sábado, 23 de julho de 2022

Brasil mergulha na tragédia anunciada


Démerson Dias


Quando em 2018 mulheres gritaram #elenão, uns e outros chegaram a mencionar que ou seria exagero, ou iria fortalecer o bolsonarismo.

O Brasil é um país machista, e reconhecer que existem estruturas que atendem a essa perspectiva, assim como ao racismo, pressupõe entender que se nada é feito, a sociedade por padrão é machista e racista.
Isso implica necessariamente na necessidade de políticas anti machistas, anti racistas, anti homofobia, anti etnocídio dos povos originários, anti desmatamento anti aporofobia, a lista é, desgraçadamente enorme, porque o “default” no Brasil é excludente.

Desculpem-me as pessoas que supõem ter boa vontade, mas quem assiste o genocídio e apenas o denuncia esta fazendo muito pouco além daqueles que são  puramente coniventes. A distância entre uns e outros é meramente subjetiva. Procurem pela diferença, pelo olhar das vítimas.

Como alertou Hannah Arendt, o “mal” prospera porque sua prática e seus efeitos foram banalizados.

Não existe genialidade em Bolsonaro, nem no bolsonarismo. Mas existem os sectários voluntaristas, oportunistas e psicopatas, capazes de manejar instituições e instrumentos para alavancar, a partir dele, uma política ostensivamente regressiva.

E o que nos faltou, ao menos à maioria de nós, foi perceber que essa seita que se montou em torno dele não se detém até que tudo o que nós reconhecemos como válido na civilização vigente seja desconstruído.

Criminosos contumazes, patológicos, sempre estão buscando distorcer as restrições que a sociedade coloca em seu caminho. Se ninguém os detiver, não serão eles. Aliás, a história tem exemplo, daqueles que pediram para serem detidos. Está acima, ou fora da capacidade e da intencionalidade deles deixar de assassinar, torturar, estuprar.

Ou subestimamos a capacidade deles de adorar a destruição, ou acreditamos que éramos tão superiores que já tínhamos criado uma matriz civilizatória irrevogável. Sendo o mais provável que tenha ocorrido uma soma de estupidez e presunção de nossa parte.

Multidões tolas ou desavisadas estão acreditando que o processo eleitoral por si será suficiente para restaurar a razoabilidade. Existem inclusive os que acreditam que a dignidade e soberania retornarão, como se uma ordem natural imanente fosse restaurada porque “dessa vez” o país estaria fazendo “a escolha certa”.

Não me agrada ser um daqueles que corta o barato, quebra a onda, azeda o leite, num período em que estamos tão carentes de amparo e esperança. Ocorre país não vai sair ileso de 676 mil mortes. Não é algo que se possa “esquecer” ou “deixar passar”.

 Assim como todos os assassinatos, cometidos de forma premeditada pelos que se beneficiam do caos, produziram vincos afetivos profundos em uma multidão de famílias e comunidades. Note-se que estou “pegando leve”, deixando de fora a corrupção meramente venal e seus efeitos.

Simbolicamente, o país está precisando de UTIs em várias de suas esferas, a começar pela afetiva. Sendo que o ódio é algo que, se não é detido, segue se reproduzindo. Fica cada dia mais evidente que o ódio é uma resposta válida para quase um terço do país.

E o ódio utilizado como discurso oficial não é algo incompatível com a atividade pública. ou política.

Isso diz muito sobre a política coercitiva utilizada contra amplas parcelas da sociedade.

Não existe hipótese do país não ter entrado em convulsão diante da indiferença institucional perante o extermínio ocorrido durante a pandemia.

Isso não é algo que se naturaliza. A maioria sociedade já estava acostumada à morte abundante, ao sofrimento inclemente e a assistir parentes e amigos caírem como folhas caem no outono.

Não nos enganemos, o bolsonarismo diz mais sobre a estúpida convicção civilizada brasileira do que sobre os próprios bolsonaristas, inclusive a familícia no poder. Que existam perversões é algo que até estatisticamente é compreensível. 

O país ignorou todas  as advertências, elegeu e assistiu por quatro infinitos anos todas as intermináveis provas de desatino, manipulação, venalidade, degeneração. E dentre alguns milhões de atores sociais e políticos aptos a se erguer para deter essa calamidade, nenhum se dispôs a fazer mais do que denunciar e proclamar, ninguém se dispôs a estancar o escoamento de almas, valores e consciências.

As palavras de Martin Luther King, sobre o silêncio dos bons, foram desacreditadas e banalizadas na avalanche moral que se abate sobre o Brasil. Em quatro anos não houve uma alma sequer, em condição de protagonismo político que fosse capaz de compreender corretamente os sentidos e o significado do fenômeno bolsonarista, e agir de forma politicamente condizente. Não é só o bolsonarismo, nossa política está podre.

Nada indica que já compreendemos. Não nos calamos, mas muito pouco, ou nada fizemos para estancar o açoite, prender facínoras,  encarcerar os depravados, deter o morticínio. A resposta mais provável é que os incluídos deste país não valorizam crianças, mulheres, povos, natureza, ou a vida o suficiente para transformar o “não passarão” em ação consequente.

A diferença é que os bolsonaristas acham que estão certos, portanto não faz sentido cobrar consciência crítica. Nós, ao contrário, inventamos instituições, regras, códigos que nos sugerem superioridade espiritual.

Não nos sentimos responsáveis porque ainda não inventamos um nome cuja carapuça nos sirva. Que nome tem o que assiste a injustiça, mas não se sente responsável por detê-la?

domingo, 26 de junho de 2022

O Brasil não precisa destruir a Amazônia

Démerson Dias


Angeli impagável - fonte:internet
Quero dizer que o Brasil não precisa mesmo, destruir a Amazônia para seguir sendo o que é. Ao contrário. Poderá ser melhor se perceber a injunção histórica em que estamos nesse exato momento da vida da nossa espécie.


Às vezes temos ideias que não acreditamos como alcançamos. Anos atrás eu imaginei que se estivesse ao meu alcance criaria uma embaixada no brasil para ser o território livre no mundo para toda a informação e conhecimento. Um lugar com prerrogativa diplomática para uma espécie de “hackers sem fronteiras”. 

Assange e Snowden seriam os primeiros hóspedes com prerrogativas consulares e protegidos pela constituição brasileira. Não essa aí que sofre homicídio premeditado, progressivo e terminal, evidente.

Teríamos uma revista revista multidisciplinar e uma biblioteca. Poderíamos dar o nome de Elbakyan, para a revista e de Aaron Schwartz à biblioteca. Não sou radicalmente contrário ao lucro com o conhecimento, mas acho pra lá de extravagante acreditarmos que “pessoas jurídicas” efetivamente podem ter propriedade “intelectual” sobre o que quer que seja. E mais grave ainda é que alguém considere que privatizar o conhecimento que é herança evolutiva da espécie é algo decente. Afinal, quem “ensinou o alfabeto ao professor”?

