sábado, 27 de agosto de 2022

Como uma exaltação dos recalcados

Démerson Dias

Imagem: Dinho Lascoski / Instagram

       Apesar da adjetivação no título, minha intenção é enfatizar que estamos lidando com um evento político relacionado a um tipo de exceção cognitiva. E lançar mão da adjetivação implica em aceitar que minha capacidade de análise está aquém do fenômeno em si, ou seja, nesse caso, reflito porque não entendo.

E que fenômeno é esse que leva milhões de pessoas a relativizar uma chacina, por conivência, de 680 mil pessoas?

Minha primeira constatação foge ao cerne da questão, para traçar uma perspectiva mais ampla: as esquerdas não possuem ferramentas para incidir efetivamente na realidade brasileira.

A fragmentação compulsiva e o sectarismo programático nos colocam “fora de fase” em relação à parcela ampla e expressiva da população, o chamado “povo”, mas que é também chamado de classe que vive do trabalho.

Da mesma, forma não entendemos nossos adversários, a burguesia. Ainda que tenhamos clareza de que ela não é monolítica, parcela das esquerdas precisam que, grosso modo, seja. Só assim, Lula (ou as outras direções validadas pela classe mais do que pretensos revolucionários) é um convicto rendido ao capitalismo, não alguém que tem sabido explorar suas contradições para alavancar uma conciliação de classes consistente.

Numa perspectiva que se pretenda marxista, o problema em torno da conciliação de classes não consiste em ser uma heresia, essa conciliação foi cunhada fundamentalmente pelo varguismo e Lula vem aperfeiçoando a solução.

Conciliação que é evidentemente frágil, por não ser conciliação entre partes soberanas. A conciliação é um engodo vanguardista, já que, nem mesmo a burguesia, se compromete efetivamente. Vargas pagou com a vida por ela. Então, esclarecendo, conciliação com a burguesia é sempre a socialização dos prejuízos e a privatização dos lucros.

Não se trata de uma frente COM o povo, mas um espetáculo PARA o povo, em que o valor do ingresso vai todo para o dono do circo. A conciliação elimina a classe trabalhadora da mesa de negociação, ficando em seu lugar, seus representantes tipicamente definidos conforme a expressão burguesa de democracia.

Feita a (longa) ressalva, temos já uma primeira pista para interpretar o sucesso da rearticulação fascista no país. Seria possível mais digressão, já que existem outras similaridades com Vargas, quando a burguesia perdeu unidade, Vargas surge como conciliador e não por coincidência surge também o integralismo, em ambos os momentos o país vive situação simultânea com o capitalismo mundial.

Como o povo fica sempre fora dos “pactos sociais” do capitalismo, qualquer um que tenha uma abordagem crítica condizente e mais simples sobre o pacto burguês pode assumir em seu nome, ou contra ele, algum protagonismo. Dito de outra forma, o bolsonarismo cresceu à sombra da conciliação de classes, assim como o integralismo, ainda que não exclusivamente em função dela.

Outro aspecto que me parece pertinente é que setores excluídos da concertação, tanto das burguesias quanto das classes trabalhadoras, passam a orbitar o modelo explicativo que “revela” sua exclusão do centro decisório.

Bolsonaro consegue ocupar o espaço de representação popular, ou burguesa para aqueles setores que aspiravam protagonismo, ainda que sem reflexão consciente.

O comprometimento dos pastores da prosperidade é decorrência previsível, já que catalisam subjetividades das classes trabalhadoras ao mesmo tempo que, ou em razão daquela, passam a ocupar espaços no campo da burguesia periférica e parasitária. Tais pastores remetem às capitanias coloniais e a seus iguais na burguesia suserana. Em alguma medida essa burguesia reproduz a vassalagem feudal periférica, ou colonial (um emblema tão ridículo quanto eloquente é o empresário que coloca uma Estátua da Liberdade como símbolo de sua empresa, cujo nome é saudosista da ditadura de Fulgêncio Batista).

Outro aspecto pertinente diz respeito aos viúvos da mais recente ditadura burguesa explícita no Brasil, a de 1964. Alguns setores, justificados no autoritarismo foram compelidos a se recolherem do palco central da política, mas tiveram seus lugar-tenentes pendurados não apenas pelo artigo 142 da constituição de 1988, senão, principalmente pela militarização das forças policiais, até mesmo em âmbito civil.

Alguns dos mais renomados torturadores eram civis, como o próprio DOPS, e, sabemos hoje, que a plateia das torturas também contava com empresários tão pervertidos quanto os torturadores. Provavelmente não se reivindica a tortura1 como estratégia de guerra, mas como exaltação da própria perversão, assim como policiais que se comprazem matando um deficiente numa câmara de gás improvisada, seguindo instruções de cursos preparatórios para facínoras.

Por isso também insisto que não se tratava exatamente de uma ditadura civil militar, mas de uma expressão cabal da própria burguesia operativa e seus serviçais, atuando em nome do conjunto daquela classe.

Uma chave explicativa desse contexto, parece-me repousar num aspecto tido como periférico: a pauta da educação moral e cívica. Sentido em que, provavelmente, a burguesia patrocina um ajuste no mito fundador brasileiro.

A criminalização (vulgarmente, marginalização) dos povos escravizados e dos originários não era suficiente para manter as influências desses povos fora do protagonismo político. Era preciso criar uma moral que desse conta das subjetividades. E o recurso, em alguma medida, foi semelhante ao utilizado pela Inglaterra que impôs o vício de ópio na China para, em seguida, chamá-los de doentes, e a doença era exatamente o ópio impingido a eles.

No Brasil a marginalização foi naturalizada, como fenômeno característico das populações oprimidas, índios não prestavam para ser escravos porque eram preguiçosos, não rebeldes, e negros não foram libertados porque a história deu razão à sua causa, mas como benesse dos setores “nobres”. Mal-agradecidos, tornaram-se bandidos.

