sábado, 19 de janeiro de 2013

A dezessete minutos do fim do mundo

O mundo ia acabando, mas aí o Luis Fernando Verissimo deixou o hospital e, redenção, tudo saiu dos eixos de novo. Estou convicto de que ele sofreu um atentado de alguma liga em defesa da idiotice do mundo. O mundo não suportaria mais uma ausência contra as recalcitrantes platitudes do cotidiano.
Já não teve graça nenhuma o Millôr. Chico Anísio, então, nada a ver. Nem sequer deixou o Pantaleão pra constatar o trote. A questão é que esse mundo não sobrevive muito tempo sem pessoas que nos apontem o que não faz sentido. Pois o que faz sentido hoje em dia desafia qualquer postulado científico, cármico ou milenar. OK, futebol não faz o menor sentido, mas pelo menos milhões de pessoas compactuam com essa alucinação coletiva. Simão Bacamarte já os redimiu a todos.
Diferente, por exemplo, da honestidade. Muito pouca gente, quase ninguém, ninguém mesmo, acredita em honestidade. A palavra até que é cultuada e tempos atrás era item de currículo para postular algum cargo eletivo. Juro, era mesmo!
Não estou chamando de desonesto quem supôs, pela primeira vez, que uma profecia maia vislumbrava o fim do mundo. Mas quase todos os que o sucederam veiculando a informação padeciam de obliteração da honestidade. Isso grassa mundo adentro.
Imagine, por exemplo: a maioria achou um barato as “liquidações de fim de mundo”. A receita foi a mesma daquela tal de “sexta-feira negra” (todas as aspas possíveis!): aumenta-se o preço em 80% na véspera, então aplica-se um desconto de, digamos, 50%. Todos saem felizes, até a próxima oportunidade. Principalmente quem ludibriou os trou..., digo, quem saciou a libido consumista.
Confesso que sou excêntrico demais. Quando a paciência me permitiu notar alguma liquidação de fim do mundo procurei atentamente por algo que pudesse servir à ocasião. Além de excêntrico, limitado, evidentemente.
Esforçando-me para “entrar no espírito”, só descartei a priori, providencialmente, uma orgia com anões besuntados. E, apesar de alguns itens tentadores, ainda assim não me animava diante da incerteza do que de fato revestia o evento. Uma lanterna com dínamo, achei por R$ 23,00. Vai que o fim do mundo será escuro, a gente se garante. Infelizmente comprei as minhas por R$ 10,00 tempos atrás (os apagões valem como exercício de simulação do apocalipse?). Inconsolável, quase odiei o camelô que me fez perder, agora, essa oportunidade. Pra nossa sorte não me lembrei do fulano.
Pensei seriamente numa bicicleta. Bem que poderia vencer distâncias maiores. Ocorreu-me, então, o que se dizia tempos atrás: “o próximo fim do mundo (decididamente somos escolados no assunto) seria em fogo”. Notei que lanterna e bicicleta seriam de uma inutilidade desconcertante.
Tolices minhas, sei bem. Até que me dei conta da oportunidade perdida, diante do fiasco do apocalipse. Suponha que alguém tenha anunciado iates em liquidação de fim do mundo, desses como o Octopus do Paul Allen, com direito a tripulação e tudo. Eu deveria ter comprado. Claro que não dou um só nó de marinheiro, mas certamente algum dos mais de 50 tripulantes daria conta dessas tarefas.
No dia seguinte bastaria voltar ao vendedor e reclamar que, como parte do prometido não se realizara (o fim do mundo, evidentemente!), estava devolvendo o produto. E nem pediria indenização, solidariamente tomaria os custos do uso como suficientes para quitar o desassossego de ter que tolerar o mundo por um pouco mais de tempo. Restaria, é claro, alguma mágoa, e eu prometeria jamais voltar a consumir aquele produto naquele vendedor - afinal, fora ludibriado.
Ainda assim há espaço para alguma simpatia pelo fim do mundo. Ele é realizado dia a dia por quase todos nós, só que não chega nunca ao ápice, e essa sim é nossa maior maldição (ou não, diria ilustre baiano).
Felizmente, gente como Luis Fernando Verissimo está aí pra dizer o que não faz sentido:
“a sociedade ficou incapaz...

... De tudo.”
Até de fazer um fim do mundo que funcione.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Personagem de mim





Dentro de mim mora um bicho estranho,
Iracundo e meigo.
Não se deve culpá-lo.
A meiguice é para ocupar o tédio.
A fúria é um modo de saber-se vivo quando há tantas tolices a nossa volta.

Dentro de mim mora um perdulário.
Entrega a coisas disformes parte vital de suas riquezas, apenas porque o trabalho escravo e vão é o melhor disfarce para um ocioso contumaz e convicto.
Quando faz frio, pensa em tolices.
Calor de mais, há muito o que não fazer.
Nas horas vagas, se ocupa das coisas mais importantes.
Há mais coisas importantes no mundo que horas vagas na cabeça das pessoas desimportantes.

Dentro de mim mora uma criança.
Ela sonha.
Não há desafio que não supere, porque são pretextos pra buscar alegria.
Se o desafio é enfadonho, deixa-o de lado.
Não há alma grande o suficiente para saciar e preencher a criança.
São profetas, as crianças; sabem como se enfadonha a maturidade.

Dentro de mim mora um tolo.
Não se deixa cooptar pelas grandes honrarias dos ignorantes.
O que lhe lacera a alma são as perfídias sutis e fecundas,
Dessas que constituem o tecido mais íntimo de nossa humanice.
A lágrima dos santos não exime as mazelas de nossa mediocridade.
Por isso o tolo vai mudar o mundo
E morrer tentando é apenas incitação para que os demais façam melhor.

