domingo, 28 de fevereiro de 2021

A imunidade de rebanho e o comportamento de manada



A imunidade de rebanho e o comportamento de manada

Démerson Dias


Cemitério de Manaus / MICHAEL DANTAS / AFP

Tentando revisar o texto, percebi que me exaltei. Devo ter cometido arroubos e erros. Porém, silenciar diante do fascismo só nos lega o cemitério como destino.

Somos tomados por um misto de raiva e desespero quando lemos as notícias na mídia comercial burguesa.

A maior parte do tempo e do espaço, eles dedicam, enaltecem, endossam e comemoram, pois, finalmente, estão emplacando seu projeto de demolição nacional (a privatização venal do banco central era desejada há 30 anos). Entre um rojão de comemoração e outro, deixam escapar a situação do país real. Não é apenas o sistema de saúde que está em colapso, como as covas nos cemitérios seguirão sendo insuficientes. A mídia denuncia o colapso, mas incentiva tudo mais que o governo faz para destruir os serviços públicos, inclusive o SUS.

Comentava com um amigo que nem sequer nos lembramos mais da devoção com que uns e outros reivindicavam à imunidade de rebanho como salvação, assim como cloroquina, ivermectina e outras coisas grotescas. Claro que a maioria dos tolos que dizia isso, nem faziam ideia do que significava.

Desde 2013, o que vivemos foi o efeito de comportamento de manada dos idiotas, mentecaptos e nulidades que, reconhecendo-se, partiram em insana carreira tentando destruir e devorar tudo o que estranharam em décadas de silêncio vergonhoso.

Imagino que tenha sido um estorvo e desconforto para tantos que, por anos seguidos, não tinham caráter, nem coragem para defender suas deformidades morais. É a coragem dos covardes que só são expostas porque a gritaria da turba lhes confere um certo  anonimato.

Sim, estou inconformado porque preciso reconhecer que existe pior que a moral burguesa liberal, é a imoralidade fascista.
Estavam nos porões, enquanto as esquerdas e setores progressistas conseguiram ocupar os espaços sociais e públicos. Em 2013, alguma coisa aconteceu conosco, e parece que hoje, nós é que nos metemos em cantos escuros e envergonhados. Eles são poucos, mas convencem alguns pelo cansaço quando expressam ódios. E ódio é sentimento fácil. Assim como destruir é incomparavelmente mais simples do que tentar construir, ou mudar o que está ruim.

Estamos vivendo a primazia do lúmpen, porque parte de nós acreditou numa democracia conciliadora, enquanto permitiam que a burguesia corroesse valores essenciais à vida, em troca de sacrifícios ao deus-mercado.

Sobraram tantas mazelas que é impossível derrotar essa turba sem afirmar que não existe conciliação possível.
E o argumento deles são os berros e bizarrices aos berros que vociferam contra qualquer um que tente restaurar a sanidade social. Para eles, a forma é o conteúdo.

Não dá pra dizer apenas que eles gritam demais. Se eles estão falando demais, nós estamos fazendo de menos. A virtude (e verdade) revolucionária é a prática. Mais do  que nunca, não podemos nos calar. É preciso entender que mais dia, menos dia, eles viriam a campo espalhando suas trevas.

Não existe um jeito suave ou delicado de vencermos o que ocorre no país hoje. E o melhor suporte que podemos dar à linha de frente contra a covid é mandar o obscurantismo de volta às trevas. É fundamental sairmos dos armários em que nos metemos.

E reconheço que, para alguns que acreditavam numa esquerda virtuosa e incorruptível, possam ter caído em desânimo. Assim como aqueles que caíram junto com o Muro de Berlim e estão nos escombros até hoje. Então, sobra para a esquerda que não perdeu a lucidez acreditando em messias e messianismos de um lado, ou de outro, vir a campo.

A esquerda que não teme, nem se envergonha em dizer seu próprio nome, lutar a própria luta. Afinal, sem a participação ativa do campo socialista, o fascismo não teria sido derrotado pelos capitalistas que o tornaram possível.

Essa manada não será imunizada, a solução está entre o abate e levá-la de volta ao curral de onde não deveria ter saído, e jogar a chave fora. A parcela da sociedade que foi contaminada pelos zumbis do facismo não é majoritária. Como se diz, somos 70%. Mas precisamos ser mais que um número. Precisamos ser ação, intervenção e resistência explícitas. Não basta esclarecermos, porque estamos falando a convertidos de parte a parte.