Achei pertinente comentar isso para que ninguém se surpreenda demais com o que virá a seguir. Eu não imponho comedimento aos meus delírios.

O Brasil deveria definir uma área próxima da extensão que a Amazônia brasileira tinha intocada até meados de 2016 quando a esculhambação criminal institucional foi consagrada como usurpadora do país (tomou o poder, bem entendido). 

Melhor ainda, até antes da aprovação da revisão venal do código florestal.

Quer dizer, se dependesse efetivamente apenas da minha vontade e para não parecer muito pedante e pretensioso, eu proporia revisar tudo o que ocorreu tendo como ponto de partida crítico o artigo “A revisão do Código Florestal e o desenvolvimento do país” de Ima Célia Guimarães Vieira e Bertha Koiffmann Becker de 2010. Não se preocupem, não irei reivindicar que um marco temporal sobre o assunto tivesse Niède Guidon como árbitra sobre a ancestralidade territorial. Gostaria de fazê-lo, mas ela já lutou e contribuiu mais do que o país da atualidade merece.

Se houvesse honestidade, caráter e vocação pública por parte dos agentes políticos que exercem poder no país (em toda a república, união, estados e municípios), a Amazônia Brasileira já teria atendido mandato elementar dos povos originários em relação à preservação daquele território. E não me refiro apenas ao interesse mais ordinário que é a preservação dos rios voadores, que garantem que o Brasil seja o que é, inclusive em termos de produção agrícola.

Refiro-me à Amazônia Brasileira, mas poderíamos lançar um “consórcio” sulamericano e adequar algumas necessidades nos países vizinhos e as nossas mesmas, para suprir eventuais necessidades. Ninguém seria idiota de sugerir que todos morrêssemos de fome, ou à míngua para preservar florestas e biomas. Só as pessoas com absoluta indigência intelectual e má fé são capazes de contrapor preservação e desenvolvimento às portas do século 21.

Evidente que não proporia algo como a bestial negociata em torno de emissão de carbono. Se conseguíssemos esse feito no continente americano, assumiriamos também, junto com eventuais parceiros, o protagonismo sobre o debate "ambiental" no planeta.

Tenho ressalvas com as acepções que damos ao ambientalismo. Já aprendemos o suficiente com nossos povos originários. Não somos distintos da natureza, mas um subproduto dela. É claro que, se tivesse um discurso à disposição, o planeta já estaria amargamente arrependido por não ter abortado um subtipo específico de mutação genética que deu azo à humanidade. Ao menos essa seria a minha percepção a respeito, mas é evidente que o planeta é melhor do que a mais pretensiosa das espécies que nele habita.

A questão central é que nosso passado já nos condena o suficiente e nunca será cedo demais para criarmos vergonha na cara e provarmos que somos, de fato, uma espécie inteligente.

A Agricultura, a pecuária e o garimpo que são ricos e “pops”, estão destruindo não apenas o território, mas o futuro do país. Esse argumento só não é mais grave do que a denúncia das chacinas intermináveis, porque assassinato é instituto respaldado pela desonestidade judicial do país.

A rigor, não considero que essa região deveria ser absolutamente intocada. O que sugiro concretamente é uma moratória de cinquenta anos na destruição para que tentemos terminar de inventar a brasilidade (tudo bem, concedo que esse quesito pode exigir cem anos) e repensar o modelo de desenvolvimento e preservação da humanidade. Desenvolvimento E PRESERVAÇÃO.

A Europa, o hipotético centro orbital da civilização ocidental já balizou um marco importante ao exigir que não existam mais carros movidos por combustíveis fósseis em 2035 (ou algo assim). Não existe mais dúvida plausível quanto à escassez de petróleo e água.

Se você ler ou ouvir algo diferente disso, note bem porque estão lhe tratando como otário. O aquecimento artificial do planeta, idem.

Mas se temos noção razoável sobre os limites da nossa imbecilidade predatória, o que nos impede de sermos animais racionais? Se alguém sugeriu que tem gente demais pensando com o bolso, está correto.

E não, bolso não é órgão do corpo humano, é algo situado entre as pulsões e os fetiches.

Um esboço para esse projeto compreenderia uma revisão histórica sobre a nossa humanidade. A começar por reivindicarmos que o ocidente não é, nem nunca foi, referência universal no planeta. E nem é o caso de condenar a tibieza moral e presunção civilizatória dos expansionistas. Se a humanidade evoluiu, é aconselhável que aceite as constatações que nossas descobertas nos trouxeram. O planeta é finito e se existe um mandato planetário para a humanidade é que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” como preconizou corretamente o Tio Ben, ou a ele foi atribuída a frase por Stan Lee, não importa, deveria ser uma verdade.

Se somos bons a ponto de nos considerarmos a espécie mais evoluída do planeta, deveríamos concluir que temos responsabilidade ímpar sobre ele em relação a todas as espécies, ou mesmo forças cósmicas, já que consideramos também que dominamos ciclos “poderosos” como o atômico.

O que é surpreendente é que toda essa supremacia pretensiosa deságua em atroz imbecilidade quando tratamos de exterminarmos uns aos outros e destruir inapelavelmente qualquer chance de durarmos mais do que cem anos enquanto espécie. Aliás, somos a única espécie com programas de extermínio premeditado e premeditadamente encoberto. Contra nós e quase tudo o que conhecemos, ou que a nossa vista alcança. Ainda bem que não alcançamos o centro da galáxia.

Em campanhas eleitorais, os que se apresentam como democráticos (grosso modo, demo = povo + cratos = poder) nunca revelam o que sabem sobre os infindáveis esquemas de corrupção da realidade política e econômica do mundo. E nós todos sustentamos modelos civilizatórios hipócritas, e há gente demais muito à vontade com isso.

No Brasil, ocorre um dos piores arremedos dessa situação, todos defendem a educação, menos o salário e a dignidade dos professores e demais profissionais da educação, uma política educacional crítica e libertadora e a escola como espaço de conhecimento e acolhimento. Defendem a saúde, menos, novamente o salário e a dignidade dos profissinais da saúde, um sistema universal e solidário e a promoção da saúde ao invés de programas de adoecimento compulsivo e enriquecimento das indústrias da morte. Fico só nesses dois porque resumem o destino de todo o resto.

Inclusive do nosso, por enquanto e ainda, maior patrimônio físico e geográfico.

Mas registro que também é peculiar da espécie humana ter sido capaz de criar profissões em que o mais importante não sejam os profissionais. Por isso, talvez, banqueiros sejam burgueses, proprietários, especuladores, ou filanhtropos, não profissionais de finanças. Ou ladrões, no popular.

