quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

“Quase todos perdidos de armas na mão”


“Quase todos perdidos de armas na mão”
por Démerson Dias

Uma das cenas mais infelizes da históra 
     Amadas, ou não, as mulheres serão alvo primário desse ensandecido decreto pelo direito censitário ao assassinato. Ninguém se engane, o aumento da disponibilidade a armas de fogo irá banalizar os crimes cometidos por esse meio, já que está disponibilizado com a mesma facilidade que um eletrodoméstico. Lapsos de sanidade ensejam o uso do que está à mão.
     Uma mulher espancada até a morte e jogada do apartamento; uma delegada e uma segurança espancadas por um brucutu; milhares de mulheres que sobrevivem à violência doméstica podem deixar compor as estatísticas de agressões, passando para as de feminicídio propriamente caracterizado.
     Agora, mídia e institutos de pesquisas que ajudaram a construir o mico Bolsonaro anunciam que um contingente enorme rejeita a ideia de liberação de armas. Há muito tempo a mídia deixou de disfarçar que tudo o que faz é propaganda. Ela vende a atenção de seu público e dissemina a ideologia da ordem. Não foi o capitão Brancaleone que criou “notícias populares”, “aqui e agora”, “cidade alerta”. O atual presidente é uma das consequências da política editorial da mídia.
     Apesar de não ter me esforçado para acompanhar tudo o que foi dito, não vi ninguém que tenha dado destaque a um dos dados mais estarrecedores da nova medida. Por que até quatro armas por indivíduo? Agora mulheres poderão ser alvejadas por quatro calibres distintos.
     Ou será que alguma empresa de coldres já está projetando um suporte para quatro armas, e num instante nos tornaremos uma terra sem lei, tipo um faroeste dos trópicos?
     Talvez para que isso passasse batido surgiu a absurdamente grotesca comparação com os liquidificadores de extermínio em massa, que podem ser o terror dos laranjas políticos, como disse, salvo engano, Jean Wyllys.
     Admito que devo ter passado as últimas décadas hibernando, já que devo ter perdido o infame massacre do turbo autolimpante ocorrido num cinema de shopping em São Paulo. E a criança que esquartejou o irmãozinho com sucessivos ataques realizados com a tecla pulsar. A chacina da candelária com equipamento que possuia cinco velocidades diferentes. Eldorado do Carajás foi um evento que contou com processador avançado de cana de açucar. E, por fim, o ápice da insanidade com o massacre dos multiprocessadores no Carandiru.
     É claro que há idiotas ocupando posições políticas em todos os lugares, no entanto é difícil saber se o pior é alguém dizer esse tipo de aberração, ou que nenhum de nós postule sua interdição como incapaz.
     E há limite para o sarro que podemos tirar, mas não para a insanidade das pessoas.

     Não existe absolutamente o menor risco do problema da violência diminuir. A certeza absoluta é que vai se agravar. Os jornais já noticiaram que, da posse ao porte, basta ter como álibi uma rotina diária de visita a um clube de tiro. Mesmo considerando uma posse em casa e outra no trabalho ainda sobram duas para o faroeste casual.
     Outro dado da insanidade é que setores ligados à vida militar sejam patrocinadores de uma ideia como essa. Haja idiotice, já que, armar a população é abrir mão do monopólio estatal da coerção. Depois das mulheres, as vítimas preferenciais serão militares em expediente ou nos bicos que são instigados a fazer. Também não há hipótese do arsenal circulante nas ruas diminuir, a banalização da posse de arma será diretamente responsável pelo agravamento da violência. E o lóbi da bala fez questão de garantir que qualquer pessoa que viva nesse país que mata mais do que qualquer conflito armado no planeta seja um potencial consumidor de armamento.
     E como o capitalismo é absolutamente desenfreado, na medida em que afrouxa-se a aquisição de armas permitidas, ao mercado informal restará abastecer as pessoas de bem com inovações e armas restritas, afinal, é preciso se destacar da gente diferenciada que passará a ter acesso aos calibres e modelos convencionais.
     E pensar que há pouco tempo a reclamação dessas pessoas de bem era pelo contingente que passava a ter acesso facilitado à linha branca, automóvel e passagem aérea.
     Devem observar que o decreto não menciona a reserva de mercado às pessoas de bem. A única sorte desse estrato social sub-burguês, é que não será uma decisão corriqueira gastar mais de três salários mínimos num item de uso eventual.
     O que, por outro lado, será um estímulo para aqueles que tiverem interesse em “fazer dinheiro” através das armas de fogo. Sendo que a mais singela das formas é utilizar sua disponibilidade cidadã de adquirir armas para abastecer o mercado informal para aqueles que farão uso delas para agravar as estatísticas de violência. Tão certo quanto existem os desmanches que fazem receptação, o mercado de recepção de armas roubadas será turbinado de forma medonha.
     Não consigo imaginar que uma pessoa que defenda o armamento da população para conter a violência esteja em seu juízo perfeito. Mas é inegável que interesses comerciais legais e escusos são os principais patrocinadores dessa causa.
     A lista de riscos é vasta e vou parar apenas mencionando um dos mais graves desdobramentos em minha opinião. Num país atormentado pelo ódio, pelo todo tipo de opressão moral (bullying, assédio, etc) qual o impacto dessa medida para a incidência e efetividade das tentativas de suicídio?
     “Abandonai toda a esperança!, vós que entrais”. O Brasil adentra o purgatório.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Comando Brancaleone

Comando Brancaleone
por Démerson Dias

    A estupidez é uma benção!
    Já imaginou Pelé comemorar a vitória do adversário?
    E Sherlock Holmes comemorar o sucesso de Moriarty?
    Segundo o dicionário Oxford Cuckold é uma expressão que indica, dentre outras coisas, o hábito do Cuco de colocar seus ovos para outras aves chocarem. No Brasil e em outras áreas da cultura a expressão remete a outro tipo de fetiche.