Ocorre que a democracia, ou qualquer ensaio dela, instala, ou restaura protagonismos e demole mitos morais. Nos últimos 30 anos esses setores vinham sendo progressivamente incluídos, não apenas na cena política, talvez principalmente, na cena econômica. Ressalto que os povos originários brasileiros conquistaram, perante o mundo, o protagonismo no discurso ambiental brasileiro. Essa ênfase é necessária porque, mesmo setores à esquerda os considera mais primatas do que rebeldes.

Eis que aqueles setores que tinham sido relegados aos bastidores e armários, suportavam cada vez menos o silêncio obsequioso. A guerra civil que despeja sangue negro e originário (e dos próprios policiais, “pretos, pobres, ou brancos pobres como pretos”) não era mais suficiente para aplacar o vício necrófilo desses setores que, ao contrário do que quer crer a religião do trabalho, ocupam posição em todas as castas do sistema de vassalagem, inclusive o popular, já que, por excelência, os capatazes modernos são as forças policiais.

E não é acidental que o estopim, ou gota d’água, tenha sido o assistencialismo turbinado, aplicado pelo lulismo. Pobres frequentando aeroportos, empregadas indo à disney e tendo acesso a celulares, plebe envergando grifes em que só não constavam as etiquetas porque todas são e produzidas pelos mesmos escravizados “modernos” em qualquer parte do mundo.

O produto da conciliação remediada, segura e progressiva esbarra na moral recalcada que se sente cada vez mais humilhada. Como os instrumentos ideológicos da burguesia nunca foram desarmados, como o protagonismo político nunca alcança, de fato, a base da sociedade, e como a luta de classes é encoberta e mistificada, surge o bolsonarismo como produto da moral autoritária que não é acolhida na mesa do banquete conciliador. E percebe que, cada vez mais, se aproxima da fração social que sobrevive das migalhas que escapam à mesa do banquete.

Em boa medida isso reitera, inclusive, o postulado marxiano que afirma que o capital é um instrumento de mediação social, mas o que é determinante na caracterização da burguesia é o efetivo controle das forças de produção. A parcela dos capitalistas que não estão no comando, rebela-se e conta, para isso, com a fração autoritária das classes trabalhadoras que, sem educação libertária, sonha em ser opressora.

A diferença entre a patologia biologicamente orgânica, ou psíquica e a politicamente orgânica e autoritária é que a segunda produz 680 mil mortes e ainda se ufana disso.

Não existe eleição que pacifique isso.

1Foi distribuída versão em que, por lapso de revisão, aparecia a palavra cultura no lugar de tortura. Os dedos as vezes tem vida própria, ou conexão direta com o subconsciente kkkkkk O texto, de correção / esclarecimento, gira em torno do seguinte: Camaradas, esse texto é a síntese do que venho tentando refletir como caracterização do bolsonarismo desde 2013. Para quem vem aturando meus desmazelos formulativos as reiterações são evidentes. 🤣. Não vou conseguir corrigir em todos os lugares que postei, no parágrafo 15 consta que "não se reivindica a cultura como estratégia de guerra" meus dedos me traíram, o certo é "não se reivindica a TORTURA", embora tenha um sentido válido, já que a tortura surge como cultura de defesa da subjetividade, a proposta era mencionar que a tortura não é apenas solução militar, mas resposta perversa constituída.


quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Não é a vida que me cansa


A vida em si não me cansa

O cansaço é o embotamento pelas futilidades

Estamos soterrados por sentidos fúteis

Como se diz, uma carência brutal de sinceridades

E não é que as pessoas queiram ser falsas

Sentem necessidade de serem outros

Esses outros inalcançáveis nos perdem das pessoas mesmas


Então, me cansa a ausência de tantas pessoas

Que buscando ser outra coisa

Desaparecem delas mesmas

Deixando lacunas inescapáveis

E que, quando as buscamos, 

Só encontramos um outro em seu lugar

Vazio delas mesmas

E a quem não mais reconhecemos


E ao deixar de encontrar os outros

Os tantos a quem dirigimos afetos

O que enviamos retorna em vazios

Onde silêncios expressam as ausências

E o que retorna não é apenas desconexo

É um avesso em que não sentimos 

mais que nossas próprias expectativas ecoadas

E encolhidas pelo perdimento do que já não está


Cansa-me, então, essa jornada de desencontros

Que resultam de embalos, anelos que lançamos embalde

Em que nos perdemos não porque outros não estão

Mas porque estão onde não há mais encontros

Desperdício, perdição e descaminhos

E como seguir quando a chegada não está mais onde se espera,

E nossa busca nos leva onde não queremos estar?

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

NESSA ELEIÇÃO, VOTEMOS EM FAVOR DA VIDA!

Démerson Dias 


Galvão Bertazzi

Começou formalmente a campanha eleitoral, derrotar Bolsonaro nas urnas é uma necessidade. Mais que isso, é um imperativo de humanidade.

A tarefa mais difícil começa depois disso: derrotar o bolsonarismo, que por enquanto, é a expressão do fascismo no Brasil.

O voto contra Bolsonaro é um voto a favor da tolerância religiosa. Seus seguidores patrocinam a perseguição religiosa, foram aqueles que obrigaram uma mãe de santo a destruir seu terreiro. Eu sou ateu agnóstico, mas reivindico radicalmente a tolerância religiosa e não tenho qualquer constrangimento em fazer essa afirmação. Como disse o Oscar Wilde, eu escolho meus amigos e amigas pela pupila não pela cor da pele, religião etc.

Mas ser bolsonarista já implica em uma tonelada de razões para não ser amigo(a) desejável. Na verdade, preliminarmente, são 680 mil motivos. Rejeitei todos os convites de conexão no Facebook que tivessem qualquer traço de simpatia por esse desvio humano. 