Tentando contribuir com o fim do nosso cretinismo, é preciso declarar que seguimos destruindo o manancial amazônico, para além da proverbial imbecilidade, porque somos civilizatoriamente doentes. 

Nós não, o mundo todo, em especial o velho mundo que levou muito tempo para concluir que dilapidou suas riquezas naturais. E essa compreensão só surgiu quando percebeu que outros países “recém descobertos”, se não fossem impedidos de desenvolver soberania em seus próprios marcos civilizatórios, constituíam real ameaça à vocação parasitária do “progresso civilizado”.

A questão é que constatar é insuficiente.

Os idiotas estão nos vencendo com as políticas de apocalipse manifesto. E seguimos todos entoando loas a hecatombes, holocaustos e distopias. Como se ainda acreditássemos em sombras de deuses onipotentes.

Não precisamos ser como o passarinho heroico que faz sua parte levando água no bico para combater o incêndio na floresta. Pra ficar apenas numa das nossas principais jactâncias, se produzimos nos últimos cinquenta anos mais informação e conhecimento do que fomos capazes em todos os milênios anteriores, não era pra já estarmos nos ocupando de não cometer mais, tantos e mesmos, erros milenares?

Vida Longa e Própera. Se possível.



quarta-feira, 15 de junho de 2022

Algumas verdades sobre a urna verde e amarela

Démerson Dias


Latuff - 2022 para o Brasil247
Sou funcionário da justiça eleitoral desde 1987. Tenho críticas ao sistema eletrônico. Mas reivindico a "maquininha" como uma das inovações mais bem-sucedidas do país. Os funcionários da justiça eleitoral têm orgulho da urna eletrônica e dos avanços incontestáveis que o sistema possui desde a superação do sistema manual de voto e apuração. Novos ajustes sempre serão feitos com o tempo, porque a democracia é uma construção permanente.

Sempre será pertinente afirmar, reafirmar e proclamar, que a democracia e sobretudo o processo eleitoral é matéria intrínseca à sociedade civil. Não existe hipótese racionalmente válida em que as forças armadas, enquanto tais, sejam interlocutoras válidas nesse debate.

Nem mesmo constituem poder de estado. Só existem três poderes. As forças armadas são subordinadas a um deles, inclusive nos dias das eleições por dever de ofício, podem estar subordinadas à Justiça Eleitoral. A tutela militar sobre a democracia brasileira não possui respaldo constitucional. Algum dia será necessário depurar o artigo 142 da Constituição Federal de 1988, para evitar lapsos e arroubos. A tutela da ordem no país é civil, quando foi militar, patrocinou torturas e mortes.

Desde que o bolsonarismo desatou a falar bobagens a respeito do sistema eleitoral, assumi a defesa intransigente do sistema, bem como um silêncio em relação às críticas.

Com o surgimento das urnas eletrônicas instalou-se um debate saudável e democrático que visa aperfeiçoar o sistema.

A justiça eleitoral e o processo eleitoral conduzido a partir do poder judiciário é uma solução bastante adequada num contexto republicano. As forças armadas participam desse processo desde seu início. 

Bolsonaro já defendia torturadores e atacava as instituições muito antes de ser eleito presidente. E também nunca contestou o resultado de sua própria eleição para esse e para os outros cargos a que foi eleito.

Existem imbecilidades doentias e outras apenas oportunistas, geralmente oriundas da falta de caráter. Criticar o sistema eleitoral eletrônico para defender o obscurantismo, atacar as instituições democráticas e tumultuar o processo eleitoral, após ter sido eleito nesse mesmo sistema é uma atitude que embora não exclua causa clínica, constitui, fundamentalmente, desvio de caráter.

E as forças armadas, vergonhosamente, estão servindo de instrumento iníquo dessas imbecilidades. No entanto, ainda mais grave é reivindicarem qualquer tipo de protagonismo no processo que só existe porque a quartelada de 1964 foi historicamente derrotada.

As forças armadas não possuem status institucional suficiente para contestar a justiça eleitoral em qualquer de suas instâncias. Além do auxílio que prestam para segurança do sistema, seu apoio no processo eleitoral em termos de logística e segurança é, sem dúvida, muito bem-vindo. Aliás, a maioria absoluta dos militares que participam dessa empreitada nos dias das eleições são merecedores de elogios.

O mesmo não ocorre com o cidadão que veste farda para tentar usurpar um poder que não possui. Sem a farda, qualquer questionamento é válido e até mesmo bem-vindo.

Mas no momento em que o cidadão está fardado ele é um funcionário da sociedade, como eu e os magistrados. No entanto, ainda que tenha no presidente da república seu comandante máximo, em termos republicanos, e fora de contextos de guerra, deve obediência inclusive a juízes de primeira instância, que dirá aos ministros das cortes superiores em especial aqueles oriundos do Supremo Tribunal Federal.

Reconheço a paciência e complacência dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral em dialogarem com os inoportunos comentários militares. Entendo que responder a qualquer questionamento atende principalmente a vocação pública civil da justiça eleitoral.

Como ocupo cargo ininterruptamente na justiça eleitoral há mais tempo do que qualquer dos ministros, considero justo e importante, me somar ao diálogo em torno do sistema eleitoral, sobretudo quando se trata de responder a figuras que já demonstraram não possuírem qualquer compromisso ou vocação com a democracia brasileira. Especialmente por vocalizarem interesses de quem defende a tortura, o regime criminoso instalado a partir de 1964 e a absoluta e comprovada inépcia institucional para exercício de tarefas civis.

É fato que apenas a cortesia que costuma ser regra na ritualística judicante evitou que qualquer dos ministros tenha ordenado que os militares recolham-se aos quartéis e às suas obrigações institucionais.

Qualquer um desses militares precisa, antes de mais nada, bater continência, e pedir licença antes de dirigir qualquer palavra a um membro do poder judiciário brasileiro. Em sede de matéria eleitoral, militares devem pedir vênia e só usar a palavra quando autorizados. Eles estão solenemente proibidos, enquanto militares a manifestar qualquer tipo de contestação dirigida à justiça eleitoral, seja acerca de matéria eleitoral, seja ao sistema de voto, fora do escopo em que estão incumbidos de colaborar. 

O direito a livre expressão em relação a voto e democracia eles só possuem se, antes, tirarem a farda.

Por descuido inclusive de governo civis, as forças armadas acreditam que possuem qualquer prerrogativa em relação ao mundo civil ou às práticas democráticas. Para isso ser verdade eles precisam se despir da farda. Fardados, fora das condições e circunstâncias prescritas na constituição, devem obedecer ao ordenamento civil, inclusive do Poder Judiciário brasileiro e da cidadania.

Deu para entender, ou a gente precisa desenhar?