    Foi exatamente isso que ocorreu no governo de Mr Jair Brancaleone (com o perdão de chamar de “governo”).

    Depois de anos xingando governos anteriores por abrigarem o revolucionário italiano Cesare Battisti, ter feito juras aos seus eleitores comovidos de que iria perseguir e expulsar esse terrorista do Brasil, o governo policial brasileiros, enfim comemora que E eis que finalmente o perigosíssimo terrorista Cesare Battisti,  foi entregue a autoridades italianas.

    Pela polícia da Bolívia.

    Realmente, prestando atenção, não tem graça. Cesare Battisti, terrorista internacional que seria perseguido implacavelmente pelo maior "expert" brasileiro em segurança, exemplo da luta anticomunista no mundo livre, cercado por todos os lados de outros "experts" militares cheirando a naftalina, foi capturado pela polícia de um país governado por um índio aimará comunista.

    Como vexame pouco é bobagem, imediatamente após a prisão na Bolívia o super-plus-ultra ministro da Justiça (que comanda a polícia que deixou Battisti escapar), o Chanceler visionário e o expedito comandante do vistoso gabinete da segurança institucional se acotovelaram junto ao capitão presidente para comemorarem o sucesso da caçada.
    Os dois primeiros divulgaram nota garantindo ao mundo que o Brasil tomaria todas as medidas para garantir a extradição do fugitivo (sic). O terceiro esbanjou algumas dezenas de milhares de reais mandando um avião para a Bolívia que voltou de asas abanando. E o presidente, é claro, comemorou distribuindo um delicioso pão com leite condensado.
    Dizem que as autoridades bolivianas, ao saberem do rebuliço brasileiro se entreolharam e apressaram-se a enviar Battisti para a Itália, antes que a insólita competência brasileira desse sumiço com ele novamente.

    A estupidez é realmente uma benção. Ainda bem que os brasileiros desmanchavam-se entre gargalhadas. Do contrário teriam percebido que o terrorista mais procurado da Itália, cuja perseguição durou 38 anos desembarcou na Itália. Sem algemas.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Ilusões do Paraíso

Ilusões do Paraíso
Por Démerson Dias

Christian Rex Van Minnen - 2012
     O capítulo da posse ainda não se encerrou e alguns setores já se deparam com a "surpresa" das práticas da ditadura sob nova direção.  Os jornalistas foram tratados como as crianças reféns da pobreza nas periferias do país, acomodados em chiqueirinhos,  transportados como escolares e tendo que levantar a mão e esperar na fila para ir ao banheiro. E, principalmente, não podiam circular por qualquer lugar.
     A atualização do cenário é que tiveram que levar lanchinho pois a escola sem caráter não serve mais merenda, o dinheiro público não se presta a isso, há gente gananciosa demais para que a merenda chegue às escolas. Vícios públicos, benefícios privados. Apenas um upgrade do tucanato paulista.
     Os dois aspectos que se destacam na posse são a paranoia pela segurança e o tratamento anti profissional, via de regra truculento. Com direito a trovinha homofóbica no ministério dos direitos dos humanos de bem.
     É compreensível a reclamação dos profissionais da imprensa, mas a reação  dos representantes do novo pretor não deveriam surpreender.  São condizentes com o que qualquer um que tenha tido um mínimo de atenção seria capaz de antever. Não existe profissionalismo na nova gestão, nem muito menos será uma gestão pública. É uma gestão para os amigos, aos inimigos, restam as leis que serão corrigidas para deixar mais claro o desprezo governamental.
     Reclama também a imprensa de uma suposta censura ao COAF. A democracia é uma beleza, mas tem certos custos, 57 milhões de brasileiros, inclusive os patrões dos jornalistas e vários deles, se empenharam para que o país chegasse a isso. Deveriam comemorar, não contestar. Aliás, apoiaram um candidato que não admite contestação.
     Entendo a dificuldade dos profissionais da mídia e até posso me solidarizar com eles, mas o país escolheu essa via e o percurso não será breve. Ao optar por andar para trás, teremos que refazer todo o caminho rumo à democracia mitigada que encontrávamos em governos anteriores, que eram democráticos apesar da mídia, não por conta dela. Nos últimos anos, aliás, a mídia valeu-se de esquemas de favorecimentos e informações privilegiadas. Inclusive obstruiu a investigação de seus sócios como Carlinhos Cachoeira. Fazem parte do conluiu.
     Para quem apoiou a eleição dos Coisonaros não cabe falar contra a censura, é regra na democracia burguesa que formações delicadas e nocivas ao centro do poder sejam tratadas com sigilo.  É compreensível o desconforto, mas não a surpresa. 
     Houve reclamações de que o pretoriado iria eleger apenas os veículos amistosos para repassar informação e verbas. Reclamações absolutamente injustificadas. Liberdade de expressão é prerrogativa dos direitos humanos a atual dinastia foi eleita em campanha contra os humanos. Bandido bom é bandido morto, imprensa boa é propaganda.
     Ademais, em que momento o novo pretor jurou ser delicado e gentil?  Toda sua vida pública foi pautada pela agressividade, tergiversação e platitudes.
     O que seria o cúmulo do absurdo é se de uma hora para outra os Coisonaros fingissem ser civilizados. Se isso ocorrer deveriam ser depostos.
     As coisas haverão de piorar muito antes que alguém convença os bárbaros de que isso aqui deveria ser um país civilizado. Essa é a hora deles, abençoados por milhões de pessoas e de grana, inclusive em moeda estrangeira.
     Em tempo: o que sobrou de gente civilizada no país, ainda está imaginando como fazer para transmutar a truculência em democracia. Por enquanto, são as pessoas de bem que estão no comando.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Verdades que libertam e as que matam