E os que defenderam Bolsonaro, seu governo e seu conluio fascista e eram amigos antes, hoje, certamente, são menos amigos. Os que não foram liminarmente bloqueados, claro! Tolero tudo desses, desde que não me exponham ao seu vazio de alma, ou pulsão homicida.

O voto contra Bolsonaro é um voto pelo Brasil e em favor dos povos originários. Reivindico essa nação que ainda não existe plenamente, mas não a invasão homicida patrocinada pelos que chegaram ao continente para catequizar povos livres e convertê-los em escravizados, sob pena de morte. A “civilização” já estava tão entorpecida pelos próprios delírios que não soube reconhecer quem ainda vivia em paz com a natureza. E não se pense que isso se confunde com pacifismo.

O voto contra Bolsonaro é um voto em favor das mulheres. Dentre as características mais perversas desse descalabro, o feminicídio, ou os atentados machistas ocorrem à luz do dia, nas repartições públicas, sempre por homens abalados no que consideram sua masculinidade que, incapazes de serem gente, abominam que tantas mulheres o sejam e comprovem uma superioridade humana que neles não existe.

 O voto contra Bolsonaro é um voto em favor dos povos afrodescendentes, nome que me incomoda porque, afinal, todos mundo o é. Mas assim como admito o termo racismo, embora raça humana seja uma só, povos africanos foram sequestrados, torturados, escravizados e consequentemente assassinados. O bolsonarismo é herdeiro dos capitães do mato. Pobres que perseguem e matam pobres para satisfação dos ricos. Derrotemos o bolsonarismo porque derrotar o racismo será ainda mais difícil.

O voto contra Bolsonaro é um voto de esperança para as comunidades LGBTQIAP+.  Pessoas que travam duas guerras, uma sobre determinações, condicionamentos, predisposições e indisposições biológicas (que só o são porque, a rigor, desconhecemos nossos corpos) e ainda precisam provar a outros que têm direito a existirem em ambiente acolhedor que lhes permita se reconhecerem como potência, não como restrição. O bolsonarismo abomina esse segmento porque não admite que, por amor, as pessoas tenham coragem para se indispor contra as determinações hipoteticamente mais decisivas. O bolsonarismo só e capaz de lutar contra tudo e todos se tiver algum lucro em vista.

Mas também porque é preciso muita coragem para assumir o que se é contra todas as disposições, as morais, as lógicas. E bolsonaristas são, fundamentalmente, covardes.

Eu poderia falar da cultura, da ciência, até da felicidade, pois o bolsonarismo é, em essência, infeliz. Provavelmente vou me arrepender em seguida se não mencionar Paulo Freire e que o voto contra Bolsonaro é um voto em favor da inclusão e autonomia de todos os sujeitos de si mesmos. Certamente eu não conseguiria lembrar de todos os segmentos vitimados pelo escárnio malévolo que banaliza e exalta nossos piores vícios e abominações.

O bolsonarismo, para se afirmar, depende de promover a infelicidade dos demais, aqueles que estão seguros de si. Porque odeiam aqueles que não precisam culpar ninguém para afirma a própria felicidade. 

Odeiam aqueles que reconhecem a opressão e seus agentes, mas não resumem sua vida à posição de vítima. Os que lutam junto com Bolsonaro oprimem porque não possuem alma suficiente para viverem das próprias virtudes, precisam eliminar a alheia. Só assim, eliminadas todas as virtudes, conseguirão se achar melhores do que são. Pessoas vis, vazias, inúteis e arrivistas.

Não existe solidariedade humana numa alma bolsonarista. Existe perdição, insensatez, desperdício e terror. Quer dizer, por exemplo, que cerca de 30% das brasileiras e brasileiros estão cegos para a vida, que não reconhecem a maldição que transcorre à sua volta e o quanto seu apoio, decisivo, ou silente, promove carnificinas e também famintos roendo ossos.

Enfim, o voto contra Bolsonaro é um voto a favor da vida.

PS: Sob inúmeras condicionantes, meu voto deverá ser em Lula (voto 13 e confirma) no primeiro turno, ainda que eu me identifique mais com o voto em Sofia Manzano do PCB (voto 21 e confirma) e Leonardo Péricles da Unidade Popular (voto 80  e confirma). Os socialistas também podem votar em Vera Lúcia do PSTU (voto 16  e confirma). Para os parlamentos, meu voto deverá acompanhar as candidaturas do PSOL (deputados federais e estaduais – voto 51  e confirma). Se for possível contextualizo meu voto crítico em Lula oportunamente.






sábado, 23 de julho de 2022

Brasil mergulha na tragédia anunciada


Démerson Dias


Quando em 2018 mulheres gritaram #elenão, uns e outros chegaram a mencionar que ou seria exagero, ou iria fortalecer o bolsonarismo.

O Brasil é um país machista, e reconhecer que existem estruturas que atendem a essa perspectiva, assim como ao racismo, pressupõe entender que se nada é feito, a sociedade por padrão é machista e racista.
Isso implica necessariamente na necessidade de políticas anti machistas, anti racistas, anti homofobia, anti etnocídio dos povos originários, anti desmatamento anti aporofobia, a lista é, desgraçadamente enorme, porque o “default” no Brasil é excludente.

Desculpem-me as pessoas que supõem ter boa vontade, mas quem assiste o genocídio e apenas o denuncia esta fazendo muito pouco além daqueles que são  puramente coniventes. A distância entre uns e outros é meramente subjetiva. Procurem pela diferença, pelo olhar das vítimas.

Como alertou Hannah Arendt, o “mal” prospera porque sua prática e seus efeitos foram banalizados.

Não existe genialidade em Bolsonaro, nem no bolsonarismo. Mas existem os sectários voluntaristas, oportunistas e psicopatas, capazes de manejar instituições e instrumentos para alavancar, a partir dele, uma política ostensivamente regressiva.

