sábado, 26 de junho de 2021

Despolitização é projeto político

Démerson Dias


E na TV se você vir

um deputado em pânico

mal de simulado 

diante de qualquer

 mas qualquer mesmo

qualquer, qualquer

 plano de educação

 que pareça fácil 

que pareça fácil e rápido

E vá representar

 uma ameaça 

de democratização 

do ensino de primeiro grau

Caetano Veloso e Gilberto Gil - Haiti



Comemoração Centenáro de Paulo Freire Ilustração: Edgar Vasques / Freireando POA / Reprodução / Divulgação
     Em uma transmissão ao vivo de uma celebridade do mundo da música, uma criança, ao fundo, fala em denunciar Bolsonaro e chamam sua atenção que trata-se de uma transmissão pública.

     Um "campeão" da falácia do empreendedorismo, que abandonou os seus iguais para ser servil no centro da opressão mundial e, por oportunismo, torna-se agente político público. Ao ver que irmão, no pólo oposto das convicções socioeconômicas e fetichizadas, que reafirmava a primazia do bem comum sobre o individual e, por isso era perseguido pelos raivosos defensores da economia de mercado (necessariamente usurpadores do bem público), reconhece a virtude da existência dos serviços públicos.

     Uma das perversões mais espantosas produzida por aquela peçonha pedagógica chamada Educação Moral e Cívica, foi introjetar o dogma de que política pertence à esfera íntima. Esse programa ideológico não se sustenta no cotidiano, mas provoca várias desconstruções nas relações sociais (inclusive o ódio e o obscurantismo).

     Quando o senso comum afirma que não se discute política, religião e futebol, está sujeitando esses temas a um território de violências viscerais.

     Todo assunto suprimido arbitrariamente, escoa para região das pulsões, fetiches e infantilidades.

     O que pacífica é o diálogo. Principalmente porque o exercício de entender que a dimensão do outro é socialmente complementar a dimensão do eu é o que vai patrocinar o surgimento da tolerância na esfera social.

     Quanto mais as pessoas discutem,  se pronunciam e ouvem argumentos a respeito de um tema, maior esclarecimento e conhecimento produzido sobre ele.

     Traduzindo, conversar sobre um assunto é o principal jeito de chegarmos a acordos e consensos, sem que nenhuma das partes precise deixar de defender aquilo que acredita, ou gosta.

     Há alguns anos me incomoda que programas esportivos, irracionalmente diários, apresentem debates esportivos em formato muito similar a um ringue de lutas. E fazem mais sucesso aqueles que mais esbravejam. Programas como esses, ao invés de discutir as virtudes gerais do esporte e dos atletas, semeiam e adubam impulsos afetivos que afirmam que somente anulação e sujeição do time adversário (o outro) garantem a validade do “meu time”. O exercício psico-social cotidiano é que o eu somente subsiste diante da destruição contínua e permanente do outro.

     Na religião, a ideia de "povo escolhido" é o pai das guerras e as atrocidades. Assim como patrocinou a escalada machista que humilhou, torturou e assassinou mulheres. Ao fazê-lo criou as raízes do feminicídio contra o qual, felizmente, hoje nos contrapomos. Não é acidental que a matriz judaico-islamico-cristã seja a que produziu a esmagadora maioria dos processos de destruição.

     Ao contrário do que supõe, por indução ideológica, o senso comum, trata-se de uma estratégia de cerceamento impostas de forma subliminar. E são componente programático de um projeto autoritário de dominação e sujeição da sociedade.

     Essas e outras formas de obscurantismo, além de fazerem parte de qualquer modelo político autoritário, também estão na base da destruição de qualquer processo educacional saudável.

     Praticamente todas as formas religiosas evoluíram em algum sentido para o exercício da tolerância, principalmente o cristianismo. Imagine todas as religiões se unirem contra as injustiças e maldades que aprisionam e exploram seus povos. Teremos revolução.

     O esporte move e monopoliza paixões, imagine se a força da soma de todas as paixões organizadas, caso deixem as disputas apenas dentro do Gramado e busquem, singelamente, lutar por melhorias e garantias no mundo dos esportes (subárea da educação, consiste em entrelaçamento de aspectos socioeconômicos, saúde, e organizacional, ou seja, por extensão, políticos). Teremos revolução.

     Em sua potencialidade toda educação é uma guerra contra as falsidades e a favor do esclarecimento. Imagine todos os educadores e educandos reconhecendo a origem e sustentação das obscuridades, e também que só faz sentido entender o mundo para transformá-lo em algo melhor, quem inclua e admita a todos. Teremos revolução.