Verdades que libertam e as que matam
por Démerson Dias


Copérnico - escultura de Bertel Thorvaldsen
Academia Polonesa de Ciências
     Recentemente tive a desconcertante experiência de dialogar com um amigo que contesta a forma geoide da Terra.
     É desconcertante porque até pessoas inteligentes podem fazer afirmações estranhas se não tem uma noção básica do conjunto de conhecimentos que a humanidade acumulou desde o tempo em que lascávamos sílex para nos defendermos e caçarmos. Não falo do fogo porque sua descoberta pode ter sido acidental, e seu domínio tecnológico não precisa ter envolvido a interação entre experimentação e elaboração do conhecimento.
     Quero realçar “PODE TER SIDO ACIDENTAL”. Essa não é minha área de conhecimento. E quando não temos certeza de algo, convém admitir a incerteza. Polis é ai que começa a distinção entre ciência e crendice. Em âmbito especializado, existem convenções que auxiliam ao avanço das pesquisas, como dizer que a gravidade é igual a 10 m/s², que a velocidade da luz é aproximadamente 300 mil K/h.
     Na física sabe-se que a aceleração da gravidade ao nível do mar em certa latitude é 9,80665 m/s², daí a convenção. E vai por aí.
     Caminhamos para uma hiper especialização do conhecimento que vai criando multidões de imbecis funcionais. Essa estupidez da “escola sem caráter”, por exemplo, começa extirpando o aprendizados das humanidades e uso do pensamento, as implicações inerentes às relações entre mim e o mundo., o eu e o outro, o eu social e individual.  Se vencedores, o passo seguinte será abominar toda a ciência, como já ocorreu em período histórico no ocidente.
     A imensa maioria das pessoas não fazem ideia da evolução do pensamento humano. Prefiro inclusive me resguardar, tenho certeza que é imensamente maior o montante de informações que desconheço o que a totalidade das coisas que sei, ou conheço. Mas deveria existir um conjunto mínimo de informações que todas as pessoas deveriam saber. A começar pela própria história.
     Todos nós sabemos do ZERO, mas a civilização ocidental só tomou conhecimento dele pelo contato com árabes e hindus. O Império Romano não conhecia o zero até que Leonardo Fibonacci teve contato com a numeração árabe (sec. XIII) . Seriam incapazes de fazer pirâmides como as egípcias. A igreja combateu os que afirmavam que a terra girava em torno do sol. Giordano Bruno foi morto por isso, Galileu Galileu teve que renegar publicamente essa ideia para não ser morto.
     Fico curioso quantas pessoas dessas que contestam o formato geoide se disporiam a morrer por essa crença.
     As pessoas que contestam o formato voam em aviões, não deveriam fazê-lo. O comportamento e toda a aerodinâmica dessas aeronaves está baseada numa ciência que se considera a curvatura da terra, as forças atmosféricas, e essencialmente a gravitação. Se a terra não é arredondada, nem é um “corpo celeste” como todos os demais, nada garante que os aviões não se despedacem no solo, ou mesmo no ar, ou que não escapem da atmosfera para o espaço profundo. Isso para mencionar apenas dois dos riscos de morte envolvidos.
     Paradoxalmente nesse período em que quase todo conhecimento está disponível a todos, conseguimos produzir pessoas que conhecem “pouco demais” sobre muita coisa.
     Quem crê em terra plana precisa dizer em que Newton está errado ao constatar a gravitação. E também porque não voamos para fora do planeta quando pulamos, não somos mortos pelas emissões de raios solares, aliás, precisam dizer como conseguimos respirar e porque todo o oxigênio não escapa para fora do planeta. As pessoas não fazem ideia que negar certos pressupostos científicos implica em negar todo seu entorno.
     A ciência é evolução. Não são verdades estanques e apriorísticas.
     Aliás, vivemos um surto de atentado ao silogismo. As pessoas estão negando a própria lógica formal.
     Todo homem é burro. Olavo é um homem. Portanto Olavo é um gênio, todos os demais são burros. Desculpem que não fui capaz de encaixar “cu” em nenhuma das orações. É uma limitação minha.
     Ainda assim, mesmo a ciência tem seus absurdos. Josef Mengele é o mais conhecido, dentre os cientistas do Reich nazista que não tinha qualquer pudor em dispor, sobretudo dos judeus, para “fazer avançar o conhecimento científico” em mutilações e torturas. Até hoje a ciência vive o dilema sobre dispor de suas constatações. Felizmente hoje existe uma vertente combatendo a experimentação em animais “inferiores” temos tecnologia para restringir o sacrifício de seres sensíveis à cadeia alimentar.
     Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. O conhecimento não é um poder imune às consequências do que se afirma. 
     Não preciso saber em que consiste a gravitação para saber que ela existe, mas se pretendo negá-la devo, ao menos explicar o que está em seu lugar.
     A ciência não evolui por negações, mas por confirmações. Exceto no mundo do infinitamente pequeno e do infinitamente grande, o que valem são esses pressupostos gerais do conhecimento.
     Seres vivos superiores possuem mitocôndrias. Sem elas nenhuma célula com núcleo sobrevive. Se eu inventar um mundo sem mitocôndrias terei que refundar a biologia. Menos que isso é fantasia. Não dá para negar certas afirmações científicas sem negar também o que veio antes, ou depois.
     Não sou devoto do cientificismo. A ciência não explica tudo, nem poderia, o dia que o fizer deixa de existir. Mas ela nos oferece revelações fascinantes sobre a realidade que nos cerca, além de perspectivas instigantes sobre o que está além dela.
     O que parece faltar a algumas pessoas é gentileza e generosidade com a espécie humana. Milhões de pessoas antes de nós moldaram o mundo como o conhecemos porque desvendaram suas leis e definições, outras tantas nos ensinaram como fazê-lo e também como aprender sobre a natureza. Não iremos a lugar algum se a cada momento fizermos questão de negar ou reinventar a roda.
     Há pessoas de boa fé nesse debate, mas seus inspiradores, via de regra, são aqueles pretendem manter o conhecimento como algo restrito, esotérico, pois essa é a única forma de sustentar o obscurantismo. Ou, como aponta o historiador Jeffrey Russell, mais ou menos na  época da inauguração da estátua de Copérnico na Polônia (1830), uns poucos autores de resgataram ideia de terra plana, que. Até então e pelo menos desde Pitágoras (século VI a.C.), o que havia era amplo consenso sobre o formato esférico da Terra (o questionamento que durou bastante tempo tinha relação com o heliocentrismo, não com o formato da terra).
     
