sexta-feira, 29 de março de 2019

Titica na cabeça

Titica na cabeça
Por Démerson Dias

Sergio Moro deve ter fumado titica. E gostado.
Se há um lobi que havia perdido força nos espaços centrais do poder era o das indústrias de tabaco. Desde 1996 esse segmento viu constrangidos seus espaços de atuação e aceitação. Há décadas foram obrigados a publicar nos seus produtos fotos horripilantes sobre os resultados do fumo ostensivo e seus efeitos, inclusive sobre os familiares.
Ainda que o consumo oscile, a indústria do tabaco era uma preocupação inercial da saúde pública, sem que o Estado viabilizasse qualquer favorecimento ostensivo ao setor.
Mas o Brasil vive um governo pródigo em flertar com a barbárie. Não chega a ser surpreendente porque a avalanche Bolsonaro está batendo todos os recordes de liberação de drogas agrícolas. Mas não se pense em maconha, daime. São drogas pesadíssimas, pesticidas, transgênicos, coisa do tipo.
Pessoalmente, fico com a impressão que Sergio Moro e Nana Caymmi andaram consumindo a mesma substância. Ou ele sofre de uma intoxicação por ter sido exposto por tempo excessivo a um certo polemista brasileiro que vive na Virgínia e garante que cigarro não causa câncer e isso é uma conspiração inventada pela cúpula marxista do mundo que controla a Onu, os tsunamis e as barragens da Vale.
Temo que estejamos diante de uma espécie de apocalipse, diante da quantidade de perplexidades que esse governo consegue produzir, o deus deles pode se arrepender e escolher um novo Noé.
Bolsonaro deve ter ordenado que seus ministros se envolvam num projeto megalômano de entrarem para o livro dos recordes como o governo que produziu o maior número de disparates e bizarrices.
Conta-se à boca pequena que Bolsocoiso quer apagar da memória do mundo a memória de seu principal concorrente como governante capaz de produzir esquisitices, Kim Jong-un. Não, Trump não conta porque é hors concour. Francamente eu aposto tudo em Bolsonaro.  Com três meses de governo já ameaça o reinado do norte-coreano.

Sendo que o mais impressionante é que essas coisas servem de ótimo pano de fundo para o profundo saco de maldades que eles pretendem aprovar contra toda a sociedade. Fora a suspeita de que pretendam também, com essas iniciativas, levar uma parcela da sociedade à insanidade. Quem, em sã consciência seria capaz de imaginar o país sendo governado por um bando tão seleto de celerados?

Alguém supor que reduzir impostos de cigarros beneficia a saúde pública é caso de fantástico de inversão absoluta de valores. Como é que alguém ainda valoriza o cigarro como um mercado de consumo váliido?
Por que não falar, então em redução de danos e política de descriminalização de drogas e redução dos riscos de contaminação entre consumidores? Imitar o Uruguai, nem pensar, né?
A estupidez assimilada bovinamente por Moro é que reduzir impostos dos cigarros beneficia a saúde pública porque diminui o consumo de  cigarros de baixa qualidade produzidos fora do país.
Que eu me lembre, os cigarros importados do Paraguai saiam e entravam de volta no país para burlar impostos.
Vai saber o que mais esses caras pretendem ressuscitar? Eu ia mencionar, mas dizem que é perigoso dar ideias, eles não tem qualquer escrupulo de sanidade.

Por falar em Titica, devemos também repudiar o palhaço Tiririca que convenceu o país não poderia ficar pior do que estava.
Bolsogangue acima de tudo e os salafrários encima de todos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Só podia ser de Pernambuco