Eles não se calarão. Como vimos com o protótipo de facistinha que foi policial infrator (como seu capitão) e virou deputado defendendo os assassinos de Marielle Franco, assim que acossados, se encolhem.

A intolerância não será derrotada com pacifismo, aceitação ou convicção democrática. Eles não são democratas, eles não acreditam em civilização alguma. Eles são os testemunhos da barbárie que preferem o caos do obscurantismo à luz da ciência, às belezas, e também transgressões das artes, à finalidade dos serviços públicos e comunitários que querem destruir. Ou entendemos que precisamos atropelar de forma inclemente essa onda, ou seremos nós as vítimas. Aliás, já estamos sendo. E 250 mil já pagaram com a vida por isso.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

A boa e as más notícias

 

Imagem de Rio 2096: Uma História de Amor e
Fúria. Animação de  Luiz Bolognesi.

A boa e as más notícias
Démerson Dias

     Em meio aos acontecimentos nos últimos meses, é possível notar um enfraquecimento pontual na base do bolsonarismo. As tendências protofascistas vão perdendo espaço, a derrota de Trump e o vergonhoso, mas necessário recuo nas relações com a China, a infinidade de tropeços e desencontros no discurso obscurantista e a perda, por incompetência, de qualquer protagonismo em relação a condução das políticas contra pandemia, minaram a "estratégia" do núcleo bolsonarista.

     Com as divisões internas provocadas nas fileiras da gangue, setores da direita, e também do campo evangélico sem relações estreitas com o crime organizado, foram tomando distância do bolsonarismo, que padece de uma virulenta, mas previsível incapacidade de administrar relações para além do próprio umbigo.

     E o umbigo do bolsonarismo são as milícias. Esse segmento se fortaleceu, mesmo adotando um discurso sub-reptício, é provável que esteja buscando, de forma consistente, uma articulação entre facções de diversas regiões no país, que chega a 2021 com agrupamentos consolidados em cerca de 15 Estados do país (Milícias e Poder, Parte 2: Alves e Soares Refletem Sobre as Múltiplas Faces e Fases das Milícias no Rio - RioOnWatch).

     Esse movimento sustenta, também, o compromisso com setores neopentecostais, que permanecem fiéis, e/ou mancomunados, com as milícias.

     Esse bloco, por si só, tende a alcançar projeção e expressão política, ainda inusitada na história do país. E também será a principal herança e espaço de intervenção do bolsonarismo, que pode até sair da alçada de controle da família bolsonaro, diante de sua peculiar incompetência para construir qualquer coisa consistente. Mas seus agregados crescem à sombra. Encobertos, principalmente, pela incontinência verbal e intelectual do núcleo bolsonarista. 

     Um segmento não deve ser subestimado. Está presente nas estruturas de estado, dos três poderes, além dos setores policiais, e dispõem de recursos financeiros, o quê, cedo ou tarde, os levará aos espaços decisórios centrais da burguesia brasileira. Se é que não estou defasado.

     Se, de um lado, os empreendimentos governamentais do bolsonarismo se enfraquecem, como por exemplo a ampliação da tutela do centrão, seu poder nessas áreas "subterrâneas" se aprofunda. Esse fenômeno pode inaugurar uma nova fase do patrimonialismo brasileiro.

     O sentido de urgência em relação a esse cenário parece escapar quase que completamente aos setores de resistência social, e aos agentes políticos principais da esquerda. Desde seu primeiro dia de governo, o bolsonarismo tem sido muito eficaz, como projeto de demolição de direitos e garantias sociais estruturantes. Cada pequeno passo dado nessa direção desconstrói décadas de ação política e de conquistas sociais. 

     Se a constituição brasileira de 1988 já havia se tornado um arremedo fantasmagórico, estamos numa fase em que decisivamente o caráter formal de estado social e estado democrático, vão deixando de constituir a matriz política do país. 

     Os exemplos mais flagrantes e visíveis envolvem as nações indígenas e questões ambientais. Em certa medida o bolsonarismo representa, praticamente, uma nova (e final) onda de genocídio da população indígena. Seja pelo descaso em relação à pandemia, seja pela negligência em relação a ocupação dos territórios, e ainda dando condições para consolidação de um projeto extermínio cultural.

     Por essa perspectiva, os ensaios que se propõem a transformar a batalha contra a reeleição do bolsonarismo em 2022, no centro de uma estratégia de resistência no país, basicamente, estarão contribuindo para encobrir a guerra ideológica de amplo espectro, que está em curso no país, de forma explícita, desde 2013.