Démerson Dias, servidor público na justiça eleitoral de São Paulo há mais de 30 anos, ex- dirigente sindical.


terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Depois da tragédia, de volta à farsa

 Démerson Dias


Como dizia um Antonio Brasileiro Jobim, o Brasil não é para principiantes. A predileção do país por golpes dentro, ou fora da ordem sempre funciona como contra medidas preventivas. E esse caráter golpista é de tal forma naturalizado que, não importa quem ganhe uma eleição majoritária, e nem para quem cada ator político torceu, ou impulsionou. Imediatamente todos passam a reivindicar que o eleito seja o que não é.

A própria mídia que elegeu Bolsonaro queria sua crueldade sem sua estupidez, como se fossem dissociadas.

Desmascarado o delírio fascista da burguesia brasileira, pouco a pouco os diversos segmentos que garantiram a construção e viabilização da tragédia Bolsonaro vão retocando o verniz da hipocrisia.

Agora já se posicionam para exigir que Lula, virtual eleito, seja um Lula com programa de Bolsonaro.

Difícil saber com precisão o quanto de balão de ensaio foi a declaração de simpatia no Partido dos Trabalhadores à revogação da reforma trabalhista espanhola. O efeito principal foi alcançado: comoção generalizada à esquerda e à direita. 

A primeira querendo que cada candidato progressista converta-se imediatamente em revolucionário. Pouco importa que tenha sido eleito pela mais cretina ditadura burguesa, tem que ser golpista e romper com estruturas republicanas.

Já a direita, querendo manter o mais intocada possível a desgraça institucionalizada que caracterizou o governo de um dos pústulas (às vezes, literalmente) militares mais cretinos da nossa história.

Alguém precisa falar em português mais claro possível: Bolsonaro precisa ser inteiramente revogado. Jamais esquecido porque é dessas coisas que quando se esquece, se repete. O país precisa ser purgado, desinfetado e exorcizado do período Bolsonaro.

Mas para que isso ocorra é preciso, pelo menos às esquerdas, revolver suas raízes, inclusive para não se repetirem também os erros mais obtusos.

Mensalão, lavajato e o golpe contra a presidenta Dilma foram episódios semeados por ação do próprio lulismo. Convém repensarem os termos em que pautam seu esforço conciliatório. Já não deu certo a versão 1.0.

A direita condenou a esquerda realçando nela o comportamento corrente, usual e programático que caracteriza mais a direita do que a esquerda. Nem a mídia conseguiu esconder que compra de votos, tráfico de influência, caixa dois e “pedaladas” são instrumentos de uso corrente, alguns desde o império.

Tampouco se pode eximir a parcela de responsabilidade do próprio lulismo por ter hospedado ou patrocinado ele próprio os dispositivos e condições e atores  que o atropelaram não uma, mas, pelo menos três vezes.

Joaquim Barbosa foi, "apenas" um dos primeiros indicados por Lula para compor o Supremo Tribunal Federal.

O próprio Sérgio Moro provavelmente não teria entrado no radar da CIA / FBI não fossem os serviços prestados no processo do mensalão à ministra Rosa Weber, indicada por Dilma Rousseff.

E ainda, provavelmente o mais grave, foi Michel Temer, escalado por Lula para secundar sua sucessora. Não resistiu aos deslizes estratégicos do lulismo e decidiu desalojar de vez o PT do governo, enquanto Moro e o STF (praticamente inteiro) tratava de inviabilizar o retorno de Lula à presidência. Bem entendido, os indicados por Lula e Dilma eram a esmagadora maioria no STF. O único republicano ali foi Lewandowski.

Importante registrar que exceto em momentos de exceção Lula indicou 8 ministros, um casa único. Ou como o próprio usa dizer, nunca na história desse país. Somados, Lula e Dilma indicaram 13 ministros. Só não renovaram a corte inteira porque o critério da vacância é idade, ou morte.

Não valeram advertências literárias desde as clássicas até as populares: crie corvos e eles te comerão os olhos. A víbora de Esopo, ou mesmo a história do sapo e o escorpião.

A ditadura burguesa só ilude os distraídos, os incautos, ou os arrogantes. Inclusive os que reúnam as três características.

Os folclores na política brasileira dão exemplos suficientes de que flertar com essa burguesia parasitária é uma maldição que não tarda a cobrar compensação. A revogação decisiva do criminoso regime escravocrata custou imediatamente ao império o golpe republicano que foi personificado por Deodoro, amigo do imperador. Uma tragicomédia que só é esmaecida porque instaurou o regime de apartheid no país, muito antes da África do Sul.

À época imigrantes foram trazidos para serem trabalhadores para que ex-escravizados seguissem párias da “sociedade do trabalho” e não fossem incorporados ao novo modo de produção. 

Um modelo de segregação e desterro moral e ideológico que iria perpetuar uma senzala civilizatória na qual nem mesmo as mais elementares práticas culturais pudessem ser admitidas. Futebol, samba e capoeira, todas viveram momentos de criminalizadas. Somente vingaram porque, assim como ocorreu com a cultura dos povos originários a história desse país é indissociável dos massacres dos nativos locais e dos sequestrados da África.

No Brasil de hoje, aos poucos cada um de todos os patronos da candidatura Bolsonaro, todos descendentes, ou saudosistas, dos senhores de escravos, vão trocando de pele. Não por remorso, consciência, nem muito menos revisão crítica. Apenas a velha e providencial hipocrisia estrutural.

Alguns ainda haverão de reclamar que o ex-operário trará de volta alguma racionalidade à recalcitrante república brasileira.

Confirmado o retorno de Lula, pode parecer aos otimistas que o Brasil superou a trapaça que tirou o PT do governo e Lula da vitória praticamente certa em 2018. Essa interpretação é falsa.

O que esse hiato custou ao Brasil uma posição entre os países, na história da humanidade, em que a barbárie assumiu o controle. A farsa da guerra civil mascarada pelo regime carcerário (que o lulismo se esquivou de combater e, talvez até, tenha agravado) supurou em genocídio de mais de 621 mil (números de 17/01/2022) assassinados pela negligência instrumental e programática.

O Estado brasileiro, enquanto instituição, regrediu praticamente um século. É como se a república fosse jogada fora, não à favor do império, mas em favor de um despotismo distópico que comemora e se deleita com a desgraça generalizada. Alguns retrocessos dependerão de forte determinação e décadas de reconstrução.

A história de vida e de morte do regime genocida está, até o presente momento, sendo mascarada por um “apagão” de informações administrado pelo governo. Denúncias apontam que o gabinete do ódio recebeu acesso privilegiado a todos os órgãos de controle de processos e informações.

O que nos distingue das mais perversas experiências autoritárias da história?

E a timidez com que o lulismo buscou instalar alguma justiça social será insuficiente para fazer o país retomar até mesmo as bases formais consagradas na Constituição de 88. O país deveria ser refundado, mas tudo vai sendo normalizado, como se ninguém mais quisesse saber dos crimes que ocorreram nos últimos sete anos.