"Só podia ser de Pernambuco"
por Démerson Dias

Foto: Acervo Instituto Paulo Freire
Às elites brasileiras, sobretudo, aquelas que se albergam nos pombais de luxo em Miami, e também as que se orgulham de declinar corretamente as regências nominais óbvias, vira-latas são os demais brasileiros. Dessas que, conforme Ariano Suassuna, dividem a humanidade entre os que foram e os que não foram à “Disney”.
Formalmente, não é demérito comparar a maioria do povo brasileiro, esse exaltado por Darcy Ribeiro, com vira-latas. Demérito seria comparar os vira-latas com aquelas elites.
As regências nominais podem passar incólumes, mas as virtudes humanas não se medem por essas regências.
Para a elite acadêmica mundial, essa que já sabe que a vida não se resume a um parquinho temático, o mais importante intelectual brasileiro é um cabra nascido no Recife.  Antes que Miami turve também o conhecimento geográfico do país (terra plana, geocentrismo etc), Recife fica em Pernambuco.
Uma das formas de medir o valor de um trabalho científico é pelas vezes em que sua obra é mencionada em outros trabalhos. Depois que a matéria da BBC repercutiu no Brasil as informações publicadas na Nature (revista científica britânica e uma das referências acadêmicas mais importantes do mundo), eis que “descobrimos” que Paulo Freire, mais especificamente “Pedagogia do Oprimido”, é a terceira obra mais citada em trabalhos acadêmicos na área de humanidades em todo o mundo (https://blogs.lse.ac.uk/impactofsocialsciences/2016/05/12/what-are-the-most-cited-publications-in-the-social-sciences-according-to-google-scholar/). 
O artigo de Elliott Green, professor da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, na Inglaterra, conta que a Nature baseou sua pesquisa no Google Scholar e levou em conta as cem obras mais citadas no mundo. A obra de Paulo Freire teve nada menos que 72.359 citações.
Outro projeto, o Open Syllabus Explorer da Universidade de Columbia aponta que nos países de língua inglesa Pedagogia do Oprimido é a segunda obra mais solicitada nas universidades.
Ou seja, na área do conhecimento, um brasileiro, pernambucano, está entre os intelectuais mais citados no mundo. Não sei quantas estátuas de Paulo Freire existem no Brasil. Na suécia há uma que o equipara a grandes lideranças libertárias de décadas passadas.
Faz muito sentido que uma parcela de brasileiros obscurantistas odeiem e repudiem Paulo Freire. Como pode um sertanejo (não importa que seja de Recife, um dos centros urbanos mais importantes do país, uma das duas capitanias hereditárias que vingaram desde o pactuamento de Tordesilhas.
O que é capaz de destruir o obscurantismo? O esclarecimento, o conhecimento. Mas não é só isso. É preciso odiar Paulo Freire porque ele é um dos brasileiros mais amorosos e generosos que viveu nesse país.
Freire afirmava que só existe diálogo onde existe amor, já que o pressuposto para o diálogo é o respeito pelo outro, não o sentido de posse, ou tutela sobre a consciência do outro.
Acreditava que o conhecimento não é propriedade intelectual de ninguém, e não havia “saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”. Assim como “palavra não é privilégio de algumas pessoas, mas o direito de todos”.
Só consegue vincular Paulo Freire a qualquer prática autoritária que nunca teve contato com suas ideias, suas obras. É importante frisar que o mérito pelo qual seu reconhecimento é mundial é exatamente por ter pensado uma pedagogia libertária. Se era essencial após o nazismo e a guerra fria, que dirá agora, quando parcela da humanidade flerta e graceja com o totalitarismo.
Dizia que “ninguém é sujeito da autonomia de ninguém”, mas que a “liberdade é adquirida pela conquista, não pelo presente. Deve ser perseguida constante e responsavelmente”.
Da mesma forma afirmava que “glorificar a democracia e silenciar o povo é uma farsa; discursar sobre humanismo e negar as pessoas é uma mentira.” E que “um verdadeiro humanista pode ser identificado mais por sua confiança no povo, que o envolve em sua luta, do que por mil ações a seu favor sem essa confiança”, porque “líderes que não agem através do diálogo, mas insistem em impor suas decisões, não organizam as pessoas - elas as manipulam. Eles não liberam, nem são liberados: eles oprimem”.