     Os lutadores urbanos e classes remediadas não possuem real alternativa de sobrevivência se não articularem uma composição estrita de forças com todos os setores marginalizados pelo "status quo". Uma unidade que inclua cidade e campo, povos originarios, ambientalistas progressistas, assentamentos e quilombolas, organizações suburbanas e favelas. 

     Pelas características dos adversários eu não descartaria, nem mesmo, segmentos paramilitares antagônicos às forças da ordem. O Brasil está em guerra, e essa guerra está na iminência de subir de patamar. Os que são vítimas apenas por efeito colateral não tem direito de fechar os olhos para as chacinas, fuzilamentos, emboscadas que estão vitimando lutadores sociais, transeuntes, e a população pobre, em especial a negra.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Podres Poderes


Podres Poderes
Démerson Dias

A eleição do Artur Lira para presidência da Câmara elucida do que é feito o conglomerado político chamado Legislativo e os reais interesses dos donos do poder no Brasil.

Lamento divergir de camaradas que ocupam e/ou valorizam a disputa institucional no parlamento. E, não o faço com a hipocrisia dos que só denunciam a "farsa democrática" quando não são capazes de granjear o escrutínio "popular".

A suposta democracia burguesa não é uma democracia e a burguesia brasileira esta comprometida até o rabo com o bozofascismo, seu "governo", o genocídio, e até mesmo com o pão com leite condensado.

O tripé institucional do Estado brasileiro caracteriza uma ditadura burguesa porque, nada acontece, em suas entranhas, que seja oposto ao conjunto dos interesses da classe burguesa.

Tal caracterização é o inverso da que acreditam os validadores da democracia burguesa, que a justificam porque, esporadicamente, pingam migalhas do banquete burguês. Como cada migalha custa empenho e esforço enorme dos representantes das classes excluídas, a farsa se auto justifica, já que, setores serviçais a segmentos distintos da burguesia, oferecem gamas distintas de resistência às demandas das classes assujeitadas.

A eleição de Artur Lira expressa o caráter, e as prioridades, do conjunto da burguesia brasileira. Deixaram o fascistinha brincar de trumpismo porque, parcela concorda, e o conjunto, é lento e burro, para interpretar as movimentações da burguesia internacional. 

Essa burguesia nacional é imediatista, reacionária, parasitária e, fundamentalmente, predisposta à vassalagem.

Ainda assim, parece que sempre existiram capatazes, dispostos a sujar as mãos a serviço dos déspotas.

Não consegui decifrar se a surpresa que Rodrigo Maia acusou, muito levemente, assim que abriu o painel de resultados, significa que achou Arthur Lira teve muitos votos, ou se Baleia Rossi teve poucos. Como ex-articulador do centrão, é bem provável que já conhecesse seu sucessor. 

Bolsonaro não tem capacidade intelectual para conduzir as negociações que garantiram o apoio decisivo do centrão. A mídia comercial, efetivo braço ideológico da burguesia na sociedade, precisa encobrir que o centrão é basicamente ideológico e burgues (Revista FAPESP - Edição 75 maio de 2002). Surgem as insinuações de votos comprados e pagos com emendas orçamentárias. Mas não é disso que se trata nessa conjuntura específica.

Arthur Lira e Baleia Rossi, qualquer dos dois, não são Inocêncio Oliveira, Severino Cavalcanti ou Eduardo Cunha. O centrão é a reconstituição do bloco gestor da ditadura.

Para o parlamentar que se vende, a grana é a recompensa. Ocorre que para que essa grana tenha comprado esses votos e não aqueles, dependeu de uma decisão ideológica ponderada a partir da reflexão sobre quais alternativas atendem melhor ao interesse do campo reacionário.

A corrupção é, praticamente, o álibi do centrão, para consagrar sua opção ideológica, sem que isso fique tão escancarado. Só por isso a mídia comercial tem a liberdade de falar contra seus próprios membros, já que o que denuncia é uma categoria que não se confunde como os protagonistas que a compõem.

Se ainda não perceberam, os alentadores da hipótese de impeachment de bolsonaro, voltam à estaca zero em suas ambições. Sendo essa a conclusão mais elementar. A inépcia administrativa do bolsonarismo é território fértil para as malandragens mais corriqueiras, ou mais criativas, do legislativo federal.

As reformas estruturantes, que não são de governos, mas da classe que comanda o poder, terão maior desenvoltura, não apenas para tramitarem, mas para passarem por crivo ideológico mais fino. O que é definitivamente impossível no ambiente de debate franco, que vinha se delineando, caso Baleia Rossi fosse vitorioso.