E o que nos faltou, ao menos à maioria de nós, foi perceber que essa seita que se montou em torno dele não se detém até que tudo o que nós reconhecemos como válido na civilização vigente seja desconstruído.

Criminosos contumazes, patológicos, sempre estão buscando distorcer as restrições que a sociedade coloca em seu caminho. Se ninguém os detiver, não serão eles. Aliás, a história tem exemplo, daqueles que pediram para serem detidos. Está acima, ou fora da capacidade e da intencionalidade deles deixar de assassinar, torturar, estuprar.

Ou subestimamos a capacidade deles de adorar a destruição, ou acreditamos que éramos tão superiores que já tínhamos criado uma matriz civilizatória irrevogável. Sendo o mais provável que tenha ocorrido uma soma de estupidez e presunção de nossa parte.

Multidões tolas ou desavisadas estão acreditando que o processo eleitoral por si será suficiente para restaurar a razoabilidade. Existem inclusive os que acreditam que a dignidade e soberania retornarão, como se uma ordem natural imanente fosse restaurada porque “dessa vez” o país estaria fazendo “a escolha certa”.

Não me agrada ser um daqueles que corta o barato, quebra a onda, azeda o leite, num período em que estamos tão carentes de amparo e esperança. Ocorre país não vai sair ileso de 676 mil mortes. Não é algo que se possa “esquecer” ou “deixar passar”.

 Assim como todos os assassinatos, cometidos de forma premeditada pelos que se beneficiam do caos, produziram vincos afetivos profundos em uma multidão de famílias e comunidades. Note-se que estou “pegando leve”, deixando de fora a corrupção meramente venal e seus efeitos.

Simbolicamente, o país está precisando de UTIs em várias de suas esferas, a começar pela afetiva. Sendo que o ódio é algo que, se não é detido, segue se reproduzindo. Fica cada dia mais evidente que o ódio é uma resposta válida para quase um terço do país.

E o ódio utilizado como discurso oficial não é algo incompatível com a atividade pública. ou política.

Isso diz muito sobre a política coercitiva utilizada contra amplas parcelas da sociedade.

Não existe hipótese do país não ter entrado em convulsão diante da indiferença institucional perante o extermínio ocorrido durante a pandemia.

Isso não é algo que se naturaliza. A maioria sociedade já estava acostumada à morte abundante, ao sofrimento inclemente e a assistir parentes e amigos caírem como folhas caem no outono.

Não nos enganemos, o bolsonarismo diz mais sobre a estúpida convicção civilizada brasileira do que sobre os próprios bolsonaristas, inclusive a familícia no poder. Que existam perversões é algo que até estatisticamente é compreensível. 

O país ignorou todas  as advertências, elegeu e assistiu por quatro infinitos anos todas as intermináveis provas de desatino, manipulação, venalidade, degeneração. E dentre alguns milhões de atores sociais e políticos aptos a se erguer para deter essa calamidade, nenhum se dispôs a fazer mais do que denunciar e proclamar, ninguém se dispôs a estancar o escoamento de almas, valores e consciências.

As palavras de Martin Luther King, sobre o silêncio dos bons, foram desacreditadas e banalizadas na avalanche moral que se abate sobre o Brasil. Em quatro anos não houve uma alma sequer, em condição de protagonismo político que fosse capaz de compreender corretamente os sentidos e o significado do fenômeno bolsonarista, e agir de forma politicamente condizente. Não é só o bolsonarismo, nossa política está podre.

Nada indica que já compreendemos. Não nos calamos, mas muito pouco, ou nada fizemos para estancar o açoite, prender facínoras,  encarcerar os depravados, deter o morticínio. A resposta mais provável é que os incluídos deste país não valorizam crianças, mulheres, povos, natureza, ou a vida o suficiente para transformar o “não passarão” em ação consequente.

A diferença é que os bolsonaristas acham que estão certos, portanto não faz sentido cobrar consciência crítica. Nós, ao contrário, inventamos instituições, regras, códigos que nos sugerem superioridade espiritual.

Não nos sentimos responsáveis porque ainda não inventamos um nome cuja carapuça nos sirva. Que nome tem o que assiste a injustiça, mas não se sente responsável por detê-la?

domingo, 26 de junho de 2022

O Brasil não precisa destruir a Amazônia

Démerson Dias


Angeli impagável - fonte:internet
Quero dizer que o Brasil não precisa mesmo, destruir a Amazônia para seguir sendo o que é. Ao contrário. Poderá ser melhor se perceber a injunção histórica em que estamos nesse exato momento da vida da nossa espécie.


Às vezes temos ideias que não acreditamos como alcançamos. Anos atrás eu imaginei que se estivesse ao meu alcance criaria uma embaixada no brasil para ser o território livre no mundo para toda a informação e conhecimento. Um lugar com prerrogativa diplomática para uma espécie de “hackers sem fronteiras”. 

Assange e Snowden seriam os primeiros hóspedes com prerrogativas consulares e protegidos pela constituição brasileira. Não essa aí que sofre homicídio premeditado, progressivo e terminal, evidente.

Teríamos uma revista revista multidisciplinar e uma biblioteca. Poderíamos dar o nome de Elbakyan, para a revista e de Aaron Schwartz à biblioteca. Não sou radicalmente contrário ao lucro com o conhecimento, mas acho pra lá de extravagante acreditarmos que “pessoas jurídicas” efetivamente podem ter propriedade “intelectual” sobre o que quer que seja. E mais grave ainda é que alguém considere que privatizar o conhecimento que é herança evolutiva da espécie é algo decente. Afinal, quem “ensinou o alfabeto ao professor”?

Achei pertinente comentar isso para que ninguém se surpreenda demais com o que virá a seguir. Eu não imponho comedimento aos meus delírios.