Para Paulo Freire “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”, na medida em que “ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.”
Uma de suas reflexões mais conhecidas é “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.”
Dependendo de quem menciona o fato, Paulo Freire já foi traduzido em 18, 20, ou 40 idiomas. A versão mais citada de Pedagogia do Oprimido é a traduzida para o espanhol. Na sinopse para uma das edições comemorativas da Bloomsbury, uma das editoras que publica Freire fora do Brasil, consta que “a metodologia do falecido Paulo Freire ajudou a capacitar incontáveis pessoas pobres e analfabetas em todo o mundo. O trabalho de Freire assumiu especial urgência nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, onde a criação de uma subclasse permanente entre os menos favorecidos e as minorias nas cidades e nos centros urbanos é cada vez mais aceita como norma . . . Pedagogia do Oprimido inspirará uma nova geração de educadores, estudantes e leitores em geral nos próximos anos. ”
Existem centros de estudos sobre a obra de Paulo Freire na África do Sul, Áustria, Alemanha, Canadá, Coreia do Sul, Espanha, Estados Unidos, Finlandia, Holanda, Inglaterra, Portugal. Recebeu homenagens em pelo menos 35 universidades, entre brasileiras e estrangeiras, como a Universidade de Genebra, a Universidade de Bolonha, a Universidade de Estocolmo, a Universidade de Massachusetts, a Universidade de Illinois e a Universidade de Lisboa. 
Existem crítico de Freire entre os especialistas, é claro. Por exemplo, até mesmo para os Democratas nos Estados Unidos, a proposta de Paulo Freire é perigosamente democrática. Ainda assim, Pedagogia do Oprimido e o Manifesto Comunista de Marx estão entre as obras mais exigidas. Essa visão tacanha de que o que eu não gosto eu não leio não é apropriação dos EUA, é copyright brasileiro mesmo.
Em Pedagogia do oprimido a educação formal é considerada de “concepção ‘bancária’ da educação”. “O educador aparece como seu indiscutível agente, como o seu real sujeito, cuja tarefa indeclinável é "encher” os educandos dos conteúdos de sua narração. Conteúdos que são retalhos da realidade desconectados da totalidade em que se engendram e em cuja visão ganhariam significação. A palavra, nestas dissertações, se esvazia da dimensão concreta que devia ter ou se transforma em palavra oca, em verbosidade alienada e alienante. Dai que seja mais som que significação e, assim, melhor seria não dizê-la.
...
A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os transforma em “vasilhas”, em recipientes a serem “enchidos” pelo educador. Quanto mais vá “enchendo” os recipientes com seus “depósitos”, tanto melhor educador será. Quanto mais se deixem docilmente “encher”, tanto melhores educandos serão.
Desta maneira, a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o educador o depositante.
Em lugar de comunicar-se, o educador faz “comunicados” e depósitos que os educandos, meras incidências, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis aí a concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los.
Educador e educandos se arquivam na medida em que, nesta distorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber. Só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros. Busca esperançosa também. Na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro.
O educador, que aliena a ignorância, se mantém em posições fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre os que não sabem. A rigidez destas posições nega a educação e o conhecimento como processos de busca.”
Eu teria mais a dizer sobre Paulo Freire, vai ficar pra outra oportunidade. Nessa citação descobri notei novos elementos que merecem reflexão. 
O que deve ficar evidente por essa citação é que o Brasil de maneira geral nunca se pautou pela fórmula sugerida por Paulo Freire, O que prevalece ainda é o método bancário de ensino, algumas escolas e professores se esforçam. Se tivéssemos seguido seríamos uma Finlândia tropical.
Ainda assim, que bom que era Pernambucano. Se fosse estadunidense aqueles brasileiros despossuídos de si iriam deglutir bovinamente, sem qualquer revisão crítica. E Paulo Freire ficaria entristecido.
Vai ser bom assim lá em Pernambuco, Brasil!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Bolsonaro deveria explicar o assassinato da Marielle