Sem um ascenso de engajamento democrático que reconstitua o ordenamento do país, somos hoje mais miseráveis do que fomos no começo do século passado. Política, econômica e moralmente.

Pelo ensaio que faz flertando com Geraldo Alckmin, ainda não é possível saber até que ponto Lula aprendeu alguma coisa sofrendo na própria pele reiteradas vezes a rejeição daqueles com quem insiste em se aliar.

É questão de se perguntar se está, de fato, contando com os aliados adequados. Talvez o “tino político” não seja exatamente sua melhor virtude.

Pelo lado da burguesia não devemos ser igualmente condescendentes. Raríssimas alternativas seriam piores que Bolsonaro. Como até o próprio Geisel não o tinham em boa conta, não é um acidente que tenha sido o único estrume que a burguesia tinha para instrumentalizar. Ele é, provavelmente, o mais fidedigno porta-voz de um segmento hegemônico da burguesia. O candidato, enfim, escolhido por ser o vassalo mais obediente e explícito, uma escolha feita com convicção e consciência.

O atleta especializado em flexão de pescoço introduziu o Brasil ao mapa do genocídio humanitário. Um feito que o coloca em discreto paralelo com Nero, Hitler, Mehmed Talat e seus comparsas do império otomano (genocídio Armênio). Esse é o caráter desmascarado da burguesia brasileira. Bolsonaro é apenas seu emissário menos hipócrita, mais objetivo e sincero.

Em mais de uma oportunidade comemorou e se empenhou para produzir uma necropolítica que o equiparasse ao genocídio histórico dos europeus aos povos originarios americanos e aos africanos sequestrados.

Evidente que Lula, um dos mais eficazes governantes na história da ditadura da burguesa brasileira, surge como um verdadeiro bálsamo. E o é, de fato, para milhões de brasileir@s. Ainda assim, sob alguns aspectos isso não é exatamente um elogio.

A alternância entre tragédia e farsa não é novidade na política brasileira. E tampouco incomoda os que aceitam que assim seja.

O desafio para romper com esse ciclo é daqueles que efetivamente não se dispõe a validá-lo.

A tarefa de superar a realidade não é dos que estão conformados com ela. E nem existe motivo honesto para esperar, ou cobrar que façam algo nesse sentido. Independente do que Lula tenha aprendido com a sua experiência, seu horizonte ainda é o da conciliação.  Apresentar como denuncia o que ele próprio afirma (como virtude) com palavras e atos é bem pouco inteligente. Pouco honesto, também.

A responsabilidade de mudar o mundo é dos que afirmam estar inconformados. Cobrar dos demais não é apenas fútil, é pueril.

Para simplificar a obrigação de mudar o mundo é daqueles que enxergam seus limites e contradições e não dos que acham que as coisas estão todas no devido lugar.

Romper esse ciclo de tragédias e farsas vai exigir mais do que presunção moral, palavras de ordem no infinito e autoproclamação. É preciso construir as condições políticas para que isso aconteça. Enquanto isso não ocorre, somos, nós mesmos, partícipes entre as lágrimas de tristezas pelas desgraças e os sorrisos insípidos que, desta vez, não foi tão ruim quanto poderia ter sido.


terça-feira, 23 de novembro de 2021

Marxismo para além da economia política, um elogio.

Démerson Dias


Guiseppe Pellizza da Volpedo (1868-1907
Il Quarto Stato, 1901 (detalhe)
fonte: moya1017, apud wikimedia.org
"Marx" é, sobretudo, o método. E o método marxista passa por Hegel (sobre os ombros de gigantes, como se diz).

Marxistas colocam o conteúdo acima do método. Todos eles.

E Marx não nos convocou a sermos marxistas. Está suficientemente explicitado, na própria elaboração, que almejava a emancipação comunista. Esse é o desafio que Marx legou a seus sucessores. Alcançar o comunismo, não explicar, mesmo que pelos meios mais exóticos, criativos e intrincados, o funcionamento do capitalismo.

A barbárie em que estamos imersos não é uma fatalidade. É projeto político. Tanto, que é indistinguível das formas de consumo, que, por sua vez, compreendem a causa de destruição paulatina e gradativa do planeta e, por tabela, da própria humanidade.

Especialistas insistem em decifrar apenas fenômenos (epifenômenos) econômicos da política de extermínio em escala industrial, que caracteriza o capitalismo. 

E nem mesmo setores à esquerda se dedicam a estabelecer os vínculos absolutos e indissociáveis entre produção e destruição, entre riqueza e miséria (por isso, o ecossocialismo e os identitarismos). 

Porque essa é a finalidade da ciência capitalista, separar em escaninhos, fenômenos que são partes ou etapas do mesmo processo e projeto. Economia estuda os efeitos, sociologia estuda suas origens etc, mas nenhuma delas arranha a interdependência entre as partes e sua função no projeto geral. Tem que ser assim, do contrário, o castelo de cartas da racionalidade da economia política se revela e desaparece.

Aliás, a própria barbárie, é mais a forma como as injunções políticas, históricas, sociais, econômicas estão dispostas, do que algo impermeável e monolítico.

Assim como Keynes se inspirou em Marx para produzir uma teoria e política para tirar o capitalismo do lodaçal em que se meteu, é possível que algum teórico capitalista produza nova prestidigitação (como Fukuyama, Yuval Harari está chegando perto disso).

Se Keynes é o maior monumento capitalista salvacionista, depois que os fundamentos clássicos foram pervertidos, ele é explicitamente rejeitado pelos que deveriam defendê-lo, os próprios capitalistas. Existe algo deteriorado e implícito, quando pessoas à esquerda do capitalismo reivindicam um ideólogo capitalista mais do que os próprios sucessores dele.

O deus-mercado não é keynesiano, a rigor nem mesmo é neoliberal. Se existe algo que define o deus-mercado é sua radical irracionalidade, que é reivindicada como virtude.

A economia trafega no território do ilusionismo. O lastro material, a produção, e o próprio capital em sua constituição originária, como expressão de bens e produtos, assumiu sua expressão artificial e razoavelmente arbitrária. Não é acaso, é sintomático, que o que manda no mundo hoje é o cassino das commoditties.

Especialistas, à direita e à esquerda, buscam atribuir elementos de racionalidade baseados em forças produtivas, elas explicam as potencialidades econômicas, mas o mundo capitalista não é produtivista, é financista (e, ainda, e como sempre, usurpador).

E essa foi a natureza de suas crises desde 1929. Não por acaso, um problema com a redução das taxas de lucro, que, hoje em dia, se explicita nos momentos e circunstâncias em que alguém tenta realizar o lucro anunciado como expressão de riqueza pelo mercado financeiro.