No contraponto do que eu escrevi estão outras verdades baseadas em pressupostos que são doutrinas ou dogmas. O que revela, mas não liberta, geralmente, se necessário, mata.

domingo, 30 de dezembro de 2018

O caos confortável da barbárie

O caos confortável da barbárie
por Démerson Dias


    Estou preocupado mas não é com o governo Bolsonaro. Os anúncios, avanços e recuos antecedentes sua posse estão aquém das barbaridades que sabemos estarem inseridas no contexto do protofascismo que ele representa.
    Aliás, até o momento prevalece o improviso estabanado e inconsequente, típico de pessoas que não geriram nem um ponto jogo do bicho.
    O capitalismo haverá de vendê-los como uma família vencedora, empreendedora. A mídia já entronizou a gang no poder, até seus laranjas ganham horário nobre nas emissoras do país. Alguém já viu acusado do campo progressista ter uma tribuna equivalente para ter sua versão legitimada?
    Os “jornais de oposição” farão suas críticas nas colunas sociais. Até um ex-porta-voz do Figueiredo voltará a ser lacaio.
    Não podemos nos iludir, todos os de cima estão felizes e se sentem aliviados e representados pelo seu servo mais estúpido estar a postos para fazer todo o serviço sujo e abrir espaço para um salvador da pátria que virá após a terra arrasada. Bolsonaro, se for bem sucedido (o que quer que isso signifique), será destroçado. É evidentemente um elemento descartável da equação que ainda não está concluída.
    O que me espanta mesmo são setores progressistas assustados com o descalabro entorno da família presidencial.
    Como podemos ficar surpresos que os bolsonaros estejam cercados de laranjas por todos os lados? E o mais grave é que a mídia já reduziu o problema aos laranjas, garantindo que não existe a menor intenção ir à raíz do problema, a família presidencial. O tal de Queiroz foi acolhido em rede nacional e pode mentir da forma mais descarada possível, sem que a imprensa tivesse o menor pudor em validar seus álibis tão mal forjados.
    Quando a esquerda compara os montantes das falcatruas bolsonarianas com as acusações a Lula, quando questiona a integridade do ex-füher de Curitiba, estão esquecendo que o candidato campeão de mentiras e falcatruas foi eleito e legitimado por conta delas, não apesar delas. O TSE já fechou questão. A corrupção à direita é conveniente, à esquerda um erro de digitação é prova cabal de má-fé. O TSE se rendeu bem antes que o STF.
O republicanismo do PT foi seu cadafalso. Ceder ao clientelismo das indicações do STF, subvertendo até mesmo a vocação corporativa do campo judicante foi exatamente a porta de entrada para a derrocada petista. Sem a AP 470, patrocinada febrilmente por um dos indicados do lulismo, as gangues parlamentares não teriam conseguido erguer o repúdio dos remediados contra os marginalizados.
    Dilma caiu porque Zé Dirceu caiu. Se não era possível, num primeiro momento atacar Lula de frente, comeram pelas bordas. E o lulismo minou a capacidade de resistência do PT, desarticulando, tornando-o ineficaz confrontar para a fisiocracia. Até que um dia um deslumbrado se apresentou para ser o carcereiro de Lula. São sempre os mais estúpidos agentes da ordem que cometem os delitos mais graves.
    E o que impressiona, de fato, é que as pessoas seguem promovendo as denúncias ao bolsonarismo como se houvesse um país, um judiciário, uma imprensa isentos. Sendo que, de fato, nunca houve. O Brasil ainda não se constituiu enquanto nação. Surge com a espoliação dos povos originários e se mantém por meio de golpes (fico, independência, Dilma), quando não quarteladas explícitas (República, Estado Novo, 1964). Esse modelo atinge agora sua maioridade. A constituição convertida em suporte à ditadura do mercado elegeu, enfim, não seu representante, mas seus mais venais aduladores. Não são ameaça de terra arrasada. São a própria terra arrasada.
    Essa hipótese vem sendo construída e experimentada no parlamento desde os anos Sarney. “Anões” que controlavam o orçamento. Elevação do baixo clero à posições de comando (Temer, Inocêncio Oliveira, Severino Cavalcanti). E assim chegaram a um dos mais ardilosos entre eles, Eduardo Cunha. Bolsonaro será o Eduardo Cunha do executivo (Como Peluzzo e Joaquim Barbosa e Carmen Lucia o foram no judiciário).
    Mas a militância precisa ser despertada para o fato de que estamos conjunturalmente derrotados. Não existe disposição republicana em qualquer das instituições com capacidade de intervenção. E isso foi gerado, exatamente pela inocência de achar que o lado de lá aceita conciliação. Essa é sua resposta. Conciliar implica em colocar os lados em pé de igualdade. Mas o lado de lá prefere morrer afogado do que ver os excluídos sentados à mesa da negociação. Antes um escroto no comando que um milímetro de dignidade aos marginalizados.
    A criminalização da luta política é apenas a face institucional do reacionarismo. As mortes que eram contextualizadas materialmente serão “obras do espírito”. A intolerância ocupa o lugar de mediação dos conflitos, ou seja, na dúvida, vale a resposta mais violenta.
    O “Não verás país nenhum” deve ser conjugado no presente. E quanto mais cedo admitirmos, mais chance temos de nos preparar. Do contrário, entraremos num ciclo de chorar os mortos, conformação, indignação, recomposição que não levará menos de um século. Como o outro lado tem predisposição para hecatombe, não sobrarão, sequer, bases sólidas, para reconstrução. Teremos que derrotar a barbárie para reerguer o país do zero.
    Se o campo progressista, possui alguém com o perfil para liderar essa resposta imediata, essa pessoa ainda não foi apresentada às vanguardas. A luta por justiça é extemporânea.
    O descalabro e a injustiça tomam assento em 1 de janeiro e será saudada por ninguém menos que  Benjamin Netanyahu, um dos patronos do pior Apartheid ainda em curso no mundo e sócio de todas as piores chacinas das últimas década. Assassinos e genocidas, esse é o clube no qual o país acaba de ingressar “democraticamente”.
    Agora somos sócios coadjuvantes, minoritários e descartáveis do “império do mal”. O terrorismo já não precisa mais de grandes planos para afetar o imperialismo, temos, inclusive nossas próprias torres gêmeas. Qualquer embaixada brasileira possui agora um grandioso alvo pintado no teto.
    Essas são as conclusões preliminares. Acho que são otimistas.
    Convém parar de fantasiar sobre democracia. Ela foi integralmente extirpada do estado brasileiro. Em seu lugar temos o pior de todas as mais perversas e venais camarilhas.
    Em tempo: Bem-vindos à uma república policial. Alguma coisa entre o "salve-se quem puder" e "quem viver, verá".