Bolsonaro deveria explicar o assassinato da Marielle
por Démerson Dias

     Foi lugar comum na mídia mencionar “medo” entre as razões de Jean Wyllys para deixar o próximo mandato e o país. Medo ajuda na nossa preservação, é importante.
     No anúncio que faz, Jean Wyllys vai bem além do medo, mas deixa claro que medo não é a parte determinante nessa decisão. Mas poucos querem ir além de um lugar comum.
     Por exemplo, o pólo oposto ao medo está a covardia de um exército de idiotas que, por serem capazes de expressar sua estupidez de forma violenta, acham que possuem algum valor, poder ou autoridade.
     Wyllys está melhor preparado para notar a extensão do que a mídia fez questão de omitir ao longo da semana.
     A família Bolsonaro possui ligações íntimas com as milícias e foram as milícias que mataram Marielle Franco e Anderson Gomes.
     Isso significa que existem respingos de sangue que subiram a rampa do Planalto junto com a gangue/famiglia/quadrilha que foi levada ao poder pelos 57 milhões de brasileiros que ainda não entenderam o que significa democracia.
     E porque existem as milícias?
     Por que um bando de covardes mentecaptos, principalmente nas forças armadas, ao longo da bandalheira instalada a partir de 1964 tinha uma necessidade sobrenatural de afirmar sua suspeita virilidade criando as iniciativas em torno da chamada esquadra Le Coq.
     Bandidos que se sentiram desprestigiados e outros que tornaram-se viciados em sadomasoquismo e passaram a depender de doses cada vez mais intensas de prazer diante do terror alheio.
     Uma pessoa saudável que tivesse mandato parlamentar no Rio de Janeiro e relações com o tema da segurança deveria assumir como fracasso o franco descaso do país com os regimes de insegurança.
     Wyllys não está tomando uma decisão exclusivamente por conta do medo. Mas a causa principal é a covardia das pessoas do convívio do atual governo que sobrevivem dos subprodutos da violência em escala industrial que toma conta do poder.
     E a mídia está muito pouco interessada a contar essa história.
     Era, se não me engano, 2006 quando o crime informal decretou toque de recolher em São Paulo. A boca pequena se comenta que o tucano emplumado que ocupava o governo conseguiu um armistício com a área de segurança informalizada representada pelas organizações como PCC. Não é minha área, portanto deixei de acompanhar os desdobramentos.
     Mas em 2016 ao mesmo tempo em que Michel Temer promove o golpe de estado contra o país e Dilma Rousseff, tem início uma conflagração entre segmentos desse verdadeiro departamento de organizações criminosas que entram em disputa pelo controle dos presídios e crimes no norte e nordeste do país. Pelo visto sul, sudeste e centro-oeste já possuem seus acordos “intergovernamentais”.
     A primeira atividade social em escala ocorrida no Governo de Bolsonaro é a transformação do Ceará em tabuleiro de guerra pela organização da “segurança informal” do país. Não parece acaso terem colocado Moro na área à qual está subordinada a segurança do país. Ele já demonstrou ser um especialista em facilitar a vida dos criminosos transferindo a outros a responsabilidade pelos crimes de seus protegidos.
     A grana dos laranjas, goiabas, açaís comove e ocupa lugar no debate nacional, mas o movimento mais consistente do governo é a acomodação dessas instituições paramilitares no âmbito dos espaços de poder do país.
     Aliás, a própria intervenção no Rio parece ter correspondido à tomada de partido por parte dos facilitadores em cargos públicos para uma solução, ou tomada hostil do controle do crime/segurança informal.
     O risco maior é que a especialidade maior da família do revólver em punho seja exatamente prestar assessoria para um conluio definitivo entre as instâncias formais de governo e os interesses de setores que sobrevivem pela omissão do país em garantir um contexto de civilização em que as coisas não se resolvem na ponta da faca, ou da bala.
Fico propenso a achar que Marcola teria sido uma escolha bem mais civilizada. De saída, até em Davos ele seria capaz de fazer melhor 6'38". Se é pra chamar os especialistas, melhor que sejam os mais competentes. Eles, inclusive não custam tão caro.
     Muito além de atos indeterminados  que levaram Lula à cadeia, estão atos determinados que garante que a as organizações da criminalidade, a família Bolsonaro e os executantes de Marielle e Anderson façam, parte de um mesmo conglomerado. E agora estão “no poder” como nunca antes. O Brasil não rompeu com a corrupção, atolou-se nela de corpo e alma e agora pela sua facção mais grotesca, aquela para quem encomendar a morte é mais simples do que autorizar uma transação bancária de  R$2000 reais. E bem mais barato que isso, também.
     Bolsonaro e seus comparsas, nós já sabemos.
     Mas e nós? De que lado você está na política do ódio? Não se engane, quem não está com eles, está, ou estará, certamente, sob sua mira.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Caiu a árvore que estava podre


Caiu a árvore que estava podre
Démerson Dias

Ia como a cidade, garoento e frio.
Frio indeciso, entre o corte e o abraço
Ainda vivo a caminho da morte

Foto: Démerson Dias
Mais morte havia na cidade impura e vã
Assim o decretava o progresso
Tão espelhado e ágil, quanto torpe