Dentro de mim mora uma flor.
Ela não quer ser nada
E não precisa.
É apenas o desaguadouro das dores, belezas e incertezas do mundo.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Uma cena inesquecível e fascinante de uma das mais lindas histórias, não por acaso, de amor, coragem e destemor (e claro, loucura, quer coisa mais sadia nesse mundo idiota?).

The Impossible Dream - Man of La Mancha 

domingo, 10 de junho de 2012

Cecílias

Foto: Patricia Giseli Batista
Hoje em dia pessoas se cruzam e não se olham
Se olham e não se vêem
Se vêem e não se encontram
Se encontram e não se tocam
Se tocam e não se sentem
Se sentem e não se reconhecem
Se reconhecem, mas se estranham
Mas quando se identificam
Descobrem um mundo
Em que a necessidade dessas medidas protetoras
não mais são necessárias.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Rosa, o portão e a rosa


Rosa, generosa, através dela fui adornado por esta bela imagem. Dentre suas diversas belezas, ela não guarda para si o que pode enaltecer os demais. Sim, o belo não é apenas saciedade dos nossos sentidos, desejos, ou necessidade de nos preencher de algo que destoe das inúmeras vicissitudes e amarguras.
O belo nos adorna. De admirá-lo, assimilamos um fragmento de teor incerto que, como semente, passa a habitar e florescer em nossa humanidade.
Assim era a rosa, encantada com o mundo além do jardim.
A cada nova paisagem, trazida por uma mudança na incidência do sol sobre as áreas vizinhas, tudo era razão para fazer-se cada vez mais bela.
Queria sorver aquela beleza e não entendia como o insensível portão não permitia a concretização de algo tão essencial a sua existência.
Pobre portão, o jardim todo o supunha vil, insensível.
Que maldade, aprisionar a rosa!
Mas era ele também prisioneiro... O que mais temia era que um dia algo fizesse o que ele próprio, por si, não era capaz. Caso lhe abrissem e permitissem à rosa a liberdade, como haveria de viver, sem o roçar de suas pétalas?
(dd/l)

terça-feira, 10 de abril de 2012

Bilhete do falso amor inacabado

Ao cabo éramos mesmo arqueólogos.
De platitudes, de razões, desrazões, das sadias insanidades.
Mas o afeto era mais explícito que sabido, ou assumido.
Até que um inusitado pedaço de afeto desgrenhado num verso de uma folha de talonário, instaurou uma afetividade remota.
De um achado quase vulgar de tão singelo, perdido entre taras, desvios e devoções venais, imaginamos o contexto em que existiu o curioso bilhete.
Trazia em si as virtudes de um amor ferido, inacabado, mas que depende de reafirmar-se, concluso, para que os afetos de acomodem, ou desarranjem de vez.

“Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que você não significa nada.
Não poderia dizer mais que alimento um grande amor.
Sinto, cada vez mais, que já te esqueci!
E jamais usarei a frase Eu te amo!
Sinto, mais tenho que dizer a verdade.
É tarde demais!!!” (sic)

A simetria das contradições é desconcertante. Uma leve inclinação afetiva do mesmo bilhete delata que o amor é insepulto. Não há ruptura, há lamento, provavelmente pelo amor unilateral.

Não te amo mais, estarei mentindo, dizendo.
Que ainda te quero, como sempre quis.
Tenho certeza de que nada foi em vão.
Sinto dentro de mim.
Que você nada significa, não poderia dizer, mais
Que alimento um grande amor, sinto.
Cada vez mais, que já lhe esqueci, tanto jamais usarei essa frase.
Jamais usarei eu te amo, mas tenho que dizer a verdade.
Eu te amo, é tarde demais!!!!

“Futuros amantes, quiçá, se amarão com o amor que eu um dia deixei pra você”

Ficamos sem saber porque estava perdido num desvão da posteridade. Se o desprezo foi tamanho, ou se foi lançado num gesto de desmedida entrega reconciliatória.


O texto do referido bilhete, foi encontrado pelos funcionários do Arquivo Geral do TRE-SP. Cujo local dava lugar a um bingo e um sexshop.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Iluminuras

Conheço José De Arimatéia Silva, o Ari, de longa data. Nem posso dizer que foi grande a convivência, os diálogos. Mas a afinidade não tem dessas frescuras, é meio à flor da pele, no akasha, tao, ou qualquer outra dessas inominâncias. Independente dos ângulos geométricos entre nós, esse laço não se desfez e agora vamos realizando de forma um pouco mais cuidadosa, como devemos zelar pelos afetos. Descubro, depois, que algo mais nos conecta, a flor do lácio. Não me comparo apenas remeto porque a forma que Ari persegue não descuida da estética propriamente poética. Minhas réguas estão desajustadas nessa aspiração.
Tenho também a satisfação de ter sido pelo menos uma das janela de acesso de Ari a outra transbordância das minhas relações sensíveis: Claudia Cristina Tonelli, essa de uma história que ainda vamos desvelando no decorrer dos sentimentos. Natural, Ari encontra Claudia e também transborda. Queria poder ter inveja, tanto da troca entre eles, quando desse blog que, confessamente, é cria afetiva do encontro. Mas não tem jeito, somos de uma geração fadada à consagração do afeto (e do prazer também, mas dizer isso no facebook também é pecado, xxxxxx ).
Transbordâncias plúrimas. Não sobra espaço vazio. Mas juro que se tivesse um pouquinho de inveja seria mais assíduo com minha própria pena. Mas o que desampara é o apego e o egoísmo. O amor não nos deixa desamparados porque nos preenche os vazios. Eis ai, as Iluminuras do Ari complementando suas plenitudes. E ajudando a preencher as lacunas do mundo. EVOÉ!
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