O Brasil deveria definir uma área próxima da extensão que a Amazônia brasileira tinha intocada até meados de 2016 quando a esculhambação criminal institucional foi consagrada como usurpadora do país (tomou o poder, bem entendido). 

Melhor ainda, até antes da aprovação da revisão venal do código florestal.

Quer dizer, se dependesse efetivamente apenas da minha vontade e para não parecer muito pedante e pretensioso, eu proporia revisar tudo o que ocorreu tendo como ponto de partida crítico o artigo “A revisão do Código Florestal e o desenvolvimento do país” de Ima Célia Guimarães Vieira e Bertha Koiffmann Becker de 2010. Não se preocupem, não irei reivindicar que um marco temporal sobre o assunto tivesse Niède Guidon como árbitra sobre a ancestralidade territorial. Gostaria de fazê-lo, mas ela já lutou e contribuiu mais do que o país da atualidade merece.

Se houvesse honestidade, caráter e vocação pública por parte dos agentes políticos que exercem poder no país (em toda a república, união, estados e municípios), a Amazônia Brasileira já teria atendido mandato elementar dos povos originários em relação à preservação daquele território. E não me refiro apenas ao interesse mais ordinário que é a preservação dos rios voadores, que garantem que o Brasil seja o que é, inclusive em termos de produção agrícola.

Refiro-me à Amazônia Brasileira, mas poderíamos lançar um “consórcio” sulamericano e adequar algumas necessidades nos países vizinhos e as nossas mesmas, para suprir eventuais necessidades. Ninguém seria idiota de sugerir que todos morrêssemos de fome, ou à míngua para preservar florestas e biomas. Só as pessoas com absoluta indigência intelectual e má fé são capazes de contrapor preservação e desenvolvimento às portas do século 21.

Evidente que não proporia algo como a bestial negociata em torno de emissão de carbono. Se conseguíssemos esse feito no continente americano, assumiriamos também, junto com eventuais parceiros, o protagonismo sobre o debate "ambiental" no planeta.

Tenho ressalvas com as acepções que damos ao ambientalismo. Já aprendemos o suficiente com nossos povos originários. Não somos distintos da natureza, mas um subproduto dela. É claro que, se tivesse um discurso à disposição, o planeta já estaria amargamente arrependido por não ter abortado um subtipo específico de mutação genética que deu azo à humanidade. Ao menos essa seria a minha percepção a respeito, mas é evidente que o planeta é melhor do que a mais pretensiosa das espécies que nele habita.

A questão central é que nosso passado já nos condena o suficiente e nunca será cedo demais para criarmos vergonha na cara e provarmos que somos, de fato, uma espécie inteligente.

A Agricultura, a pecuária e o garimpo que são ricos e “pops”, estão destruindo não apenas o território, mas o futuro do país. Esse argumento só não é mais grave do que a denúncia das chacinas intermináveis, porque assassinato é instituto respaldado pela desonestidade judicial do país.

A rigor, não considero que essa região deveria ser absolutamente intocada. O que sugiro concretamente é uma moratória de cinquenta anos na destruição para que tentemos terminar de inventar a brasilidade (tudo bem, concedo que esse quesito pode exigir cem anos) e repensar o modelo de desenvolvimento e preservação da humanidade. Desenvolvimento E PRESERVAÇÃO.

A Europa, o hipotético centro orbital da civilização ocidental já balizou um marco importante ao exigir que não existam mais carros movidos por combustíveis fósseis em 2035 (ou algo assim). Não existe mais dúvida plausível quanto à escassez de petróleo e água.

Se você ler ou ouvir algo diferente disso, note bem porque estão lhe tratando como otário. O aquecimento artificial do planeta, idem.

Mas se temos noção razoável sobre os limites da nossa imbecilidade predatória, o que nos impede de sermos animais racionais? Se alguém sugeriu que tem gente demais pensando com o bolso, está correto.

E não, bolso não é órgão do corpo humano, é algo situado entre as pulsões e os fetiches.

Um esboço para esse projeto compreenderia uma revisão histórica sobre a nossa humanidade. A começar por reivindicarmos que o ocidente não é, nem nunca foi, referência universal no planeta. E nem é o caso de condenar a tibieza moral e presunção civilizatória dos expansionistas. Se a humanidade evoluiu, é aconselhável que aceite as constatações que nossas descobertas nos trouxeram. O planeta é finito e se existe um mandato planetário para a humanidade é que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” como preconizou corretamente o Tio Ben, ou a ele foi atribuída a frase por Stan Lee, não importa, deveria ser uma verdade.

Se somos bons a ponto de nos considerarmos a espécie mais evoluída do planeta, deveríamos concluir que temos responsabilidade ímpar sobre ele em relação a todas as espécies, ou mesmo forças cósmicas, já que consideramos também que dominamos ciclos “poderosos” como o atômico.

O que é surpreendente é que toda essa supremacia pretensiosa deságua em atroz imbecilidade quando tratamos de exterminarmos uns aos outros e destruir inapelavelmente qualquer chance de durarmos mais do que cem anos enquanto espécie. Aliás, somos a única espécie com programas de extermínio premeditado e premeditadamente encoberto. Contra nós e quase tudo o que conhecemos, ou que a nossa vista alcança. Ainda bem que não alcançamos o centro da galáxia.

Em campanhas eleitorais, os que se apresentam como democráticos (grosso modo, demo = povo + cratos = poder) nunca revelam o que sabem sobre os infindáveis esquemas de corrupção da realidade política e econômica do mundo. E nós todos sustentamos modelos civilizatórios hipócritas, e há gente demais muito à vontade com isso.

No Brasil, ocorre um dos piores arremedos dessa situação, todos defendem a educação, menos o salário e a dignidade dos professores e demais profissionais da educação, uma política educacional crítica e libertadora e a escola como espaço de conhecimento e acolhimento. Defendem a saúde, menos, novamente o salário e a dignidade dos profissinais da saúde, um sistema universal e solidário e a promoção da saúde ao invés de programas de adoecimento compulsivo e enriquecimento das indústrias da morte. Fico só nesses dois porque resumem o destino de todo o resto.