Economicistas fingem que não é essa a natureza da crise. Mas ela nasce de forma bastante ordinária, sem vergonha mesmo, quando o sistema bancário sobrepõe sobre um mesmo montante de capital, camadas ilusórias, ou artificiais de moeda e anunciam como rendimento, liquidez e lucro.

Isso move um exército de peões do mercado financeiro a buscar novas etiquetas, adereços e fantasias para sobrepor ao capital primordial e revendê-lo "ad infinitum" (não é tema desse texto o papel que os governos cumprem nessa fantasia).

Basta que um idiota, ou um gênio pergunte, de onde vem esse dinheiro,  para que o castelo de caras desabe, inclemente. 

Não é outra a razão para a ascensão da China a status de império capitalista, em vias de ser "o império".

O capitalismo buscava o dumping social. O que era crítica corriqueira dos teóricos capitalistas, só serviu para promover disputas esquerdistas no mundo (e no sindicalismo da ordem). O pragmatismo dos capitalistas nunca foi movido por pudor ao explorar mão de obra escrava, semiescrava, ou precarizada. Ao contrário, lançou um pregão reverso do qual a China, finalmente, se saiu vitoriosa. 

Basicamente  por que o estado, explicitamente ditatorial, não teve pudor de sujeitar a população à pior condição de exploração para ganhar a parada, e se tornar a maior indústria de bens. De bugigangas feitas de polímero plástico aos componentes mais sofisticados da microeletrônica. 

No entanto, os especialistas ainda teimam que o Silicon Valley é a origem da inovação e riqueza no mundo. Como é possível que os mais ricos do mundo sejam medidos por papel fiduciário, e ninguém questione? Propaganda é mesmo a "alma do negócio", mas o deus-mercado não se ocupa de questões da alma. Sua alma é o lucro.

Como o capitalismo é definido pela própria irracionalidade, pouco importou ao deus-mercado que esse movimento deslocasse a economia real para a China, mesmo empobrecendo e gerando crises na meca capitalista. O capitalismo, nem muito menos o deus-mercado, não são nacionalistas.

Quem busca virtudes econômicas no capitalismo, ou mesmo razoabilidade, está tratando de outra coisa, não do capitalismo. Em verdade toda "intelligentsia" que maneja conceitos econômicos pautando qualquer laivo de racionalidade na economia política está, basicamente, masturbando construções teóricas que mimetizam comportamentos específicos, pontuais e restritos que existem na ordem capitalista, mas estão mais longe de explicá-la do que Marx jamais esteve.

A questão nunca foi, nem será, explicar o capitalismo. Ele existe e "atua", independente de explicação e seus objetivos são elementares e pragmáticos. Onde existir probabilidade de maior lucro, ali será o foco primordial do deus-mercado. E o que orbitar em torno dele, serão as rebarbas que irão fomentar ficções e idealismos, acalentando o sonho de que todos possam pôr as mãos na oportunidade mais lucrativa. Fetiche, sobre fetiche, sobre  fetiche, diria Frank Herbert.

Os marxistas que se contentam em remoer as conclusões de Marx sobre economia política estão prestando um desserviço à humanidade, desmerecendo sua a "obra da vida" e o projeto político que engajou Marx e Engels. Escapa àqueles o sentido que existe entre a tese onze sobre Feuerbach e o que supostamente, seria o espírito da obra prima de Marx. O projeto de "O capital" ser inacabado deveria ser encarado como reticências, mas o é como ponto de exclamação. Marx não gastaria seu esforço fundamental para explicar o capitalismo, ainda que ele o tenha feito de maneira quase sobrenatural, a ponto de que os próprios capitalistas respeitam e reverenciam mais o arsenal teórico marxista do que dos de Smith e Ricardo e outros.

O Capital não é uma obra sobre economia, é a aplicação do método dialético de Marx e Engels, sobre as mistificações econômicas. Mas não aderiu à economia política, a denunciou. Se sua obra fosse concluída teria reunido as condições para a emancipação sobre o capitalismo.

É necessário parar de fixar olhar e enaltecer os salamaleques inerentes ao gestual capitalista e responder ao seu projeto político autoritário. E não existe forma de fazê-lo sem trazer à superfície e para o protagonismo político, a multidão de excluídos. O intelectual orgânico da classe proletária que não se debruça sobre essa tarefa, está sendo cúmplice do ilusionismo.

Freud explica melhor os mercados do que todo o exército de economistas e especialistas que juram estar decifrando a economia política (depois de Freu, Lacan também sobre os ombros de Hegel) . Não é acidental que Marx tenha se esmerado em começar a explicar o capital (não o capitalismo) pela mercadoria e anuncia o fetiche como seu segredo metafísico.

E ainda existem os iludidos em estágio quase patológico. Os que acham que é possível produzir conhecimento racional e programas de governo a partir dos espasmos de racionalidade que alguns identificam com a mesma convicção das crianças, e alguns adultos de sorte, que encontram imagens coerentes no formato das nuvens.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

E o assassinato doloso na Prevent Senior?

Démerson Dias



Capa da revista Superinteressante
de 2014

O Brasil é uma disfunção política no cenário mundial. Do tipo que, em saúde pública seria prontamente isolado e estudado para não contaminar o meio e se buscar profilaxia.

Há muito tempo a assimetria de ser uma das piores distribuição de riquezas, estando entre as dez, ou quinze maiores economias do mundo, já comprovava, de um lado a falência de país enquanto projeto democrático. E de outro, a vitória de uma burguesia nacional parasitária em enganar a tantos por tanto tempo.

“Pretos, pobres e brancos pobres como pretos” são presos por roubar galinha. Ou, na dúvida, podem ser alvejados por 80 tiros.

Já no caso da Prevent Senior, pelo menos uma vítima escapou da morte certa prescrita pela direção da seguradora de saúde. Uma advogada afirma que pelo menos 12 médicos corroboram a versão da vítima.

Na periferia, se um policial achar que um negro é suficientemente parecido com um meliante ele já é preso para averiguações, se não condenado a pena de morte, aplicada em rito sumário. Até o momento, nem o passaporte dos donos da Prevent Senior foram confiscados preventivamente. Vai saber se ainda estão no país.

Evidentemente as vozes da moral,  dos bons costumes e das pessoas de bem, advertiriam que trata-se de aguardar o devido processo legal.

Dentre uma infinidade de abusos de autoridade, Gilmar Mendes inventou uma razão inconstitucional para usurpar prerrogativas e impedir que Lula tomasse posse como ministro e, dessa forma, garantir que fosse preso. A justiça, quando quer "prende e arrebenta".

Se no extremo da barbárie judicial nós temos a lava-jato, já conhecemos, pelo menos um caso que se encontra no polo oposto, a barbárie da  injustiça.