     Finalmente, é por isso que nossas mentes foram sabotadas, para termos aversão à discussão e à política. A política não foi uma invenção teórica e acadêmica. Ao contrário, o estudo sobre a política decorre da existência de uma prática social cuja essência está na promoção de um bem comum.

     Pertence à política o desenvolvimento da diplomacia como forma mais sofisticada de solução de conflitos, em particular, para pôr fim às guerras.

     O debate político, quando eu exponho as minhas razões e ouço, com respeito, mesmo que apenas ritualístico, as razões do outro, produz afinidades e sínteses. Inclusive por determinação biológica (busca por padrões convergentes).

     A violência contra o outro, na natureza, só existe no contexto da sobrevivência. Não existe agressão por presunção, exceto em situações muito específicas. Importante notar que numa mesma espécie, isso só foi observado a partir do surgimento de algum tipo de consciência (noção de eu).

     A discussão política produz também o surgimento do “terceiro mediador”. Quando presenciamos a exposição de dois pontos de vista supostamente contrários, somos capazes de entender que as razões de um, não necessariamente exclui as razões de outro. A política é, portanto, também, o território em que os interesses são hierarquizados e dispostos de forma a contemplar da melhor possível a totalidade social. Mais ainda, sem debate político não existe aproximação e inclusão das diferenças. E somente a partir dele rejeitamos a indiferença ao sofrimento alheio, ou comum.

Deu para entender porque ainda não destruímos nossos opressores?


quinta-feira, 3 de junho de 2021

Transgressão ou barbárie

Démerson Dias

“Se for preciso faz a guerra, 
Mata o mundo, 
fere a terra
… canta um hino
Louva à morte
... vai à luta
Capoeira”
 Marcos e Paulo Sérgio Valle - Viola enluarada