Qualquer democracia, mesmo a mais vulgar, faz muito mal para os negócios.

O que devemos assistir, para infelicidade, inclusive, da oposição a bolsonaro, é que o projeto de poder ao qual ele serve, terá maior desenvoltura para fazer recuar as posições atabalhoadas, vomitadas pelo presidente e anexos, e que perdem qualquer razão de ser com a derrota do trumpismo.

E não há espaço para comemorar, que seus maiores aliados internacionais, Trump e Bannon, estejam saindo de cena. Essa é a mais corriqueira das acomodações que a ditadura burguesa produz, e que, dentre suas virtudes, consegue acalmar as resistências otimistas.

Bolsonaro não será salvo pela eleição de Arthur Lira. E esse, não está fadado a cumprir papel político de peso. O que selará,  de fato, o destino de ambos, vai depender, em parte, das enrascadas que cometerem, ou se livrarem, do grau de otimismo e condescendência das oposições, formais e populares e, enquanto não forem destituídos do poder, da capacidade da burguesia de manter misancene que faz uma maioria enxergar democracia, onde subjaz uma ditadura, cujo feito mais prosaico, é comandar a maior guerra civil em curso no planeta.

O Brasil é o único país no mundo em que um genocídio é encarado com reticência, ou parcimônia, o que dá no mesmo, inclusive pelos porta-vozes, representantes e lideranças das vítimas.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Funerária Bolsonaro & Filhos S/A


Funerária Bolsonaro & Filhos S/A
Démerson Dias



“Oxalá, passe algo que te apague depressa”
Silvio Rodriguez - Ojalá

Se tivermos sorte, o Brasil termina maio com 23 mil mortos pela COVID-19, termina junho com 43 mil, quando provavelmente alcançaremos a cifra de um milhão de casos (entre confirmados e suspeitos). Esse é o quadro a 65 dias desde que a primeira morte foi oficialmente notificada. Paira o temor de que as subnotificações expressem um universo de mais de 10 milhões de infectados no país, ou seja, de vetores de transmissão do vírus. O Brasil já possui o maior índice de propagação do vírus no mundo. Não esqueçamos disso no obituário e lápide dos Bolsonaros.
Se não queremos considerar formalmente 18 mil mortos em 65 dias como um genocídio (sendo que mais de 5 mil deles somente nos últimos 7 dias), no mínimo, estamos vivendo uma cruzada higienista, promovida de forma calculada pela gangue que ocupa o poder central no país e seus agregados.
Não é loucura, estupidez, ou incompetência. As mortes são programa de governo, um governo de exaltação à barbárie.
Para uma fração da sociedade, o vírus foi convertido pretexto para a guerra ideológica em curso no país. Com um desdobramento insólito: qualquer que seja o desfecho, não serão os profissionais da saúde, cientistas e o confinamento que vencerão o vírus. A oração e a determinação dos “escolhidos” nessa cruzada moral terão ao primeiro cavaleiro do apocalipse. Não existe argumentação possível contra essa constatação, já que ela não reside no terreno da razão, mas dos afetos.
Profissionais de carreira do ministério da saúde, assim como os do SUS e das secretarias locais, as áreas de medicina, enfermagem, assistência social, dentre outras, estão travando dura batalha, mas a ausência de uma diretriz central para conduzir uma política pública eficaz compromete esse esforço.
Bolsonaro realmente não é um coveiro, estes, na linha de frente, colaboram para que os mortos não tornem mais grave a pandemia se tornando agentes contaminantes. A “famiglia” no poder e seus simpatizantes são parceiros da pandemia, se aproveitam da calamidade para fazer negociatas e ampliar seu espaço de poder.
Desde a posse da gangue em 2019 as milícias estão promovendo disputa territorial como o crime organizado e ampliando suas zonas de controle, inclusive em outros estados e com apoio tático de outras forças de segurança. Crianças têm sido vítimas frequentes, pedreiros, pais, mães, escolas, transeuntes. Matam com precisão, ou com ou salva de 80 tiros. A um só tempo, guerra urbana e campo de extermínio.
Enquanto o judiciário mandou para prisão diversos políticos baseado apenas em convicções ideológicas, corpos se avolumam em torno da família Bolsonaro, desde Marielle e Anderson até as queimas de arquivo de Adriano da Nobrega e Gustavo Bebiano etc. Se Queiroz segue vivo é por ser parte da solução para a gangue. Bolsonaro já declarou que sua cifra desejável de mortes gira em torno 30 mil. Ainda não bateu essa meta, ao menos por responsabilidade direta. Mas não podemos poupá-lo dessa responsabilidade.
O Brasil vive sua própria versão de regime de terror, um governo cadavérico que se orgulha de ter mortes como conquistas de gestão. Já existiram por tempo demais tanto esse governo, quanto seus membros e simpatizantes. Merecem provar urgentemente da maldição a que condenam o país.



terça-feira, 11 de junho de 2019

MÃOS SUJAS!