Temos uma vítima salva por intervenção da família, profissionais atestando prática criminosa e pacientes comprovando a intenção do crime com os kits precoces.

Somado a isso, constatações sumárias de negligência dos órgãos que deveriam apurar ou prevenir o conluio criminoso, no popular, cúmplices ou coniventes.

É como se o Brasil estivesse fazendo turismo por um campo de concentração e ainda confabulasse candidamente se existe hipótese de um crime estar sendo cometido, ou se as pessoas estavam ali apenas figindo estarem sendo exterminadas.

A comparação com a principal “conquista” do nazismo é inevitável.

Bem entendido, nem se trata da realização de experimentos que, fatalmente levaram ao óbito enquanto são testadas as hipóteses científicas.

Pessoas foram assassinadas nos hospitais da Prevent Senior por que o cálculo atuarial da empresa discriminava qual era a curva de sinistralidade que comprometia o lucro da empresa. E utilizaram o maior desvario profilático das últimas décadas, porque era emocionante atender aos caprichos ensandecidos de um governante genocida.

A OAB deveria propor um termo de compromisso com seus administrados, todos advogados deveria se recusar a defender os donos daquela repartição nazista. Dessa forma, a eles caberia apenas um advogado dativo a quem estaria resguardado direito de aceitar sobre protesto.

Bolsonaro é um fascista, mas tem razão em um ínfimo aspecto nas idiotices que diz, ele incita ao crime, mas não obriga ninguém a cometê-lo.

Deveria ser enquadrado como mentor intelectual do crime. Profissionais que denunciaram poderiam ter penas atenuadas, ou alternativas, mediante acordo de delação.

Os donos da Prevent Senior deveriam ser submetidos a tratamento precoce em prisão de segurança máxima, até que uma falência múltipla de órgãos os liberasse da pena.
E os cúmplices diretos a serem arrolados e devidamente penalizados, são as associações médicas, Procuradores, promotores e todos os que uma vez cientificados, deixaram de atender a obrigação de denunciar e colocar em andamento uma apuração dos fatos.
Apuração na cidade de São Paulo, refere-se a órgãos do governo estadual estariam envolvidos no acobertamento da prática.
Tudo indica que será mais um episódio de descaso com criminosos venais sendo tratados como pessoas de bem.

Agora mesmo, uma empresa de notícias afirma que a Prevent Senior nem foi a entidade onde mais ocorreram óbitos, foi apenas a quarta em proporção de mortos. Não se sabe se quem escreveu, editou ou determinou essa abordagem vomitou, morreu, ou sofre de demência cívica. Também deveriam ser enquadrados como também como cúmplices, por distorcer evidências.

Se nem uma ação premeditada, ostensiva, e generalizada de prática de crime dolosa (intencional) pode ser alcançada pela mão coercitiva do Estado, o povo (sobretudo os parentes das vítimas) tem pleno direito de tomar nas próprias mãos a justiça.


domingo, 3 de outubro de 2021

Os comunistas precisam de nova ofensiva teórica

Démerson Dias

         Q
uando uma fração da direita brasileira faz contraposição mais consistente e contundente ao ensaio fascistóide do bolsonarismo do que o conjunto das esquerdas, nos deparamos com uma crise que vai além da práxis.

Contudo propor um debate sobre práxis nas esquerdas, particularmente nas esquerdas socialistas, implicaria inventariar contradições históricas que não caberiam nem mesmo num ensaio acadêmico. Além de desviar a intenção principal dessa reflexão.

A advertência de Lênin, “sem teoria revolucionária não pode haver também movimento revolucionário”, nos dias de hoje não se aplica apenas a setores revisionistas do campo socialista. Ao invocar Lênin não o faço nos marcos de uma disputa vanguardista a respeito de quem possui a melhor teoria revolucionária.

A hipótese que pretendo trabalhar aqui é que, talvez, nossas práticas políticas sejam insuficientes, porque articulamos de forma insuficiente nossas teorias. E a profusão de teorias é inversamente proporcional à nossa capacidade de intervenção política, ao menos em termos de efetividade. Tampouco é suficiente afirmar que essa deficiência se deve apenas a setores iludidos com soluções eleitoralistas, posto que setores que denunciam o eleitoralismo não são mais bem-sucedidos que aqueles.

Por vezes, como desculpa, dizemos que o capitalismo é mais objetivo porque o foco primordial é o lucro. Além de imprecisa, é uma constatação incorreta. O capitalismo articula o modo de poder que exerce, e controla a forma primordial de mediação sobre a realidade.

Enquanto as esquerdas, basicamente, mimetizam a presunção de serem portadores de verdades absolutas. Ao fazê-lo abandonamos a política como possibilidade de encontros e construções comuns. Achamos que estamos disputando o poder político com a burguesia, apenas porque ela nos fez acreditar que, disputá-lo entre nós, é a forma eficaz de combatê-la.

O campo socialista, em termos mundiais, falhou em suas investidas basicamente porque não fomos capazes de escapar à sedução do poder estatal. Nisso não fomos melhores do que o capitalismo, mesmo com evidentes avanços históricos. Ainda assim, os que não foram capazes de conquistar a máquina estatal, tampouco conseguiram desarmar a forma política capitalista em suas próprias práticas cotidianas.

Nossa pretensão de universalidade não é apenas precária. Ignoramos o universo todo. Nossa análise da conjuntura internacional conta a história das opressões, não a dos oprimidos. Seguimos não dando voz a eles, porque determinamos como sua voz deve soar, notadamente em consonância com nossa visão de mundo.

E essa nossa visão de mundo é particular e autocêntrica. De certo modo, portanto, nós também praticamos uma forma disfarçada de opressão histórica, exigindo dos oprimidos que respondam apenas a partir das formas que consideramos válidas. Não por acaso, parcela majoritária das esquerdas exige que os oprimidos repliquem as formas políticas dos opressores.

Alguns setores das esquerdas conseguem ser críticos mais contundentes com experiências à esquerda do que são com a direita. Por esse diapasão, Mandela cedeu à forma de estado imposta pelos colonizadores. Cuba precisa ser democrática a partir da forma burguesa de exercício de poder. A China deve se vergar ao modelo civilizatório ocidental. Abominamos a Coreia do Norte porque a forma que ela encontrou para se proteger da influência do mundo externo foi criar uma versão esdrúxula de falanstérios vitorianos.

Setores do nosso ecossocialismo se apresentam como críticos do modelo extrativista, negando a cadeia alimentar e supondo o humano como espécie superior, não concorrente, coisa que pelo menos a natureza, desabona.


É possível encontrar sentido e razão em todas essas perspectivas.

Ocorre que importa pouco (na verdade não importa nada) a qualidade das nossas divergências, se as assumimos como se fossem verdades absolutas e intransponíveis. Ao fazê-lo, rompemos com a única força capaz de, efetivamente, superar o capitalismo, nossa diversidade e pluralidade.