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Colapso cognitivo e impasse civilizatório

Colapso cognitivo e impasse civilizatório
por Démerson Dias


Napalm by Banksy
    Eu deveria ter escrito antes sobre a pós-verdade e seu entorno (logo desde do evento Oxford), inclusive algumas considerações sobre Zygmunt Bauman. Terei que recorrer a uma síntese imprudente, pois inúmeras reflexões estão pendentes dessas considerações.
    Pós-verdade é um “não algo”. É basicamente a mentira com outro nome, só que elevada a um status de valor transcendente. Como se houvesse algo acima da verdade, capaz de estar além dela. No entanto é  apenas uma mentira que não se pretende nominar. Nesse sentido é “não algo” descrito a partir de seu avesso. Ou a afirmação da negação pura e simples. Algo como se uma sub-dialética fosse apresentada como anti-dialética.
    Convém ressalvar que a “verdade” para os que se ocupam sinceramente do conhecimento não é um estado, mas, no máximo, estágio. Está circunstanciada tanto na história, quanto no contexto, dentre outras características. Sempre podem existir verdades contraditórias se os contextos o forem e, dessa forma, quem lida com o conhecimento pode apreciar, não apenas as verdades restritas, ou circunstanciadas, como ter certeza que uma verdade não necessariamente anula a outra. O conhecimento, nessa perspectiva é, portanto, território de tolerância.
    Deveria concluir assim, e teria uma boa inscrição lapidar. Mas a realidade não nos permite esses luxos.
    Sobre a pós-verdade, trata-se, basicamente, da exaltação da representação das coisas em oposição à própria realidade (no nível em que é possível reconhecê-la). Ou seja, não é apenas um equívoco de percepção. Ela existe com o pressuposto de que deve, necessariamente, negar, enquanto representação, aquilo que supostamente afirma.
    Estamos de volta à “Alegoria da Caverna”, agora, na perspectiva daqueles que, como numa síndrome de Estocolmo, reivindicam ferozmente a validade das sombras, contra a voz do inoportuno rebelde, que teima em alertar para a origem e definição das sombras. Adicionalmente, a primazia das sombras se sustenta também pelo medo à liberdade.
    A “realidade virtual” potencializa essa paranoia, proporcionando uma “repaginada” das sombras que, agora, apresentam cintilações que as tornam ainda mais atrativas e “reais “, inclusive algoritmos “inteligentes” e bolhas de confirmação para nossas ignorâncias.
    O que Platão propunha revelar, a apropriação dessas novas terminologias se esforça para mistificar, validar e revigorar: a atualidade e o dogmatismo em torno das sombras. E cabe, inclusive, a banalidade do mal nessa perspectiva. A necessidade de validar as sombras justifica até o extermínio dos que enxergam, ou anunciam, a luz (dialogando com as equivalências simbólicas). Surge como um imperativo moral diante da manutenção da ordem e da realidade como conhecida. Qualquer semelhança com o ciclo político que o Brasil está adentrando não é acidental, ou coincidência.
    A pós-verdade é velha conhecida nossa, cresceu exponencialmente com o surgimento do mercadismo, vulgo marketing.
    Através do mercadismo, o pior produto pode se tornar o “mais” imbatível (superlativos, hipérboles e pleonasmos apelativos são apreciáveis) e eficaz,  a opinião do marqueteiro, imediatamente, se assenhora da consciência social (projetada), ou é guindada a palavra de autoridade. E sempre será possível atribuir autoridade a algum manequim profissional que disponibiliza seu nome ou imagem. Não importa a verdade, importa a verdade que se pretende proclamar. E essa é a principal síntese da chamada pós-verdade.
    Importante advertir que a mídia comercial (dita imprensa), não apenas se apropriou, como ampliou efusivamente o mercadismo e a pós-verdade, editorializando propagandas e, sobretudo, a ideologia vigente, a ponto de tornar-se seu principal partido. A pós-verdade não alcançaria o atual status sem o “index” da mídia. Por isso sempre que essa afirmar querer prevenir ou combater as fakenews (sinônimo da pós-verdade) devemos entender essa investida como uma batalha pelo monopólio da pós-verdade.
    Realidade alguma foi alterada, nem tornou-se líquida, Mas algumas pessoas insistem em relativizar de tal maneira os referenciais da realidade, que mentira pode se tornar verdade e concreto pode se tornar líquido.  Mesmo esse fenômeno não pode se reivindicar original. Impérios foram construídos sobre perspectivas particulares da realidade, geralmente porque dependiam da exclusão dos fatores que os contrariam, ou confrontam como realidade válida.
    Tampouco se deve buscar fantasmas ou demônios por trás desses desvios cognitivos. O recrudescimento do individualismo parece ter propiciado uma espécie de validação narcísica em que, mais importante do que a realidade, é a fé pessoal depositada na mesma. Realmente, não se trata de nenhuma novidade.
    A virtualização da realidade ofereceu possibilidades de representação quase infinitas em comparação com  nosso estado cognitivo. Poderia dizer, epistemológico. Mas não me disponho a levar o debate a uma nova celeuma representativa, qual seja, a da própria apreensão (ou “revelação”) do conhecimento. E as teorias do conhecimento também foram afetadas pelo obscurantismo que reivindica niilismos e inconsistência silogística.
    Cabe uma ressalva em defesa de Einstein e da física quântica, utilizados, de forma deturpada, como álibi para justificar o relativismo da pós-modernidade. Os fenômenos físicos relativísticos não respaldam um relativismo absoluto. A relatividade é sempre delimitada por referenciais finitos (e conhecidos, frise-se). O que é relativo, o é, em aferição a determinados referenciais, não em relação A TODOS eles. Como se vê, nem mesmo a física escapou de ser vítima de leitores vulgares.