Do viaduto, um grito em luz que me alertava
Caiu a árvore que estava podre!
Céticos verdes ainda nos troncos,

Aquele grito em luz tal qual um verde em fuga
Cujas sombras não mais se notava
bailando em vento, ornamento ou valsa

A cidade que amanhecia não era honesta
Era impura e vil, quase cruel
Só não era tanto porque esperança

Que não é a cidade que tortura as almas
Pessoas, sim, às almas e árvores
Árvores, cidades, esperanças

A sina da árvore em nada era incomum
Só não existia, até que caiu
E de seu  nada se fez transtorno

Memória agora, quem não se sabia planta
Não que a árvore fosse gentil
O gentil da hipocrisia, não

Foto: Nelson Antoine/Estadão Conteúdo/Veja SP
Assim também o barranco no qual pendia
Privada do silêncio eloquente
De quem não a reconhecia viva

E que miserável é uma tal cidade
Em que só se existe ao morrer
Minha cidade apodreceu a árvore

Ou quanto de mim não será que a derrubou
E o que assim, de mim, de nós, com ela
Também não apodreceu com a queda

Estava podre a árvore em nós?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

“Quase todos perdidos de armas na mão”


“Quase todos perdidos de armas na mão”
por Démerson Dias

Uma das cenas mais infelizes da históra 
     Amadas, ou não, as mulheres serão alvo primário desse ensandecido decreto pelo direito censitário ao assassinato. Ninguém se engane, o aumento da disponibilidade a armas de fogo irá banalizar os crimes cometidos por esse meio, já que está disponibilizado com a mesma facilidade que um eletrodoméstico. Lapsos de sanidade ensejam o uso do que está à mão.
     Uma mulher espancada até a morte e jogada do apartamento; uma delegada e uma segurança espancadas por um brucutu; milhares de mulheres que sobrevivem à violência doméstica podem deixar compor as estatísticas de agressões, passando para as de feminicídio propriamente caracterizado.
     Agora, mídia e institutos de pesquisas que ajudaram a construir o mico Bolsonaro anunciam que um contingente enorme rejeita a ideia de liberação de armas. Há muito tempo a mídia deixou de disfarçar que tudo o que faz é propaganda. Ela vende a atenção de seu público e dissemina a ideologia da ordem. Não foi o capitão Brancaleone que criou “notícias populares”, “aqui e agora”, “cidade alerta”. O atual presidente é uma das consequências da política editorial da mídia.
     Apesar de não ter me esforçado para acompanhar tudo o que foi dito, não vi ninguém que tenha dado destaque a um dos dados mais estarrecedores da nova medida. Por que até quatro armas por indivíduo? Agora mulheres poderão ser alvejadas por quatro calibres distintos.
     Ou será que alguma empresa de coldres já está projetando um suporte para quatro armas, e num instante nos tornaremos uma terra sem lei, tipo um faroeste dos trópicos?
     Talvez para que isso passasse batido surgiu a absurdamente grotesca comparação com os liquidificadores de extermínio em massa, que podem ser o terror dos laranjas políticos, como disse, salvo engano, Jean Wyllys.
     Admito que devo ter passado as últimas décadas hibernando, já que devo ter perdido o infame massacre do turbo autolimpante ocorrido num cinema de shopping em São Paulo. E a criança que esquartejou o irmãozinho com sucessivos ataques realizados com a tecla pulsar. A chacina da candelária com equipamento que possuia cinco velocidades diferentes. Eldorado do Carajás foi um evento que contou com processador avançado de cana de açucar. E, por fim, o ápice da insanidade com o massacre dos multiprocessadores no Carandiru.
     É claro que há idiotas ocupando posições políticas em todos os lugares, no entanto é difícil saber se o pior é alguém dizer esse tipo de aberração, ou que nenhum de nós postule sua interdição como incapaz.
     E há limite para o sarro que podemos tirar, mas não para a insanidade das pessoas.