 
Detalhe de Guerra e Paz - Candido Portinari - 1956
     Sem transgressão a esquerda não vai a lugar algum, exceto para a direita. O que tem paralisado, e também inibido a esquerda, em parte, descende da negligência em relação tanto a uma crítica radical sobre a realidade, mas também a uma prática radical. Sobretudo, cumpre entender que não existe transformação no conformismo e também que é preciso ter uma prática coerente, consistente e condizente com essa constatação.
     E aqueles que são condescendentes com os erros, dúvidas e descaminhos da esquerda acabam por justificar a barbárie como estágio da realidade “em si”, quando deveriam encará-la como o que, de fato, é: resultado dos insaciáveis processos de opressão, os quais não ocorrem por perversidade moral da burguesia, mas porque a destruição generalizada é tendência estrutural e estável no capitalismo. 
     Não cabe nesta reflexão a complementação dialética desse raciocínio, porque não se trata de destruir tudo o que passou a existir em decorrência do capitalismo, do contrário seríamos devolvidos a formas primitivas de produção. 
     Mas as esquerdas, ao contrário, vão longe demais validando os modos de reprodução capitalistas, como se pertencessem à “natureza humana”, ou correspondessem a condições inerentes da prática social da espécie. O capitaismo não é ontológico, mas constituído históricamente. 
     Em parte, isso tem raízes na forma como a URSS organizou seus modos de produção, em especial seu gestor, o Estado. Parece que, por não ter conseguido ainda conformar uma perspectiva de vida social sem um Estado opressor, as esquerdas acreditam nas “forças da ordem” capitalista.
     As práticas internas das organizações de esquerda sugerem essa incapacidade de superar o autoritarismo e opressão como forma de mediação social, o que não é inconcebível, mas já deveria ser evidente, quando se coloca em perspectiva uma organização comunista da sociedade como efetiva superação do capitalismo. Ou seja, uma sociedade organizada sem a necessidade de um órgão opressor e onipresente que tenha como tarefa tutelar as vontades e disposições gerais das sociedades. 
     Aceitamos e naturalizamos o papel das forças opressoras. Como se diz, “damos de barato” que os aparelhos de repressão possuem o monopólio do uso da força. A esquerda se contenta com o papel de uma necessária expressão de paz. Ao fazê-lo não apenas colabora com as forças da opressão capitalista, como censura e renega as frações da sociedade que recorrem à contra-violência, uma condição que só faz sentido quando a ação violenta indiscriminada e totalitária da ordem, nos introjetou a concepção de cidadania como solução superior à luta de classes.
     Não raro, as esquerdas conformadas, ou remediadas, se apropriam e reproduzem elementos da moral burguesa que justificam que “pobres que recorrem ao uso da força”, seja na forma defensiva, seja expropriando valores para garantir sua subsistência, estão “fora da justa razão”. Essa noção está tão arraigada que mesmo áreas contíguas como expressões de sexualidade, consumo de opiáceos, custam para serem autenticados por setores da esquerda. 
     Nesse cenário, por mais que a autoproclamação queira garantir o contrário, a ação das esquerdas fica aquém dos postulados da desobediência civil, esse desdobramento de comportamento limítrofe, admitido pelo pensamento liberal. 
     Quando o poder constituído determina restrições aos direitos de manifestação, a esquerda protesta veementemente, e aquiesce. Ao fazê-lo valida e reconhece a autoridade do opressor sobre suas formas de luta, ou seja, admite que não possui protagonismo decisivo. 
     Um dado que não é secundário e está sendo explicitado “ad nauseam” pelo bolsonarismo, é exatamente o absoluto descompromisso com pactos sociais elementares de tolerância e convivência pacífica. É preciso muita ingenuidade para não perceber que Jacarezinho, encomendada na véspera por Bolsonaro, não seja um eloquente discurso de insujeição e desqualificação da corte máxima no país. Ou seja, de todo, absolutamente todo, ordenamento jurídico em vigor. O que mais é preciso afrontar para nos convencer que o governo anseia e patrocina a anomia absoluta? E nossa resposta até o momento é que seremos os heróicos responsáveis por restaurar a ordem burguesa diante de seu dejeto fascista. 
     A política e o discurso de ódio, em realidade, não são juízos morais, mas expressão desse descompromisso. Ou seja, são a linha de intervenção que renega qualquer pacto civilizatório, desses com que as esquerdas ainda se iludem. 
     Na base da rejeição que a esquerda empreende em relação a essas práticas está a suposição de que a mera existência, abstrata e formal, de um documento constitucional é suficiente para cumprirmos “com o nosso dever cívico”. Mesmo que essa civilidade seja permanentemente violentada, agora, pelo próprio presidente da república. 
     Impossível que a mensagem da burguesia seja mais clara. Ainda assim, há esquerdas demais colocando-se como fiadoras de um pacto social mais que moribundo. A civilidade brasileira apodrece sob o peso de meio milhões de assassinados pela negligência premeditada do poder central. 
     E o resultado dessa adesão a um pacto já extinto pela burguesia, corresponde exatamente à dificuldade que algumas esquerdas possuem em incorporar prontamente, como deveria ser, as pautas feministas, da negritude, de artistas e mesmo de profissionais do sexo, tidos igualmente como marginais, por uma esquerda que não apenas é utópica, mas convictamente alienada. 
     Notadamente essas esquerdas ficam aquém, em termos de compreensão da realidade social, até mesmo dos postulados do cristianismo primitivo, que corrigia perspectivas autoritárias do judaísmo.
     Todas as estruturas que justificam e reproduzem a ordem capitalista precisam ser decididamente desconstruídas, bem entendido, destruídas em sua funcionalidade reacionária e opressora. Nesse aspecto, até mesmo a desmilitarização das polícias é pauta insuficiente, fora dos marcos dos próprios profissionais de segurança.
     As esquerdas que não são capazes de ir além dos postulados éticos do liberalismo clássico, nem sequer são utópicas. São esquerdas que justificam e trabalham em favor da ordem. E o contexto organizacional das esquerdas sugere que ainda não existe no país alguma organização relevante que possa reivindicar propriamente o caráter revolucionário. 
     O abuso da truculência e da violência institucional na ação política reacionária, não são uma exceção na política brasileira. O Brasil republicano sempre foi um conflito de classes com prevalência de táticas de guerra. Nós é que nos permitimos entorpecer e negar a guerra civil que foi transposta à realidade do país praticamente logo no nascedouro da república.
     Por isso nos custa enxergar a explicitude do discurso institucional do assassinato em jacarezinho. Mas não só ali. Também em Brumadinho, Pinheirinho e inúmeras versões mais tênues ou contundentes. Mesmo a extinção formal da etnia Juma é expressão da luta de classes patrocinada pela burguesia. 
     No entanto, somos tolerantes com a barbárie. Apesar de nossos discursos, nossa prática se subordina à lógica de que a burguesia tem o monopólio da violência, “graças a deus”, porque nós somos virtuosos.
     Entendemos a luta de classes como categoria de análise não como expressão da realidade política. Talvez nos imobilize o fato de que o braço opressor pertence à mesma classe que é oprimida e, dessa forma, vítima e opressor fossem indistinguíveis. 
     Evidentemente esse não é o centro da questão da luta de classes, mas enquanto a esquerda seguir insistindo numa luta de classes sem luta efetiva ela será única vítima. Ou melhor, ela não, mas o povo efetivamente oprimido, porque a maior parte das esquerdas são acomodadas nas classes remediadas. O centro da questão é que as esquerdas não praticam uma luta insurrecional, e não existe revolução sem insurreição, sem transgressão da ordem. 
     As esquerdas podem conseguir pautar uma ruptura por outras vias? Isso é possível em algum futuro. O que está dado, neste momento, é que não haverá transformação real no Brasil que não seja banhada em sangue. E essa é uma imposição dos opressores, não um desejo dos oprimidos. Por enquanto, só o lado opressor está praticando, impunemente, suas chacinas e a isso ainda dão o nome de justiça. Ao fazê-lo, não apenas distorcem e invertem o sentido de justiça, mas estão também afirmando que qualquer rebeldia está fora dos parâmetros civilizatórios aceitáveis por eles.
     Por enquanto seguimos concordando com isso. E o resultado é que somente um dos lados tem seu sangue vertido pelas ruas, rincões e guetos. Seguimos bestializados.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Eternamente em vômito esplêndido