Inclusive do nosso, por enquanto e ainda, maior patrimônio físico e geográfico.

Mas registro que também é peculiar da espécie humana ter sido capaz de criar profissões em que o mais importante não sejam os profissionais. Por isso, talvez, banqueiros sejam burgueses, proprietários, especuladores, ou filanhtropos, não profissionais de finanças. Ou ladrões, no popular.

Tentando contribuir com o fim do nosso cretinismo, é preciso declarar que seguimos destruindo o manancial amazônico, para além da proverbial imbecilidade, porque somos civilizatoriamente doentes. 

Nós não, o mundo todo, em especial o velho mundo que levou muito tempo para concluir que dilapidou suas riquezas naturais. E essa compreensão só surgiu quando percebeu que outros países “recém descobertos”, se não fossem impedidos de desenvolver soberania em seus próprios marcos civilizatórios, constituíam real ameaça à vocação parasitária do “progresso civilizado”.

A questão é que constatar é insuficiente.

Os idiotas estão nos vencendo com as políticas de apocalipse manifesto. E seguimos todos entoando loas a hecatombes, holocaustos e distopias. Como se ainda acreditássemos em sombras de deuses onipotentes.

Não precisamos ser como o passarinho heroico que faz sua parte levando água no bico para combater o incêndio na floresta. Pra ficar apenas numa das nossas principais jactâncias, se produzimos nos últimos cinquenta anos mais informação e conhecimento do que fomos capazes em todos os milênios anteriores, não era pra já estarmos nos ocupando de não cometer mais, tantos e mesmos, erros milenares?

Vida Longa e Própera. Se possível.



quarta-feira, 15 de junho de 2022

Algumas verdades sobre a urna verde e amarela

Démerson Dias


Latuff - 2022 para o Brasil247
Sou funcionário da justiça eleitoral desde 1987. Tenho críticas ao sistema eletrônico. Mas reivindico a "maquininha" como uma das inovações mais bem-sucedidas do país. Os funcionários da justiça eleitoral têm orgulho da urna eletrônica e dos avanços incontestáveis que o sistema possui desde a superação do sistema manual de voto e apuração. Novos ajustes sempre serão feitos com o tempo, porque a democracia é uma construção permanente.

Sempre será pertinente afirmar, reafirmar e proclamar, que a democracia e sobretudo o processo eleitoral é matéria intrínseca à sociedade civil. Não existe hipótese racionalmente válida em que as forças armadas, enquanto tais, sejam interlocutoras válidas nesse debate.

Nem mesmo constituem poder de estado. Só existem três poderes. As forças armadas são subordinadas a um deles, inclusive nos dias das eleições por dever de ofício, podem estar subordinadas à Justiça Eleitoral. A tutela militar sobre a democracia brasileira não possui respaldo constitucional. Algum dia será necessário depurar o artigo 142 da Constituição Federal de 1988, para evitar lapsos e arroubos. A tutela da ordem no país é civil, quando foi militar, patrocinou torturas e mortes.

Desde que o bolsonarismo desatou a falar bobagens a respeito do sistema eleitoral, assumi a defesa intransigente do sistema, bem como um silêncio em relação às críticas.

Com o surgimento das urnas eletrônicas instalou-se um debate saudável e democrático que visa aperfeiçoar o sistema.

A justiça eleitoral e o processo eleitoral conduzido a partir do poder judiciário é uma solução bastante adequada num contexto republicano. As forças armadas participam desse processo desde seu início. 

Bolsonaro já defendia torturadores e atacava as instituições muito antes de ser eleito presidente. E também nunca contestou o resultado de sua própria eleição para esse e para os outros cargos a que foi eleito.

Existem imbecilidades doentias e outras apenas oportunistas, geralmente oriundas da falta de caráter. Criticar o sistema eleitoral eletrônico para defender o obscurantismo, atacar as instituições democráticas e tumultuar o processo eleitoral, após ter sido eleito nesse mesmo sistema é uma atitude que embora não exclua causa clínica, constitui, fundamentalmente, desvio de caráter.

E as forças armadas, vergonhosamente, estão servindo de instrumento iníquo dessas imbecilidades. No entanto, ainda mais grave é reivindicarem qualquer tipo de protagonismo no processo que só existe porque a quartelada de 1964 foi historicamente derrotada.

As forças armadas não possuem status institucional suficiente para contestar a justiça eleitoral em qualquer de suas instâncias. Além do auxílio que prestam para segurança do sistema, seu apoio no processo eleitoral em termos de logística e segurança é, sem dúvida, muito bem-vindo. Aliás, a maioria absoluta dos militares que participam dessa empreitada nos dias das eleições são merecedores de elogios.

O mesmo não ocorre com o cidadão que veste farda para tentar usurpar um poder que não possui. Sem a farda, qualquer questionamento é válido e até mesmo bem-vindo.

Mas no momento em que o cidadão está fardado ele é um funcionário da sociedade, como eu e os magistrados. No entanto, ainda que tenha no presidente da república seu comandante máximo, em termos republicanos, e fora de contextos de guerra, deve obediência inclusive a juízes de primeira instância, que dirá aos ministros das cortes superiores em especial aqueles oriundos do Supremo Tribunal Federal.

Reconheço a paciência e complacência dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral em dialogarem com os inoportunos comentários militares. Entendo que responder a qualquer questionamento atende principalmente a vocação pública civil da justiça eleitoral.