O MOROGATE revelado e o fim estrondoso do delírio de uma república curitibana
Démerson Dias

Reprodução / Sindicato dos Rodoviários
Uma das coisas que a burguesia sabe fazer melhor é cálculo político. São pelotões de especialistas que investigam milimetricamente perdas e ganhos em toda e qualquer conjuntura.
Moro e seu conje, Dallagnol, estão formalmente desconstruídos. Por algum tempo, será difícil conquistarem até o cargo de síndico de prédio. Não porque tenham errado, mas porque foram pegos. E a regra geral no capitalismo é que os serviçais servem pra isso mesmo. Serem pegos no lugar dos seus mandantes ou tutores.
     Sempre existem possibilidades de se criarem atenuantes. Mas tanto minha leitura objetiva, quanto minha disposição afetiva, prevêem um desmantelamento espetacular de Sergio Moro. Plenamente merecido, a meu ver.
     Um erro primário cometido por Moro foi esquecer que inflar em demasia seu valor e capacidade o projetaria para uma camada política que seria fatal caso perdesse sustentação. E a assustadora inabilidade (somada a arrogância equivalente) contribui para que Moro e sua trupe não tenham pontos de apoio e sustentação suficientes para evitar um estraçalhamento profundo.
     A vaidade agrava a situação específica de Moro. Caso ainda fosse juiz, o pacto corporativo lhe garantiria uma blindagem natural, poderia contar, inclusive com a aposentadoria que é a pena máxima admitida a um magistrado. Seria difícil mantê-lo na atividade porque o escândalo atinge habilitação inerente ao cargo: a imparcialidade. Ao ser flagrado Moro tornou-se imediatamente inapto à atividade. Mas isso já é fábula.
     Outro sinal de que a Lava jato pode ter perdido respaldo está nos próprios organismos que orbitam a recomposição conservadora. O conluio era de conhecimento geral, mas sua exposição invoca a necessidade de preservar as aparências. 
     Parece um preço alto a pagar sair em defesa dos estafetas jurídicos, inclusive porque os benefícios da investigação vão perdendo vitalidade e esbarrando com círculos cada vez mais internos do poder real.
     Dentre os raciocínios embutidos nos cálculos está a redução de danos. É imprescindível que um problema pontual não contamine todo o sistema.
     Bem entendido, o problema não é a corrupção inerente à interferência indevida de Moro nas apurações do Ministério Público, mas que esse expediente tenha sido exposto. A manifestação de um magistrado em circunstâncias parecidas é sempre sentença preventiva. É melhor cortar na carne da lava jato do que deixar o escândalo gangrenar e colocar sob suspeição toda a magistratura e as demais articulações em andamento. Trata-se de salvar os dedos disponibilizando os anéis.
     A corporação judicante contou com a pronta manifestação do desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo Alfredo Attiê. Não precisava ser mais explícito: “coloca o sistema Judiciário em descrédito”.
     Na ritualística judicante, a magistratura está sinalizando que Moro não representa um risco aceitável. Suponho que seja simples entender que o desembargador não fala em nome próprio, mas da corporação. 
     Outro indício eloquente, a Ajufe, Associação de Juízes Federais não aderiu ao discurso de vazamento criminoso o que, somado à declaração de autenticidade de Moro, indica que está lavando as mãos em vista do contexto alheio à defesa das prerrogativas dos seus associados.
     Para Moro, o vazamento tem a vantagem de, praticamente, inviabilizar sua condenação criminal. E Dallagnol, convenhamos, sempre foi o arauto júnior que dependia dos precários e imprecisos conselhos do agora pseudo-ex-magistrado. As chances de que o Conselho do Ministério Público queira se embrenhar numa lavação de roupas pública em pleno processo sucessório do novo PGR é escassa. Sem prejuízo de que a situação evolua após a sucessão de Raquel Dodge.
     No cenário “interna corporis” o que ainda é incerto, embora com solução nas próximas horas, é como o Supremo Tribunal Federal irá atuar institucionalmente. Toffolli tem sobre si um dilema, patrocinou uma iniciativa de perseguição contra aqueles que contestam a reputação da corte que preside, mas tem sobre sua cabeça a tutela militar a quem não interessa a imolação de Moro. De outro lado, Gilmar Mendes não deverá encontrar oportunidade mais apropriada para um ajuste de contas com o lavajatismo.