     Não existe absolutamente o menor risco do problema da violência diminuir. A certeza absoluta é que vai se agravar. Os jornais já noticiaram que, da posse ao porte, basta ter como álibi uma rotina diária de visita a um clube de tiro. Mesmo considerando uma posse em casa e outra no trabalho ainda sobram duas para o faroeste casual.
     Outro dado da insanidade é que setores ligados à vida militar sejam patrocinadores de uma ideia como essa. Haja idiotice, já que, armar a população é abrir mão do monopólio estatal da coerção. Depois das mulheres, as vítimas preferenciais serão militares em expediente ou nos bicos que são instigados a fazer. Também não há hipótese do arsenal circulante nas ruas diminuir, a banalização da posse de arma será diretamente responsável pelo agravamento da violência. E o lóbi da bala fez questão de garantir que qualquer pessoa que viva nesse país que mata mais do que qualquer conflito armado no planeta seja um potencial consumidor de armamento.
     E como o capitalismo é absolutamente desenfreado, na medida em que afrouxa-se a aquisição de armas permitidas, ao mercado informal restará abastecer as pessoas de bem com inovações e armas restritas, afinal, é preciso se destacar da gente diferenciada que passará a ter acesso aos calibres e modelos convencionais.
     E pensar que há pouco tempo a reclamação dessas pessoas de bem era pelo contingente que passava a ter acesso facilitado à linha branca, automóvel e passagem aérea.
     Devem observar que o decreto não menciona a reserva de mercado às pessoas de bem. A única sorte desse estrato social sub-burguês, é que não será uma decisão corriqueira gastar mais de três salários mínimos num item de uso eventual.
     O que, por outro lado, será um estímulo para aqueles que tiverem interesse em “fazer dinheiro” através das armas de fogo. Sendo que a mais singela das formas é utilizar sua disponibilidade cidadã de adquirir armas para abastecer o mercado informal para aqueles que farão uso delas para agravar as estatísticas de violência. Tão certo quanto existem os desmanches que fazem receptação, o mercado de recepção de armas roubadas será turbinado de forma medonha.
     Não consigo imaginar que uma pessoa que defenda o armamento da população para conter a violência esteja em seu juízo perfeito. Mas é inegável que interesses comerciais legais e escusos são os principais patrocinadores dessa causa.
     A lista de riscos é vasta e vou parar apenas mencionando um dos mais graves desdobramentos em minha opinião. Num país atormentado pelo ódio, pelo todo tipo de opressão moral (bullying, assédio, etc) qual o impacto dessa medida para a incidência e efetividade das tentativas de suicídio?
     “Abandonai toda a esperança!, vós que entrais”. O Brasil adentra o purgatório.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Comando Brancaleone

Comando Brancaleone
por Démerson Dias

    A estupidez é uma benção!
    Já imaginou Pelé comemorar a vitória do adversário?
    E Sherlock Holmes comemorar o sucesso de Moriarty?
    Segundo o dicionário Oxford Cuckold é uma expressão que indica, dentre outras coisas, o hábito do Cuco de colocar seus ovos para outras aves chocarem. No Brasil e em outras áreas da cultura a expressão remete a outro tipo de fetiche.

    Foi exatamente isso que ocorreu no governo de Mr Jair Brancaleone (com o perdão de chamar de “governo”).

    Depois de anos xingando governos anteriores por abrigarem o revolucionário italiano Cesare Battisti, ter feito juras aos seus eleitores comovidos de que iria perseguir e expulsar esse terrorista do Brasil, o governo policial brasileiros, enfim comemora que E eis que finalmente o perigosíssimo terrorista Cesare Battisti,  foi entregue a autoridades italianas.

    Pela polícia da Bolívia.

    Realmente, prestando atenção, não tem graça. Cesare Battisti, terrorista internacional que seria perseguido implacavelmente pelo maior "expert" brasileiro em segurança, exemplo da luta anticomunista no mundo livre, cercado por todos os lados de outros "experts" militares cheirando a naftalina, foi capturado pela polícia de um país governado por um índio aimará comunista.

    Como vexame pouco é bobagem, imediatamente após a prisão na Bolívia o super-plus-ultra ministro da Justiça (que comanda a polícia que deixou Battisti escapar), o Chanceler visionário e o expedito comandante do vistoso gabinete da segurança institucional se acotovelaram junto ao capitão presidente para comemorarem o sucesso da caçada.
    Os dois primeiros divulgaram nota garantindo ao mundo que o Brasil tomaria todas as medidas para garantir a extradição do fugitivo (sic). O terceiro esbanjou algumas dezenas de milhares de reais mandando um avião para a Bolívia que voltou de asas abanando. E o presidente, é claro, comemorou distribuindo um delicioso pão com leite condensado.
    Dizem que as autoridades bolivianas, ao saberem do rebuliço brasileiro se entreolharam e apressaram-se a enviar Battisti para a Itália, antes que a insólita competência brasileira desse sumiço com ele novamente.