Démerson Dias

Quem não sente ânsia de vômito ao percorrer as diversas mídias da imprensa comercial no Brasil não está suficientemente atento ou esclarecido sobre a realidade do país.
Existem boas notícias, e não são poucas, mas essas, não circulam nesses espaços, inclusive porque precisam vencer a concorrência desleal de esforço permanente, enfadonho e estúpido que é feito para normalizar a pior calamidade do mundo, o quanto antes.
Escolher a pior excrescência é tarefa insana e inútil. Mas, tomemos como exemplo, o depoimento fascistóide e imbecil oferecido por ex-ministro da saude. A própria condução dos trabalhos cometeu erro de protocolo elementar de deixar o microfone do depoente aberto durante as inquirições. Dou um dos exemplos mais rasos da prática investigativa para tentar evidenciar a extensão da insolvência política das instituições do pais. Quaisquer que sejam os desdobramentos das ações institucionais, o contexto do banditismo para estatal, já "cortou e aparou", invocando expressão comum à garotada que soltam pipas nas periferias e morre pelas balas do banditismo oficial.
Concretamente, o excrementissimo ex-títere "cagou e andou" para o pais, o parlamento, o STF e, principalmente para o meio milhão de vidas exterminadas de forma premeditada pela esculhambação governamental produzida pela democratura burguesa.
Na minha modesta opinião, para o parlamento nacional poder reivindicar o título de representante do povo, o bestial depoente deveria ter sido solenemente apedrejado até que fosse possível experimentar o mesmo destino que suas vítimas fatais.
 Confesso até que me ocorreu uma sugestão de nova tipificação para CPIs. Audiências em caráter inexoravelmente terminativo quando o depoento escarnecer da vida e da morte brasileiras. Medida em vigor apenas nos períodos excepcionais em que estejam em curso chacinas e genocídios.
Tomei apenas uma lasca das ações dos covardes homúnculus no poder. são incontáveis e lancinantes os exemplos a disposição. não existe um dia em que se embuste governamental não produza uma fração de tragédia, ou tragédia inteira. Talvez a farsa da história sejamos nós.
Como falar das dores não é suficiente, vale mencionar o exato oposto da realidade do país. A belíssima homenagem que Wagner Moura e equipe fizeram a um dos líderes sociais mais valiosos da historia do país (e, felizmente, são todos ímpares, mas não são poucos). Como a arte nos permite viajar, imaginei que, junto a citação "quem não reage, rasteja’’ o personagem Marighella na voz de um excepcional Seu Jorge perguntaria nos dias de hoje: meio milhão de mortos são condições objetivas suficientes?

terça-feira, 4 de maio de 2021

Fascista e genocida!

Démerson Dias


Covas abertas em cemitérios de São Paulo para acolher os
óbitos por Covid-19 (Lalo de Almeida/Folhapress)
O formalismo é a fórmula mais elementar de submissão à ordem capitalista, ou qualquer outra ordem impositiva. Através dele algumas categorias e conceitos tornam-se, se não o seu oposto, uma subversão distorcida que destitui a essência das formas e conteúdos, para representar até mesmo o seu avesso.

Cabe à vítima denominar seu agressor, e não o contrário. O estupro não foi realmente crime até que as vítimas tiveram coragem de encarar e acusar de maneira contundente seus agressores. Ainda hoje, operadores legais resistem, através dos mais inventivos expedientes e recursos retóricos, para poupar os protegidos da ordem.