     Moro talvez aprenda a pior lição de sua vida: ele nunca foi mais do que descartável. 
Dallagnol, talvez, nem isso. Sempre haverá um púlpito e fiéis condescendentes, sua carreira jurídica talvez tenha acabado. Moro, se ao menos garantiu o seu greencard, pode ir se socorrer em Langley, na Virgínia. E, se o fisco estadunidense permitir, terá um vizinho igualmente criativo com quem trocar inconfidências.
     A mídia comercial demonstrou fragilidade diante do bombardeio do The Intercept. E a Folha, que costuma ter o melhor senso de oportunidade nesses casos, está sendo quase implacável. Vai saber o tipo de ajuste de contas que tem interesse em fazer.
     O jornalismo capitalista foi absolutamente incompetente para expressar, no mínimo, uma fumaça de imparcialidade, alguns tentam parasitar o vigoroso trabalho jornalístico do The Intercept. Mas são, em essência, incapazes de colocar o problema na dimensão devida.
     Essa mídia mercante, no máximo, pretende transformar a crise em novelão romântico, com mocinhos virtuosos e bandidos perversos. Inclusive tratando bandidos como mocinhos e vice-versa.
     Aos socialistas, não convém cederem à ingenuidade em relação a ditadura burguesa, vulgo, “democracia burguesa”.
     Infelizes os que enxergaram qualquer fiapo de virtude no ex-führer her doktor Moro e seu Reich. Que, aliás, acaba de derreter.
     O interesse principal para a burguesia nacional quanto à Lava jato foi tirar o lulismo do páreo. Já, mantê-lo preso é uma questão de custo benefício.
     Lula, por sua vez, já demonstrou que está focalizando todo seu empenho na derrota dos operadores da lava jato, somente. Pena poupar de sua indignação os mandantes, dentre os quais, no mínimo, a CIA e o Departamento de Estado Estadunidense, a mídia comercial obscena e o rentismo nacional.
     Lula pode, inclusive ser útil nas difíceis transições que se apresentam no futuro próximo, até mesmo para fechar novo acordo de governabilidade, a exemplo do que o PT fez com Temer e os golpistas.
     Lula já insinuou que sua divergência, por exemplo, com a reforma da previdência é de grau, não de princípio.
     Não descarto que a burguesia disponibilize a liberdade de Lula, neste momento, como forma de inviabilizar uma articulação progressista de amplitude que se contraponha ao rentismo.
     A exploração diversionista da crise pode dar ao governo algum fôlego para negociar, nas sombras, os acordos junto ao legislativo.
     A desconstrução da lavajato possui outra vantagem, abre um novo fôlego para recomposições e acertos da pauta governista com o legislativo. Mostrar a grana não é suficiente, quanto antes estiver em poder dos destinatários, maior a segurança e agilidade. E o vazamento disponibiliza uma pauta diversionista que qualquer político minimamente experimentado faria, não apenas uma limonada. Faria bolo, torta e ainda sobraria limão para uma mouse.
     Claro que político experimentado não é algo que pensemos ao lembrar o nome Bolsonaro que em trinta anos sequer foi capaz de ser referência no baixo clero.
     No entanto a crise é formidável para o oportunismo de Rodrigo Maia cujo silêncio, em hipótese alguma, significa comedimento. Em silêncio ele é muito mais eficaz do que quando fala. Comparando ele com Bolsonaro, Maia é capaz de dar três voltas em torno do presidente antes que esse perceba que ele se moveu. Falo por experiência e isso não é exatamente um elogio a Maia, que já chegava no Congresso em 98 como gestor político, além da herança política familiar.
     Corrupção é uma questão estrutural jamais será equacionada em tribunais. Onde existe miséria patrocinada e onde existe disputa de poder, existe corrupção. Sendo que a corrupção que envolve dinheiro é a mais superficial. A corrupção ideológica, essa sim, está na raiz os problemas
     Se tiver uma fração da inteligência que proclama, Moro vai entender de forma exemplar porque é preciso escolher com prudência seus inimigos.  Na luta contra Golias, Sansão tinha, ninguém menos que deus, a seu favor. Já os caramujos têm muito pouca chance numa disputa contra um sapato.
     Pensando melhor, talvez eu esteja sendo presunçoso. Às vezes, observando o percurso cognitivo de Sérgio Moro tenho a impressão que ele vai voltar ao seu anonimato, sem ter dimensão do que foi capaz de ter nas mãos e perder, por absoluta indigência intelectual.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Épica