    Retomando, nosso sistema cognitivo, para evoluir, depende de forma crucial, não apenas de conseguir explicar a realidade que nos cerca, como também de ser capaz de categorizá-la.  Já a avalanche que nos assalta os sentidos na atual versão da evolução da mercadoria (fetiche), não apenas impede, mas também obstrui essa possibilidade.
    Conhecer o fenômeno é resolvê-lo, e um sistema baseado no obscurantismo, para seguir existindo, depende decisivamente de manter as pessoas em desequilíbrio.  Ao nos colocarmos “de pé” diante da realidade passamos a nos tornar sujeitos, e um dos pressupostos da realidade vigente é que nunca nos libertemos de ser objeto.
    Até pouco tempo, esse fenômeno transitava por aspectos da realidade que nos permitiam manter uma perspectiva de razoabilidade em relação a eles. De certa forma era possível entendê-los como licença criativa, considerá-los numa esfera lúdica, é mesmo tomá-los como parte mesma da esfera do consumo, nas quais seriam cabíveis essas flexibilidades e até uma certa promiscuidade entre forma e conteúdo.
    Descuidamos de nos preparar para a predominância das “pessoas jurídicas” sobre as físicas. Permitimos que o direito à propriedade fosse estendido aos objetos que o capitalismo decidiu chamar de pessoas jurídicas,  e hoje esses fantasmas controlam, tanto a produção das pessoas, quanto elas mesmas.
    Daí inclusive a propriedade intelectual em poder de coisas absolutamente incapazes de possuir qualquer intelecto. A esse respeito convém discernir e contextualizar os critérios e disposições do ambiente acadêmico, em que o conhecimento particular é disponibilizado a coletividade, sendo que essa, via de regra deve anunciar os pressupostos, origem e fonte em que suas conclusões são referenciadas.
    Nas corporações comerciais, muito ao contrário, essa prática é terminantemente proibida, exceto para os donos e sócios dos empreendimentos, sendo que os profissionais elaboram e aperfeiçoam o conhecimento, em geral, assinam acordos de confidencialidade, não apenas para que não se conheçam as autorias, mas sobretudo para que os próprios autores jamais possam anunciá-las ou reivindicá-las. Inclusive das que são desastrosas para o conjunto da humanidade.
    Por esse viés, não apenas os produtos dos indivíduos como também suas próprias existências são tuteladas. As corporações enquanto pessoas jurídicas são exemplos muito bem acabado de sombras de algo que simplesmente não têm existência real embora tudo seja elaborado para que sejam presumidas como se, de fato, existissem.
     O fim da guerra fria desconstrói a existência do pólo opositor necessário à sustentação auto-reprodução capitalista, em que o “mal” depende da existência o “pior” para justificá-lo. As contingências e complexidades em torno do islamismo não oferecem fantasmas e demônios grandes o suficiente para fazer frente à ganância sem precedentes no modo de produção atual. A lua é insuficiente para explicar as sombras que se espraiam por todas as frações da realidade.
   Enquanto a dominação absoluta de todas as formas de realidade ainda está fora de alcance uma forma de transição se faz necessária. Como o controle social ainda depende dos últimos dispositivos nas mãos da instituição em forma de “Estado”, mediações sociais ainda são necessárias e sua instância ainda é a política institucional.
    Dessa forma, a pós-verdade é entronizada na política como recurso de transição para um modelo de negação da coletividade através da supremacia das individualidades sob tutela. Se a verdade pode ser individual, pode ser a verdade do tutor. Hoje esse tutor pode dizer estar a serviço de um deus, amanhã será apenas o melhor slogan ou logomarca.
    No caso do Estado os intelectuais e cientistas instrumentais foram os cientistas políticos, mercadistas da sociologia. Ainda assim, tampouco estes são os demônios, são basicamente tecnocratas aplicados, como Eichmann. Que sempre estarão dispostos a aprimorar os instrumentos de dominação para o bem geral da coletividade anônima.
    Caminhar por entre essas novas tecnologias é como transitar por inúmeros paradoxos, sem saber se romper algum deles pode implicar em dano maior do que o que nos cabe combater. O estado daqueles que confiam nas sombras é o de quem sempre vai recusar a hipótese de que projeções negam a realidade conhecida. Pouca coisa assombra mais a consciência humana do que a negação de uma realidade confortável e aceitável. Inclusive porque a própria mística está embutida nesse contexto. Nas sombras sempre existirão desígnios desconhecidos e inexplicáveis. Mas os senhores e tutores sempre estão à frente dizendo-se portadores, ou detentores da ordem mística.
    No caso, a negação das Sombras instala uma gama tão vasta de risco que, por mais desconfortável que seja, o apego às sombras é menos aterrorizante que as possibilidades que se abrem diante de sua inexistência.
    Setores do conhecimento tem se enganado na forma como lidam com o obscurantismo. As vítimas do obscurantismo não anseiam pelo esclarecimento, o repudiam por razão sólida. Sabem que o que existe é muito mais do que admitem contemplar. Não lhes falta, portanto, conhecimento. Sobra-lhes certeza de que o mundo em sua completude perceptível é muito mais do que suportam, ou se dispõem apreciar.
    É preciso reconhecer que não fomos capazes de garantir uma disseminação  equânime do conhecimento. E embora essa questão esteja na raiz da política de destroçamento do ensino forma “partidarizado”, a dicotomia entre obscurantismo e conhecimento, implica também na vitória da indústria cultural sobre o conhecimento (e a pedagogia em voga).
    Ao invés de criaturas do aprendizado, nos tornamos criaturas do consumo e, por fim, consumíveis. Nunca foi acidental a formulação da escola sem partido, enquanto a escola estimular a dúvida ao conhecimento estabelecido ela será potencialmente rebelde.

