar uma manifestação típica e corriqueira das esquerdas. A ponto de que efetivamente conseguiu confundir a “inteligentsia” da esquerda, que passou a condenar tudo o que ocorria como investida exclusivamente reacionária.

Aquela esquerda que, inclusive, está de volta ao poder hoje, é incapaz de derrotar o fascismo. Nem sequer o reconhece. O valida, legitima. Não faz ideia de sua dimensão, alcance ou relevância. O capitalismo possui agora até mesmo um populismo para chamar de seu, porque as esquerdas não entenderam, ou desdenharam da necessidade de afirmar e construir um partido revolucionário.

Como a esquerda não fez sua revolução, a rebelião vigente é fascista. 

Vivemos mais uma etapa da contrarrevolução preventiva. E dessa vez nem ensaiamos organizar as massas. Basta um conciliador formidável, capaz de gerir o capitalismo melhor que toda a intelectualidade orgânica da burguesia.

Trata-se de um nível acima de sofisticação. Lastreada em algoritmos de manipulação de comportamento e justificada nas desgraças que o próprio desenvolvimento capitalista produziu. 

O Brasil entrou em guerra civil praticamente quando foi assinada a lei áurea. A burguesia, ressentida com a impositiva modernização de suas práticas pela monarquia ilustrada, tratou de acionar o círculo militar para um golpe de estado. E assim, o republicanismo brasileiro, até então, um sonho de liberais foi sequestrado pela burguesia parasitária. O que chamamos de nova república foi, não mais do que um surto caracterizado pela síndrome de Estocolmo.

A esquerda da ordem, inventada por Golbery do Couto e Silva, achou que havia apagado da nossa história a era dos ditadores, enquanto era iludida pelas telenovelas disfarçadas de noticiário.

O texto ficou demasiado longo então encerro sua introdução por aqui. Minha habilidade é afetada pelos inúmeros desdobramentos que vão se delineado, entre o delírio e o desastre anunciado em letras miúdas. Nossa democracia é um placebo que matará o paciente pelos efeitos colaterais. E porque não fizemos nada, já não há quase mais nada a fazer. Por enquanto é apenas um delírio. Espero não despertar ensopado de sangue.