Démerson Dias
Para Maria Cecília Vicente de Azevedo
Somos tuaregues, ianomâmis e mexicas;
Salvador Dali - Niño geopolítico observando
el nacimiento del nuevo hombre (1943)
andamaneses, inuits, bantus e mongóis.
Flor do umbigo da Pangéia, somos cosmonautas.
Somos aquele um que nunca quis existir
antes de ser mais, antes de ser nós.
Somos os corpos mortos, e ressuscitados pelo Ganges.
Ĉiuj parolas esperante
Antropoversalidade.
Somos os leprosos, os virtuosos, os assassinos e os vencedores
Somos os deuses paridos em mocambos,
que são mais ricos que palácios erguidos por mãos escravas.
Deuses, assim, livres.
O eu é uma verdade desejável, mas irrealizável.
Encontrado em momentos tão fugidios
que nunca mais serão os mesmos das ilusões,
prenhes de memórias, perenes nas cicatrizes, e volúveis nos desejos
Eis-nos aqui, nus, cobertos por madrepérolas,
ou inundados pelo sangue avassalador dos nossos inimigos.
Nosso próprio sangue.
Não somos múltiplos, somos todos,
e seremos ainda mais, conforme se toquem as nossas diferenças
Somos frutos do orgasmo e do açoite,
encantados pelos germes, revelados pelas vergonhas
e inocentes pelos nossos anseios.
Somos a mãe d'água, terra livre e lavas em fúria.
Somos o gelo em que, no calor, se diluem nossas dores
Filhos da morte, ideais das revoluções
Sonolentos nas tempestades
Somos as amebas incansáveis rasgando a carne do cosmos
para inventar o próprio sangue
Somos o nada que não desistiu
De ser todo.

sábado, 4 de maio de 2019

Elogio à República Bolivariana por mais uma vitória sobre o golpismo mercantil exógeno