    Suspeito que possamos estar diante de mais uma dicotomia evolutiva entre os que almejam dar um passo adiante, e os que se sentem realizados como os contornos das sombras. Talvez essa diáspora do conhecimento seja o mais trágico dos desterros. Mas não tem sido assim “desde” Adão e Eva?

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O clube dos cafajestes e os últimos humanos do país

O clube dos cafajestes e os últimos humanos do país
Démerson Dias

                                                                                                            “Vamos falar de maneira direta: fanatismo e racismo
                                                                                                                   estão entre os mais graves males sociais que assolam 
                                                                                                            o mundo hoje. Mas, ao contrário de uma equipe de super-
                                                                                     vilões fantasiados, eles não podem ser interrompidos com 
                                                                                                   onomatopeias, um "zap" de uma arma de raios. A única 
                                                                                                  maneira de destruí-los é expondo-os, para revelá-los pelos males insidiosos que realmente são.” 
Stan Lee  (28/12/1922 — 12/11/2018) 



Clube dos Cafajestes - Animal House (1978)
     O futuro presidente já ensinou aos seus eleitores que “Ideologia é muito pior que corrupção”. Então, o governo trata de aliciar todos os corruptos de sua facção ideológica para que seja possível protegê-los das ações  policiais em larga escala que serão despejadas pelo país a fim de exterminar os partidários das ideologias contrárias.
     E a lista é longa, o futuro governo quer acabar com LGBTs,  negros, índios, mulheres, professores, florestas, petróleo, estatais. E também, médicos que curem pessoas sem enriquecer a si, às seguradoras, ou laboratórios. Seus seguidores não ligam para formalidades, querem resultados, e já existe um rastro de sangue demarcando o trajeto entre a eleição e a posse.
     Como se vê não é um governo mas um empreendimento de assassinato e demolição.
     De outro lado temos republicanos de esquerda que estão desarmados, desarticulados, indignados, confusos, assustados, e que, a cada movimento anunciado pelo presidente sonegador, corrupto e cretino, aumentam a dose do antidepressivo. É como se as pessoas acreditassem tanto na vitória da resistência contra o protofascismo que, agora, se espantam a cada confirmação do repertório de maldades. Sim, é real, gente!
     Isso parece-me compreensível, mas daí a alguns legitimarem esse processo a ponto achar que precisamos entender o resultado das urnas como legítimo é algo que não condiz com tudo o que dissemos ao longo das eleições.
     Houve manipulação do eleitorado? Ou não vemos a hora de trazer Steve Banon para nosso time? Vamos condenar as práticas, ou aderir a elas?
     Mas quem disse que isso é possível para a esquerda? Convém pensar melhor, a prática  comprova os que servem Bolsonaro não fazem o mesmo com a esquerda. Vide a denúncia constatada pela imprensa de doação indireta a Bolsonaro de R$12 milhões, caixa 2 e abuso de poder econômico, quando até o financiamento privado de campanha é proibido. O TSE deve esperar o tempo necessário para o julgamento ser inofensivo.
     Temer, Aécio, Bolsonaro, Perrellas e quase todos os futuros ministros possuem pendências judiciais, ou existem gravações falando em milhões em propina. Nas milhares de horas de gravação de Lula não existe um registro sequer em sentido parecido, mas é Lula que está preso como não apenas o maior corrupto do país, mas também o maior especialista no mundo todo em esconder patrimônio.
     As evidências de pesos e medidas diferentes é mais do que evidente. Inclusive Bolsonaro que terá processos contra ele suspensos por prerrogativa de foro ao chegar na presidência. Para Dilma e Lula o judiciário correu mais que Fórmula 1 para evitar esse tipo de situação. Aliás o susto que Moro tomou e o esforço feito para que o desembargador Favreto não conseguisse libertar Lula é merecedor de vários recordes Guinness. Inclusive de maior confraria judiciária no mundo.
     Mas não é só isso, capturaram um grampo ilegal de Dilma e Lula combinando a nomeação para cada civil e Gilmar Mendes, como um bailarino, pegou Lula “no pulo”. Até hoje tenho convicção que o despacho de Gilmar é nulo, mas a esquerda é mais republicana que a direita. Como é possível depreender, por exemplo, apenas observando o que ocorre na ocupação da Casa Civil. O atual chefe possui inúmeros processos instaurados, e outros tantos arquivados ou engavetados da forma mais conveniente.