Como ocupo cargo ininterruptamente na justiça eleitoral há mais tempo do que qualquer dos ministros, considero justo e importante, me somar ao diálogo em torno do sistema eleitoral, sobretudo quando se trata de responder a figuras que já demonstraram não possuírem qualquer compromisso ou vocação com a democracia brasileira. Especialmente por vocalizarem interesses de quem defende a tortura, o regime criminoso instalado a partir de 1964 e a absoluta e comprovada inépcia institucional para exercício de tarefas civis.

É fato que apenas a cortesia que costuma ser regra na ritualística judicante evitou que qualquer dos ministros tenha ordenado que os militares recolham-se aos quartéis e às suas obrigações institucionais.

Qualquer um desses militares precisa, antes de mais nada, bater continência, e pedir licença antes de dirigir qualquer palavra a um membro do poder judiciário brasileiro. Em sede de matéria eleitoral, militares devem pedir vênia e só usar a palavra quando autorizados. Eles estão solenemente proibidos, enquanto militares a manifestar qualquer tipo de contestação dirigida à justiça eleitoral, seja acerca de matéria eleitoral, seja ao sistema de voto, fora do escopo em que estão incumbidos de colaborar. 

O direito a livre expressão em relação a voto e democracia eles só possuem se, antes, tirarem a farda.

Por descuido inclusive de governo civis, as forças armadas acreditam que possuem qualquer prerrogativa em relação ao mundo civil ou às práticas democráticas. Para isso ser verdade eles precisam se despir da farda. Fardados, fora das condições e circunstâncias prescritas na constituição, devem obedecer ao ordenamento civil, inclusive do Poder Judiciário brasileiro e da cidadania.

Deu para entender, ou a gente precisa desenhar?


Démerson Dias, servidor público na justiça eleitoral de São Paulo há mais de 30 anos, ex- dirigente sindical.


terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Depois da tragédia, de volta à farsa

 Démerson Dias


Como dizia um Antonio Brasileiro Jobim, o Brasil não é para principiantes. A predileção do país por golpes dentro, ou fora da ordem sempre funciona como contra medidas preventivas. E esse caráter golpista é de tal forma naturalizado que, não importa quem ganhe uma eleição majoritária, e nem para quem cada ator político torceu, ou impulsionou. Imediatamente todos passam a reivindicar que o eleito seja o que não é.

A própria mídia que elegeu Bolsonaro queria sua crueldade sem sua estupidez, como se fossem dissociadas.

Desmascarado o delírio fascista da burguesia brasileira, pouco a pouco os diversos segmentos que garantiram a construção e viabilização da tragédia Bolsonaro vão retocando o verniz da hipocrisia.

Agora já se posicionam para exigir que Lula, virtual eleito, seja um Lula com programa de Bolsonaro.

Difícil saber com precisão o quanto de balão de ensaio foi a declaração de simpatia no Partido dos Trabalhadores à revogação da reforma trabalhista espanhola. O efeito principal foi alcançado: comoção generalizada à esquerda e à direita. 

A primeira querendo que cada candidato progressista converta-se imediatamente em revolucionário. Pouco importa que tenha sido eleito pela mais cretina ditadura burguesa, tem que ser golpista e romper com estruturas republicanas.

Já a direita, querendo manter o mais intocada possível a desgraça institucionalizada que caracterizou o governo de um dos pústulas (às vezes, literalmente) militares mais cretinos da nossa história.

Alguém precisa falar em português mais claro possível: Bolsonaro precisa ser inteiramente revogado. Jamais esquecido porque é dessas coisas que quando se esquece, se repete. O país precisa ser purgado, desinfetado e exorcizado do período Bolsonaro.

Mas para que isso ocorra é preciso, pelo menos às esquerdas, revolver suas raízes, inclusive para não se repetirem também os erros mais obtusos.

Mensalão, lavajato e o golpe contra a presidenta Dilma foram episódios semeados por ação do próprio lulismo. Convém repensarem os termos em que pautam seu esforço conciliatório. Já não deu certo a versão 1.0.

A direita condenou a esquerda realçando nela o comportamento corrente, usual e programático que caracteriza mais a direita do que a esquerda. Nem a mídia conseguiu esconder que compra de votos, tráfico de influência, caixa dois e “pedaladas” são instrumentos de uso corrente, alguns desde o império.

Tampouco se pode eximir a parcela de responsabilidade do próprio lulismo por ter hospedado ou patrocinado ele próprio os dispositivos e condições e atores  que o atropelaram não uma, mas, pelo menos três vezes.

Joaquim Barbosa foi, "apenas" um dos primeiros indicados por Lula para compor o Supremo Tribunal Federal.

O próprio Sérgio Moro provavelmente não teria entrado no radar da CIA / FBI não fossem os serviços prestados no processo do mensalão à ministra Rosa Weber, indicada por Dilma Rousseff.

E ainda, provavelmente o mais grave, foi Michel Temer, escalado por Lula para secundar sua sucessora. Não resistiu aos deslizes estratégicos do lulismo e decidiu desalojar de vez o PT do governo, enquanto Moro e o STF (praticamente inteiro) tratava de inviabilizar o retorno de Lula à presidência. Bem entendido, os indicados por Lula e Dilma eram a esmagadora maioria no STF. O único republicano ali foi Lewandowski.

Importante registrar que exceto em momentos de exceção Lula indicou 8 ministros, um casa único. Ou como o próprio usa dizer, nunca na história desse país. Somados, Lula e Dilma indicaram 13 ministros. Só não renovaram a corte inteira porque o critério da vacância é idade, ou morte.

Não valeram advertências literárias desde as clássicas até as populares: crie corvos e eles te comerão os olhos. A víbora de Esopo, ou mesmo a história do sapo e o escorpião.

A ditadura burguesa só ilude os distraídos, os incautos, ou os arrogantes. Inclusive os que reúnam as três características.