Usar o formalismo para negar à vítima o direito de denominar seu agressor é um dos expedientes mais ordinários em favor da ordem opressora. Ainda hoje, o povo armênio luta pelo direito de denominar seus algozes no genocídio infringido pelo governo otomomano no início do século passado. Quem não pode definir e nominar sua dor, perde o direito à própria identidade.

Em termos formais, o bolsonarismo comete crime contra a humanidade e até o parlamento Europeu, do outro lado do oceano, já percebeu isso com clareza rasgante. Brasileiros condescendentes ou solidários com os direitos dos torturadores insistem em amenizar a truculência, como se tratasse "da ordem natural das coisas". Saibam, tantos quantos queiram espernear, que instauramos a ordem dialética das coisas. Essa é a guerra de narrativa que importa à transformação histórica da realidade.

 Para nós é genocídio, o extermínio dos inimigos de classe da burguesia. A familícia bolsonárica é apenas o carrasco excelente de turno, tais quais os antigos capatazes e capitães do mato.

Setores escolásticos da esquerda precisam aprender que é a determinação política dos oprimidos que transforma a abordagem sobre a realidade.

Seria possível discorrer, com o mesmo preciosismo desses escolásticos, sobre a confusão (premeditada, ou incauta) entre o fascismo e sua variável alemã. Essa, dissolveu até mesmo a unidade da burguesia internacional. O nazismo foi o fascismo que nem a burguesia internacional conseguiu deglutir. A banalidade do mal em estado de arte. E não por questão moral, ou estética, mas por que aquele deslocava, o controle do oligopólio de poder das mão da burguesia para as mãos da nomenclatura nazista. O bolsonarismo não tem alcance ou conteúdo suficientes para ser nazismo. Nossa opção, nem mesmo é infundada, mas os fundamentos que nos importam e são caros, estão nos laços de solidariedade entre as vítimas, e não na aceitação dos valores morais que a burguesia prega e impõe.

O nosso papel é descontruir a ordem obsoleta e reacionária. "Arriba el sur".

Por isso, exaltamos as formas constituídas pelas vítimas da opressão, não pelos opressores.

O rap é doloroso e agressivo porque sua estética é a denúncia da violência da civilização sobre aqueles condenados à marginalidade. E o grito dos despossuídos é a resposta daquilo que se pretende calar.

É nesses termos, e não nos termos admitidos pela ordem, que afirmamos que o bolsonarismo é fascista e genocida.

Não estamos pedindo permissão de doutores para dispormos das terminologias. Estamos expropriando o léxico, pelas malversações e insuficiências da formalidade.

Além de armadilha conceitual, o recurso do formalismo implica na necessidade das forças da ordem de, por um lado, suprimir o protagonismo da vítima sobre sua própria história. De outro, seguir desconstituindo a realidade da opressão, através, exatamente, das justificativas criadas sob encomenda para cumprir esse papel.

Nós, as vítimas, somos os transgressores do sistema. Quem justifica e explica o sistema são as forças reacionárias (mesmo as inconscientes). E é assim porque é nossa função expor, escandalizar, acusar e recusar o modelo de interpretação da realidade definido nos termos dos opressores. 

Quem está declarando que Bolsonaro é genocida, não está preocupado em convencer a corte de Haia sobre uma tese jurídica. Aliás, não dependemos do veredito de Haia. O mundo, antes, é território dos sentidos, só depois (e a partir deles) descende para as instâncias do conhecimento. E a palavra genocídio não é monopólio das esferas judiciais, cada palavra pertence, sobretudo, aos que dela se valem para caracterizar e compreender o mundo (ave, pedagogia do oprimido!).

Do mesmo modo, fascismo é a política que instala o avesso diametral da política enquanto espaço de intervenção plural. É o autoritarismo que avoca, para si, o estatuto de verdade incontestável. É a forma política exaurida e imposta, por meio da força (política, social, militar) para exterminar o direito à rebeldia.

Deixamos para as doutores discutirem, à luz de futuro, o quanto de nossas determinações caberão nos escaninhos da formalidade.

É golpe, é fascismo, é genocídio! O racismo é estrutural, e as políticas compensatórias são válidas, porque os sujeitos da luta contra a opressão da escravocratura arrancaram, na marra, as respostas que o ordenamento conservador se empenhou em suprimir e tutelar, ao extremo e com violência.

Da mesma forma, vamos condenar a violência a ser a iniciativa do agressor, e não a resposta da vítima. Podemos para isso, inclusive, expropriar dos agressores, o sentido de legítima defesa da vida. Por isso, também, vidas negras importam. Por que o direito à vida é privilégio dos brancos. Por isso o feminicídio, por que "legitima defesa da honra" é justificativa abominável para distorção da dor pelo vernáculo machista.