     Do outro lado, um ex-chefe da casa civil de Lula foi preso porque entrou numa sala e cumprimentou os presentes que, supostamente, negociavam propinas. Seu cumprimento foi como uma senha maçônica que garantia que ele tinha domínio sobre o maior fato de corrupção da história do país até então.
     A outra ex-chefe virou presidente e foi deposta por “pedaladas” que assessores do Congresso Nacional afirmam que ela não cometeu. Dilma caiu porque se recusou a manter a prática de comprar votos de parlamentares. Aliás, um dos que votaram a favor do impeachment de forma espalhafatosa foi preso dias depois por corrupção. O próprio condutor do processo na Câmara está preso. Dirceu caiu por “corrupção”, Dilma porque recusou a corrupção.
     Já futuro chefe da casa civil é réu confesso de caixa dois. Perdoado por ninguém menos que Sergio “consigliere” Moro, e seguem de mãos dadas rumo ao ministério do governo que só foi eleito porque Moro mandou Lula para a cadeia. Pelo que se vê, a principal função de Moro no futuro governo será manter as tornozeleiras afastadas dos membros do governo, e sua base no congresso que deve mais de 600 milhões para o Estado. Já que a Polícia Federal obedece o ministério da justiça e o judiciário e Moro já subordinou todo mundo do CNJ abaixo, está tudo sob controle, Moro só não disse que mata no peito porque o último a usar essa expressão fez exatamente o contrário.
     Existem casos secundários da Casa Civil, Antonio Palocci ficará preso enquanto presta serviços como vazamento radioativo contra o PT. Erenice Guerra (março a setembro de 2010) foi derrubada por denúncias que o próprio ministério público reconheceu depois, não haver provas para embasar. Gleisi Hoffman quase foi presa com seu marido e ex-ministro Bernardo Cabral, dois anos depois, igualmente absolvidos por falta de provas. Em que mundo Onyx Lorenzoni pode ser ministro da Casa Civil? Fácil, num mundo em que Sergio Moro possa acobert . . . digo, atestar, de coração e com sua toga imanente que se trata de homem de boa fé.
     Ainda que alguns, ou muitos, se esforcem para serem condescendentes, é fato que nem sequer existe hiato entre o golpe de 2016 e a eleição de 2018. Aquilo lá deu nisso aqui.
     Lula foi preso porque o juiz Sérgio “minority report” Moro previu que em algum tempo futuro ele tomaria posse de um conjunto de três kitnetes que não valem um auxílio moradia de juiz.
     Bastou apenas essa prisão para que a boa fé fosse restaurada ao mundo.  Por isso, pouco importa que se tenha recorrido a um processo espúrio e insólito, e que resulta imediatamente na condução de seu algoz a um posto político no governo eleito, com a agravante do perdão e parceria com uma infinidade de políticos com evidências inquestionáveis de ilicitudes de todo tipo. Moro é o cordeiro de deus que está acima de todos no governo. Pobres de nós mortais.
     É impressionante a quantidade de flagrantes que faltam a Lula em relação aos demais. Considerando que até Joaquim Barbosa possui uma offshore para aquisição de imóvel no exterior, Lula corre o risco de ter sido preso por ser o mais incorruptível agente político da história do país. Milhares de horas de grampos e nenhum milhãozinho mixuruca sequer ventilado. Nem mesmo em forma de pé de milho.
     Enquanto isso, a pasta de esportes será contemplada por ninguém menos que um dos helicocas, digo Perrella. O maior segredo de justiça desde o assassinato de JFK. Digamos que o novo responsável pelos esportes será um upgrade comparado com Marin, Teixeira e Havelange, pobres amadores.
     Bolsonaro ainda não instalou o fascismo. Provavelmente nem vai precisar queimar o Reichstag. Basta eliminar paulatinamente as principais forças de resistência. Instalar os conselhos de ética que Vélez já prometeu nas escolas; disseminar o obscurantismo e o medo intervindo nas universidades.
O Judiciário já está garroteado via Supremo Tribunal Federal que agora acredita que o “movimento de 1964” foi tão legítimo quanto a eleição da rinoceronte Cacareco, ou do macaco Tião. Pouco importa quantas tardes caíam sobre viadutos, ou corpos da ponta da praia.
     É preciso unir forças e manter pressão permanente e incessante ao governo, seus membros e apaniguados. recepções permanentes em aeroportos, marcação cerrada e calendários de denúncias. Efetivamente anunciaram que querem acabar com quem pensa diferente.  Quantos vamos esperar cair para começar a reação. Se não podemos sonhar, não os deixemos dormir, ensinaram as manifestações espanholas.
     A questão principal é saber se o cortejo dos cafajestes vai desfilar sob nosso silêncio, aplauso, ou repúdio. Sendo que o principal braço ideológico da burguesia, a mídia, já deu seu veredito: “De agora em diante é tudo silêncio. E nós nunca mais ouviremos a voz do brasil”.