    A estupidez é realmente uma benção. Ainda bem que os brasileiros desmanchavam-se entre gargalhadas. Do contrário teriam percebido que o terrorista mais procurado da Itália, cuja perseguição durou 38 anos desembarcou na Itália. Sem algemas.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Ilusões do Paraíso

Ilusões do Paraíso
Por Démerson Dias

Christian Rex Van Minnen - 2012
     O capítulo da posse ainda não se encerrou e alguns setores já se deparam com a "surpresa" das práticas da ditadura sob nova direção.  Os jornalistas foram tratados como as crianças reféns da pobreza nas periferias do país, acomodados em chiqueirinhos,  transportados como escolares e tendo que levantar a mão e esperar na fila para ir ao banheiro. E, principalmente, não podiam circular por qualquer lugar.
     A atualização do cenário é que tiveram que levar lanchinho pois a escola sem caráter não serve mais merenda, o dinheiro público não se presta a isso, há gente gananciosa demais para que a merenda chegue às escolas. Vícios públicos, benefícios privados. Apenas um upgrade do tucanato paulista.
     Os dois aspectos que se destacam na posse são a paranoia pela segurança e o tratamento anti profissional, via de regra truculento. Com direito a trovinha homofóbica no ministério dos direitos dos humanos de bem.
     É compreensível a reclamação dos profissionais da imprensa, mas a reação  dos representantes do novo pretor não deveriam surpreender.  São condizentes com o que qualquer um que tenha tido um mínimo de atenção seria capaz de antever. Não existe profissionalismo na nova gestão, nem muito menos será uma gestão pública. É uma gestão para os amigos, aos inimigos, restam as leis que serão corrigidas para deixar mais claro o desprezo governamental.
     Reclama também a imprensa de uma suposta censura ao COAF. A democracia é uma beleza, mas tem certos custos, 57 milhões de brasileiros, inclusive os patrões dos jornalistas e vários deles, se empenharam para que o país chegasse a isso. Deveriam comemorar, não contestar. Aliás, apoiaram um candidato que não admite contestação.
     Entendo a dificuldade dos profissionais da mídia e até posso me solidarizar com eles, mas o país escolheu essa via e o percurso não será breve. Ao optar por andar para trás, teremos que refazer todo o caminho rumo à democracia mitigada que encontrávamos em governos anteriores, que eram democráticos apesar da mídia, não por conta dela. Nos últimos anos, aliás, a mídia valeu-se de esquemas de favorecimentos e informações privilegiadas. Inclusive obstruiu a investigação de seus sócios como Carlinhos Cachoeira. Fazem parte do conluiu.
     Para quem apoiou a eleição dos Coisonaros não cabe falar contra a censura, é regra na democracia burguesa que formações delicadas e nocivas ao centro do poder sejam tratadas com sigilo.  É compreensível o desconforto, mas não a surpresa. 
     Houve reclamações de que o pretoriado iria eleger apenas os veículos amistosos para repassar informação e verbas. Reclamações absolutamente injustificadas. Liberdade de expressão é prerrogativa dos direitos humanos a atual dinastia foi eleita em campanha contra os humanos. Bandido bom é bandido morto, imprensa boa é propaganda.
     Ademais, em que momento o novo pretor jurou ser delicado e gentil?  Toda sua vida pública foi pautada pela agressividade, tergiversação e platitudes.
     O que seria o cúmulo do absurdo é se de uma hora para outra os Coisonaros fingissem ser civilizados. Se isso ocorrer deveriam ser depostos.
     As coisas haverão de piorar muito antes que alguém convença os bárbaros de que isso aqui deveria ser um país civilizado. Essa é a hora deles, abençoados por milhões de pessoas e de grana, inclusive em moeda estrangeira.
     Em tempo: o que sobrou de gente civilizada no país, ainda está imaginando como fazer para transmutar a truculência em democracia. Por enquanto, são as pessoas de bem que estão no comando.