Quem não entendeu ainda, melhor já ir se acostumando. Não vamos nos calar. Não vão nos calar. Porque enquanto ele, sim, nós, #elenão.


quarta-feira, 28 de abril de 2021

De que sabor vai ser?

Démerson Dias


Comemoramos a instalação da CPI, mas, além de tardia, é, não mais que uma resposta para restaurar a ordem, desconstruída pelo bolsonazismo. Nem sequer, trata-se de impulso de consciência dos donos do poder, muitos dos quais, refestelam-se na esbórnia da familícia.

É flagrante que a CPI só surge depois que diversos setores da comunidade internacional acusam o descalabro da situação brasileira. Não existe, por aqui, noção de identidade.

Na melhor das hipóteses, o que a encenação da CPI vai atestar é que um governo republicano mal conduzido pode trazer prejuízos irreparáveis à cidadania. Termos como crime humanitário serão adereços. Como o legislativo brasileiro é avesso à civilidade, até mesmo uma denúncia objetiva à Corte de Haia já é uma perspectiva extravagante. Não existe hipótese, dentro da ordem, que vá além de Mourão, ou antes de 2022.

A natureza das CPIs brasileiras circunscreve-se no arranjo institucional da conciliação entre idiotas e otários. Respectivamente, de um lado, seres sem qualquer resquício de vocação pública, de outro, pessoas com a indignação tão arrefecida que acreditam que o meio termo entre o nada e o quase seja uma solução politicamente válida. Bem entendido, esse nada para o social significa o tudo para os assaltantes oficiais da república. E não, os políticos oportunistas não são os assaltantes, apenas seus intermediários.

Quaisquer avanços ocorridos no parlamento nacional brasileiro, apenas inscreve as circunstâncias num verbete institucional que, para ter significância objetiva dependerá de exaustiva pesquisa de campo que, no máximo, apontará tendências. É o cotejo da mediocridade.

A tautologia desse raciocínio é necessária para constatar que as mudanças reais, ou efetivas, no país, decorrem exclusivamente do impulso social que as embale. Depois de 2013, mesmo impulsos destrutivos cabem na apreciação protocolar do parlamento.

A crise sanitária brasileira permite diagnósticos de praticamente todas as vertentes políticas e sociais existentes. Podemos examinar como se comportam o lúmpen, os mandatários, os empresários, os pobres, as mulheres, os ativistas etc.

Em larga medida, é possível perceber que, em seus diversos contornos, o país abriu mão de constituir-se enquanto sociedade civil. Delegamos, de forma tão absoluta, o poder às mãos da representação política formal, que, nem mesmo a realidade devastadora de meio milhão de mortos é capaz de mover algum impulso de lucidez.

Essa é a implicação de uma sociedade eficientemente domada pela instância da iniciativa privada da vida social (p.ext. mediação capitalista), enquanto todas as esferas do mundo político são oligopólio dos grupos que hegemonizam o país, com a anuência proverbial dos indignados cativos que lhes fazem oposição formal.

O Brasil não é território, que dirá nação. Por isso, a solução da CPI da COVID poderá ser mais condimentada, mais exótica, meio a meio, ou mesmo, com muito recheio. Mas não irá além de acomodar o necessário, ou suficiente, para que não exista país algum em perspectiva soberana. Consequentemente, será uma pizza tão difícil de deglutir que nos devolverá, prontamente, ao estado de inapetência cívica. Essa, a que fomos acondicionados mais ou menos, desde 1889, quando alguém inventou uma república dos marotos para reinar sobre uma multidão de desavisados abestalhados.


sexta-feira, 19 de março de 2021

Mais do mesmo somos nós

Démerson Dias


Aterradora profecia de Miguel Pau

     Existe um paradoxo entre discurso e prática na esquerda brasileira.

     Afirmamos ter derrotado a ditadura de 1964, supostamente, desde março de 1985.

     Se isso ocorreu, de fato, porque os esquadrões da morte seguiram atuando, converteram-se em milícias, elegeram um presidente da república e estão conduzindo o maior extermínio da história do território brasileiro desde a chacina das civilizações indígenas?

     A ditadura brasileira ressignificou miseravelmente nossa definição de democracia, chegou ao poder pelas urnas, rebaixou a patente de comando de general para capitão, e trocou Golbery e Geisel pelos seus cães de guarda mais depravados. Aqueles do tipo tão incompetentes que fazem explodir bombas no próprio colo no Rio Centro, ou brincam de espoleta na Adutora  do Guandu. No mais, só são “bicho feroz” com revólver na mão.