por Démerson Dias



     Particularmente, estou mais interessado com as relações sexuais das estrelas-do-mar do que com a “ditadura” na Venezuela.
     Quem está achando que Guaidó faz sentido, para mim é um esquizoide social, literalmente, idiota. Ou analfabeto político no dizer de Bertold Brecht. Nada tenho para dizer a eles. Mas repudio incondicionalmente o golpismo e ainda com mais intensidade o cerco militar, econômico e ideológico encetado pelo Demonismo de Trump.
     Com demonismo quero me referir ao globalitarismo de fim de mundo, ou globalitarismo apocalíptico em que o capitalismo, em sua versão neoliberal, tentar encurralar a nós todos.
     Torço pelo projeto da “República Bolivariana”. Nicolás Maduro não é um ditador. Fidel também não era.
     Os EUA são mais próximos de uma ditadura bipartidária do que o projeto bolivariano e a revolução cubana. O conceito de democracia foi flagrantemente deturpado pelo imperialismo pós-guerra. O Brasil, a rigor não deixou de ser uma ditadura. Vide o que já alertava Dalmo Dallari em 19982, sendo que a situação não melhorou, nem se corrigiu, desde então. Concretamente, a perpetuação de inconstitucionalidades não é apenas antidemocráticas. Assim como a decisão, ainda provisória sobre a prisão em segunda instância. E mais ainda com a condução coercitiva como medida cautelar, a prisão como exercício coercitivo para adulterar provas testemunhais.
     Aliás, são eufemismos tolos, o Brasil mata por ano, mais que todos os conflitos armados em todos os países centrais somados. É o maior programa de extermínio em andamento no mundo. Evidentemente as vítimas primordiais não pretos, pobres, brancos pobres como pretos e, após a vitória miliciana, mulheres vítimas dos eleitores do coisa ruim.
     Então, temos que gente dessa estirpe quer se meter a chamar Maduro de ditador. Eu teria ódio, mas esse é o tipo de exercício que faz mal a nós e às pessoas que nos são próximas. Então, tenho algo mais que desprezo. Algo como um desprezo incisivo. Faço questão de anunciá-lo.
     Para quem não vive sem,  estou excluindo de meu ambiente social virtual todos que percebo estarem defendendo qualquer aspecto da “doutrina bolsonaro”.
     Os Eua são tarados por guerras pelo petróleo. Tarados dos mais incorrigíveis e doentios. O capitalismo precisa disso para ter liberdade para produzir tutelas diversas sobre países, economia, imaginário e também cultura. Trump é um dos mais versados em aquisições hostis que já passou pelo salão oval. Talvez o maior deles depois do “pistoleiro” Reagan.
     Como sou cheio de defeitos, alguns deles eu prefiro preservar. Por exemplo quem chame Maduro de ditador já cai no meu conceito. Pode-se incluí-lo entre os loucos (todos) como fez Pepe Mujica, mas o termo ditadura hoje está liquefeito, quase evanescente. O Brasil é uma ditadura e só agora parcela da esquerda se deu conta pela amistosidade com que a gangue no poder consegue transitar sem obstáculos maiores que os antecessores. O que só evidencia que os  saqueadores permanentes do país relativizam até mesmo um semovente indócil como governante.
     A Venezuela conquistou uma etapa cultural importante. O ódio como profissão desceu de lá, das sucessivas investidas oposicionistas e se estendeu pelo Brasil. A direita tirada de cena e o quadro que temos hoje na Venezuela não é uma crise política. São as contorções dos saqueadores do país que perderam proeminência e chamaram o “tio sam” para lhes socorrer. São estúpidos, claro. O tio sam não se meteu por amor a eles, mas porque é parte da sua agenda o assalto ao recurso energético venezuelano. Guaidó vai evaporar mais rápido que Capriles. E é impressionante a paciência do governo bolivariano que não o expulso do país. Já que ele gosta tanto do tio sam, porque não vai morar na Flórida?
     É como os cubanos e brasileiros que acham que se trata de alguma benesse serem hospedados na península da Florida. Fora da Venezuela Guaidó vale menos que nada para o tio sam.
     A construção social levada a cabo por Hugo Chávez ainda é uma conquista histórica. Maduro não possui os mesmos recursos seu antecessor e aquele não investiu na constituição de um bloco coeso e consistente de sustentação, o que é surpreendente já que reconstituiu praticamente toda a cúpula dos poderes republicanos. Esse é um desafio comum a toda a esquerda. Lula cometeu o mesmo erro, embora, em escala de erros superiores a Chávez, por não ter apostado em ruptura, mas numa conciliação que, afinal, o colocou na cadeia com a cumplicidade de alguns de seus beneficiários. E as estruturas econômicas do Brasil não foram incomodadas.
     Tanto lá, como aqui, trata-se de tornar o Estado um bem público, sob controle público e operado por um grupo consistente de trabalhadores comprometidos, não com os governantes, mas com o interesse público.
     Pra nossa sorte temos uma burocracia que possui um apego importante à formalidade. Por essa razão, alguns agentes públicos têm oferecido alguma resistência à demolição generalizada. Mas Maduro, nesse aspecto convive com um desafio bastante maior. Se não estiver construindo e pavimentando a próxima etapa da revolução bolivariana sua queda é questão de tempo.
     O calote dos EUA teria que ser seguido por um redirecionamento da produção a novos parceiros. Deve ser a milenar cautela chinesa que detém a China de se oferecer como destinatária do petróleo Venezuelano. Não tinham se passado 100 dias de doutrina bolsonárica para a China ver vantagem em azeitar seu comércio com os EUA.
     De qualquer forma, cabe à chancelaria bolivariana entrar na guerra de forma soberana e buscar urgentemente parceiros que substituam sua dependência comercial com os EUA. E devem fazer isso antes que o cerco se amplie e um bloqueio formal se estabeleça. Para Cuba foram décadas de escassez.
     Nesse debate não é preciso menosprezar o incidente do atropelamento de um manifestante por um tanque. Em se tratando de Brasil criticas a esse episódio correspondem a uma hipocrisia criminosa. Maduro está sendo imensamente mais tolerante com Guaidó e seus amigos do que os facínoras brasileiros foram em 64 e os milicianos são hoje.
     Sinto-me especialmente bem com minha impaciência em relação ao pedantismo apedeuta dos bolsonaristas. Conforme mencionei em postagem recente é preciso tomar as palavras de Bertrand Russell como advertência: “as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas”.
     Não precisamos de certezas quanto ao que é necessário, é suficiente saber o que é inaceitável. E ando bem pouco generoso com os elogios à ignorância, à venalidade e a taras morais capitalistas. Diante da doutrina de renovação fascista em curso no país é preciso máxima cautela para que a paciência e tolerância não se confundam com covardia. Quem não tem dignidade não consegue reconhecê-la nos outros.