Os folclores na política brasileira dão exemplos suficientes de que flertar com essa burguesia parasitária é uma maldição que não tarda a cobrar compensação. A revogação decisiva do criminoso regime escravocrata custou imediatamente ao império o golpe republicano que foi personificado por Deodoro, amigo do imperador. Uma tragicomédia que só é esmaecida porque instaurou o regime de apartheid no país, muito antes da África do Sul.

À época imigrantes foram trazidos para serem trabalhadores para que ex-escravizados seguissem párias da “sociedade do trabalho” e não fossem incorporados ao novo modo de produção. 

Um modelo de segregação e desterro moral e ideológico que iria perpetuar uma senzala civilizatória na qual nem mesmo as mais elementares práticas culturais pudessem ser admitidas. Futebol, samba e capoeira, todas viveram momentos de criminalizadas. Somente vingaram porque, assim como ocorreu com a cultura dos povos originários a história desse país é indissociável dos massacres dos nativos locais e dos sequestrados da África.

No Brasil de hoje, aos poucos cada um de todos os patronos da candidatura Bolsonaro, todos descendentes, ou saudosistas, dos senhores de escravos, vão trocando de pele. Não por remorso, consciência, nem muito menos revisão crítica. Apenas a velha e providencial hipocrisia estrutural.

Alguns ainda haverão de reclamar que o ex-operário trará de volta alguma racionalidade à recalcitrante república brasileira.

Confirmado o retorno de Lula, pode parecer aos otimistas que o Brasil superou a trapaça que tirou o PT do governo e Lula da vitória praticamente certa em 2018. Essa interpretação é falsa.

O que esse hiato custou ao Brasil uma posição entre os países, na história da humanidade, em que a barbárie assumiu o controle. A farsa da guerra civil mascarada pelo regime carcerário (que o lulismo se esquivou de combater e, talvez até, tenha agravado) supurou em genocídio de mais de 621 mil (números de 17/01/2022) assassinados pela negligência instrumental e programática.

O Estado brasileiro, enquanto instituição, regrediu praticamente um século. É como se a república fosse jogada fora, não à favor do império, mas em favor de um despotismo distópico que comemora e se deleita com a desgraça generalizada. Alguns retrocessos dependerão de forte determinação e décadas de reconstrução.

A história de vida e de morte do regime genocida está, até o presente momento, sendo mascarada por um “apagão” de informações administrado pelo governo. Denúncias apontam que o gabinete do ódio recebeu acesso privilegiado a todos os órgãos de controle de processos e informações.

O que nos distingue das mais perversas experiências autoritárias da história?

E a timidez com que o lulismo buscou instalar alguma justiça social será insuficiente para fazer o país retomar até mesmo as bases formais consagradas na Constituição de 88. O país deveria ser refundado, mas tudo vai sendo normalizado, como se ninguém mais quisesse saber dos crimes que ocorreram nos últimos sete anos.

Sem um ascenso de engajamento democrático que reconstitua o ordenamento do país, somos hoje mais miseráveis do que fomos no começo do século passado. Política, econômica e moralmente.

Pelo ensaio que faz flertando com Geraldo Alckmin, ainda não é possível saber até que ponto Lula aprendeu alguma coisa sofrendo na própria pele reiteradas vezes a rejeição daqueles com quem insiste em se aliar.

É questão de se perguntar se está, de fato, contando com os aliados adequados. Talvez o “tino político” não seja exatamente sua melhor virtude.

Pelo lado da burguesia não devemos ser igualmente condescendentes. Raríssimas alternativas seriam piores que Bolsonaro. Como até o próprio Geisel não o tinham em boa conta, não é um acidente que tenha sido o único estrume que a burguesia tinha para instrumentalizar. Ele é, provavelmente, o mais fidedigno porta-voz de um segmento hegemônico da burguesia. O candidato, enfim, escolhido por ser o vassalo mais obediente e explícito, uma escolha feita com convicção e consciência.

O atleta especializado em flexão de pescoço introduziu o Brasil ao mapa do genocídio humanitário. Um feito que o coloca em discreto paralelo com Nero, Hitler, Mehmed Talat e seus comparsas do império otomano (genocídio Armênio). Esse é o caráter desmascarado da burguesia brasileira. Bolsonaro é apenas seu emissário menos hipócrita, mais objetivo e sincero.

Em mais de uma oportunidade comemorou e se empenhou para produzir uma necropolítica que o equiparasse ao genocídio histórico dos europeus aos povos originarios americanos e aos africanos sequestrados.

Evidente que Lula, um dos mais eficazes governantes na história da ditadura da burguesa brasileira, surge como um verdadeiro bálsamo. E o é, de fato, para milhões de brasileir@s. Ainda assim, sob alguns aspectos isso não é exatamente um elogio.

A alternância entre tragédia e farsa não é novidade na política brasileira. E tampouco incomoda os que aceitam que assim seja.

O desafio para romper com esse ciclo é daqueles que efetivamente não se dispõe a validá-lo.

A tarefa de superar a realidade não é dos que estão conformados com ela. E nem existe motivo honesto para esperar, ou cobrar que façam algo nesse sentido. Independente do que Lula tenha aprendido com a sua experiência, seu horizonte ainda é o da conciliação.  Apresentar como denuncia o que ele próprio afirma (como virtude) com palavras e atos é bem pouco inteligente. Pouco honesto, também.

A responsabilidade de mudar o mundo é dos que afirmam estar inconformados. Cobrar dos demais não é apenas fútil, é pueril.

Para simplificar a obrigação de mudar o mundo é daqueles que enxergam seus limites e contradições e não dos que acham que as coisas estão todas no devido lugar.

Romper esse ciclo de tragédias e farsas vai exigir mais do que presunção moral, palavras de ordem no infinito e autoproclamação. É preciso construir as condições políticas para que isso aconteça. Enquanto isso não ocorre, somos, nós mesmos, partícipes entre as lágrimas de tristezas pelas desgraças e os sorrisos insípidos que, desta vez, não foi tão ruim quanto poderia ter sido.