     O paradoxo entre nossa crença, em discursos e bandeiras, e a prática emancipatória, da qual afirmamos ser caudatários, se explicita pelas vertentes mais expressivas das esquerdas que se dividem em dois segmentos: um deles acredita que ainda existe uma constituição no país e que temos uma democracia em vigor. Como se fosse real, e saudável, uma democracia que admite a eleição de um fascista.

     Favor, não confundir com Trump, um especulador capitalista midiático, inspirando os fascistas. Trump é um capitalista boçal, seu arremedo brasileiro é quase igual, é fascista, só não é capitalista.

     O outro setor, embora se inspire e reivindique os heróis históricos que morreram por transformações no país, virou pacifista. Esse setor tem algumas ramificações, mas parece acreditar que quanto mais pessoas gritarem, o mais alto possível, "fora genocida", seremos capazes de instaurar um modelo radicalmente novo de mediação política, social e econômica no país.

     O que une esses setores não é a perspectiva do porvir, mas o fato de estarem nessa mesma posição nos últimos 36 anos.

     Como alguma autocrítica é recomendável, eu devo fazer parte de uma esquerda pueril e alienígena, que não entende como as coisas funcionam, e não acredita nas doutrinas.

     Alguns indignados com essa caracterização poderão aventar as milhares de greves realizadas, ou mesmo vitoriosas, nesse período. Todas foram guerrilhas pacíficas, consentidas, com efeitos fugazes, pontuais e que impulsionaram o aperfeiçoamento dos instrumentos de opressão, exploração e controle. Os ganhos dos capitalistas se mantêm e  aumentam, qual categoria, greve ou movimento, no mínimo, preservou suas conquistas? Foram 36 anos de fátuas vitórias e acossados, cada vez mais, ao abismo (400 mil já despencaram, só de Covid).

     Todos os setores da classe que vive do trabalho estão regredindo a condições sub democráticas e em praticamente todos os setores. Eu não quis dizer subumanas, desde a colonização, o país nunca deixou de ter trabalho e vidas em condições subumanas, apenas a percepção disso é refratada de tempos em tempos.

     Nenhuma de nossas conquistas perduraram. Aprovamos leis que não revertem sequer as situações pretendidas, mas o projeto de demolição do esforço constituinte de 88, praticamente, concluiu seus trabalhos com êxito aterrador. Com a auxílio luxuoso de governos de esquerda, diga-se.

     A situação sócio-institucional atual está aquém de 1946 ou mesmo de 1934. A reversão da lei Áurea é, basicamente, questão de tolerância estatística.

     Como o SUS parece ser a última pilastra que nos afasta da barbárie absoluta (ou alguém acredita existe realmente algum auxílio emergencial?), a pandemia talvez tenha surgido como um atalho conveniente para uma solução final, destinada a destroçar a ordem social que consideramos civilizada. O Brasil está por um triz, de voltar a condições sócio metabólicas medievais, com drones exibindo tudo ao vivo e a cores. Num "show de realidade" que promete, para breve, em primeira mão, imagens dos vermes trespassando cadáveres nas ruas.

     Se o capitalismo precisava de um laboratório para testar as distopias que induz, ganhou o Brasil como presente. E a isso damos o nome de democracia?

     Eu aqui, com minhas oscilações de humor, fico tentando decifrar quantas milhares de mortes serão necessárias para as esquerdas entenderem o que significa barbárie? E quantas mais até que decidam fazer algo a respeito (para transformar, não para entender, ou denunciar - a quem, mesmo?).

     O governo neofascista produz reciclagens com velocidade assombrosa. Cada declaração, ou gesto, não dialoga com a realidade, mas com os imaginários dos aderentes e das oposições. Acomoda, ou assimila um desconforto, um constrangimento. O único desgaste real do Bolsonarismo, se presta apenas a uma reciclagem burguesa. Jamais a qualquer átimo de evolução democrática.

     Por enquanto, vão vencendo no país, os gatilhos de ajustes infinitesimais da contra-revolução preventiva. Daqui a pouco, Bolsonaro se converte no bode na sala, a demolição que patrocinou, permanecerá incólume, enquanto o país, “como nunca na história" poderá respirar, aliviado.

     E as esquerdas seguem em sua missão revolucionária de assistir a tudo, bestializadas.


quinta-feira, 11 de março de 2021

Fachin e o mal menor.

Démerson Dias


Vitor Teixeira

     Edson Fachin tentou salvar Moro e a LavaJato oferecendo, em troca, a inocência de Lula. Se, por um momento, pareceu “esmola demais”, ele apenas optou pelo mal menor. Tentou sabotar o julgamento de suspeição de Moro e o exame da extensão das maracutaias da lava jato em rede nacional. 

     A aposta de Fachin foi malandra, mas ingênua. Tentou bancar a tese de que o único erro de Moro foi a sede de fazer justiça a qualquer custo e chamar para si matérias que não eram de sua competência. MENTIRA!

     Tanto Moro, quanto seus colegas e os superiores no TRF4, quanto o STJ, quanto o STF sabiam que Moro estava exorbitando. E ninguém precisava de gravações para constatar. O “timing” indecentemente sincronizado entre acusação e juízo era vergonhosamente explícito. Aliás, uma das primeiras alegações da defesa foi o foro, Moro rechaçou e nenhum dos santos de agora se comoveu.

     Ao contrário, ENDOSSARAM a sanha persecutória. Sendo os episódios mais agravantes o impedimento ilegal de Gilmar Mendes para que Lula se tornasse ministro e o atentado constitucional sobre a prisão em secunda instância. Todos foram cúmplices. O mais decente seria que, depois de limparem a caca, entregassem seus cargos.

     E ainda existem as denúncias do advogado Tacla Duran que lançam denuncia situação de corrupção explícita sobre a Lava jato. Qualquer juiz que tivesse um mínimo de vergonha na cara teria tido interesse em apurar e esclarecer, como isso não foi feito, a versão que, por enquanto, procede é a do advogado: a Lavajato era um quartel de crime organizado e corrupção.

     Com os vazamentos, todos foram pegos com as calças nas mãos. Aqueles que ainda tinham uma réstia de caráter, ou senso de autopreservação, pularam da cadeira dizendo: “eu não sabia”, “gravíssimo” etc.

     Cabe uma ressalva a Ricardo Lewandowski. Desde o início e sem tergiversação, foi o único que se indignou com o ativismo reacionário.

     Como parece que não ficou claro, quem, a qualquer tempo apoiou, defendeu ou ignorou o lavajatismo, deu cobertura também às ações das milícias bolsonáricas contra os “pretos, pobres e brancos pobres como pretos”. O que ocorreu com Lula é o cotidiano das populações excluídas.

     A rigor, Lula teve uma sorte que não é pra todos. Se não fosse figura pública, e se não vivesse acima de cinco salários mínimos, teria sido torturado e morto. A LavaJato foi o descalabro do sistema sistema penal brasileiro subindo para o andar de cima. Não por acaso, a vítima era um “nordestino, aleijado pelo trabalho e semi-analfabeto”.  E Lula está errado quando diz que eles erraram. NÃO FOI ERRO!!!! Foi ação premeditada, intencional e perseguida com afinco (e desleixo, convenhamos).

     O desfecho não seria diferente de Sandro Barbosa do Nascimento, que sobreviveu à ação policial criminosa na Candelária, mas não a uma viagem de camburão. Seus assassinos, que foram inocentados, evitaram que fosse linchado para terem o privilégio apenas para si. (Em tempo, se você confunde justiça com vingança, por favor, me poupe pelos próximos 33 anos, até lá os saprófagos já devem ter feito sua parte).

     Moro e seus comparsas são apenas a versão MBA do banditismo nacional. Não importa se Lula cedeu à corrupção. Não existe mediação social livre da corrupção no capitalismo. Quem se acha incorruptível sob o capitalismo apenas não pensou a respeito o suficiente.

     O atual inquilino do Planalto já declarou que é sonegador contumaz, não é acidente que todos seus filhos transitem entre a civilidade idiota e a criminalidade convicta.

     Não espero que Lula queira decifrar o contexto inteiro. Se ele se empenhar em desconstruir seus acusadores e aderentes terá mais um tento histórico para reivindicar. 

     O sistema penal brasileiro é um atentado à humanidade. Todo sistema penal é um sintoma autoritário, assim como toda prisão é política.

     Magistrados, políticos, imprensa burguesa, todos alegam fazerem escolhas pelo mal menor. Pela sua perspectiva mal menor não é algo que vá beneficiar o país, é apenas o que vai parecer uma coisa boa, mas que vai permitir abocanhar ganhos ou finalidades vergonhosas.

     Que bom que a liberdade política de Lula foi restaurada. Pelas minhas contas é preciso liberar somente uns 386 mil na mesma situação em que estava Lula. Sem mencionar, é claro, as outras injustiças que o “mal menor” patrocina país adentro.