Não por acaso, setores de vanguarda do capitalismo, ou de conciliação com ele, se fortalecem mais do que as esquerdas como críticos e profetas dos limites do neoliberalismo. Isso nada mais é do que o capitalismo se reciclando de mais uma de suas crises estruturais. Por via das dúvidas, alguns capitalistas mais aloprados já começam a providenciar o desembarque do planeta, através de nova corrida espacial.

O lixo que produzimos é tanto uma calamidade econômica, quanto desastre humanitário. No entanto, nos debatemos por discutir essas questões sem reconhecermos que o esgotamento do planeta é produto do antropoceno e não exclusivamente do capitalismo.

O “espírito científico” que busca vida em outros planetas é o mesmo que critica, mas produz e reproduz formas de extinção da vida no nosso.

Aliás, as diversas formas de terceirização e privatização do que deveria ser comum, produzem distorções que seguem no sentido contrário, ou ao avesso do que seria prudente, ou necessário. E são soluções técnicas e teóricas “superiores” de relações econômicas. Nossas críticas às formas de precarização e opressão não apostam em efetiva ruptura com a forma de mediação social autoritária.

A democracia como regime político é tutelada pelo “espírito acadêmico” em que qualquer hipótese é válida. Mas a realização de ideias no plano social não admite certos tipos de contradição, e o obscurantismo do reascenso fascista apenas demonstra o quão destrutiva é a tolerância democrática a ideias intolerantes.

Temos reivindicado a democracia mesmo que ela represente, para imensa parcela da humanidade, a coação sob a alça de mira de fuzis, infindáveis filas de miseráveis, famintos e desempregados. Mal nos damos conta de que não conseguimos diferenciar o tipo de democracia que defendemos daquela oferecida como fetiche pelo capitalismo.

E nos rebelamos quando o neoliberalismo confirma seu absoluto desprezo pelas formas liberais de democracia. Apelamos para que não maltrate a democracia tanto assim. Vamos prontamente salvar a democracia burguesa que é inimiga dos povos

No caso brasileiro, parte das esquerdas se comoveram com uma direita que, finalmente, compilou e expressou as maldades todas, sem qualquer filtro de civilidade.

Foi suficiente para que diversos setores das esquerdas entrassem numa espécie de catarse arrivista, como se, finalmente, tivéssemos a prova de que sempre estivemos certos.

Nos afogamos numa guerra de narrativas na qual o adversário nem sequer disfarça que seja mero expediente diversionista. E acabamos por achar que somos vitoriosos por construir os memes mais inspirados. Como se não fosse escancarado que este é um governo de piadas prontas. Basta acreditar no que dizem os próprios profissionais de comédia “stand up”.

Ainda assim, esse movimento maniqueísta não aciona em nós as incansáveis advertências dos mais importantes pensadores marxistas.

Cedemos a uma inócua disputa de narrativa que se presta mais a preencher lacunas em folhetins e embalar grupos de zap. Mas é miserável como forma de manifestação política emancipatória.

É preciso consolidar os consensos em torno do pensamento marxista, socialista, comunista, anarquista, libertário, inclusive categorizando tais vertentes, mas fundamentalmente, sinalizando nossos avanços políticos e teóricos.

O identitarismo não é uma deturpação capitalista, é sim a expressão do vácuo do que deixamos de ocupar. E quando denunciamos que sua parcialidade é alienação, não estamos enxergando o quanto nós mesmos deixamos tais setores a mercê de investidas autoritárias. Inclusive setores religiosos que saltaram da teologia da libertação para a teologia da prosperidade, sem que isso desperte em nós a percepção de que as condições objetivas se agravaram avassaladoramente, mesmo com todas nossas “conquistas civilizatórias” contra o dragão do neoliberalismo.

A ponto de que já existem hoje iniciativas dentro do capitalismo que são mais radicais na exigência dessas pautas do que as que conseguimos produzir em nossas fileiras. Alguns exemplos contundentes são Greenpeace e Humans Rights, médicos e jornalistas sem fronteira, que possuem inventário e intervenção mais sólida do que o conjunto das esquerda mundiais.

E ainda há os que negam, ou se surpreendem quando setores da direita capitalista brasileira (inclusive o judiciário, que é o instrumento mais reacionário numa república) são mais contundentes contra as desventuras fascistas do que praticamente todo o conjunto das esquerdas. Isso, e mais, quem anuncia que essa esquerda está esgotada como projeto civilizatório é acusado de celerado, ou inconsequente.

O capitalismo, nesses desvãos, é formalmente mais solidário do que os que se reivindicam porta-vozes do proletariado. Um capitalismo que jamais será humanizado, no entanto possui uma face, por vezes mais tolerante e includente do que o campo socialista consegue ser.

Preventivamente, preciso advertir que qualquer um que receba essas palavras como crítica direta não alcançou seu sentido ou intenção.

Marx traduziu com ninguém os sentidos do capitalismo. E os capitalistas aprenderam com ele, talvez mais do que os próprios marxistas.

Por vezes, os marxistas se aplicam a decifrar meandros da teoria econômica, sem se dar conta de que Marx produziu, sobretudo, uma crítica à economia política. E essa desatenção tem custado ao campo socialista, descompromisso com o que poderia vir a ser um estudo de campo e realidade, voltado à elaboração de uma economia marxista.

Ainda mais abrangente que uma economia marxista, uma política emancipatória frente ao capitalismo. Acusar o capitalismo de estado das experiências socialistas “reais” é tão improdutivo e inconsequente quanto reclamar que a destruição da camada de ozônio está aumentando a temperatura do planeta. Não basta constatar, é essencial fazer algo a respeito.

Da forma como agimos, transformamos o décimo primeiro postulado sobre Feuerbach numa profissão de fé, eternamente anunciada, mas nunca entendida o suficiente para se tornar ação efetiva.

Temos sido incapazes até mesmo de superar divergências entre nossas visões de mundo. Em que universo paralelo seria possível nos unirmos para construir uma prática solidária, se nem mesmo conseguimos fazer aproximações teóricas nas hermenêuticas marxistas.

Evidentemente não se trata de uma questão singela. A complexidade do pensamento marxiano suscita permanente redescoberta e em novos desdobramentos teóricos e políticos. Mas deveria ser evidente que Marx estava explicando o mundo capitalista para oferecer bases para transformá-lo, não para entendê-lo com maior acuidade.

Esse esforço coube aos capitalistas que o aplicaram de forma que socialista algum seria capaz de fazer. Por isso, inclusive, surgem leituras supostas, ou assustadoramente marxistas dentro do próprio pensamento capitalista.

O neoliberalismo é um exemplo consistente de utilização do instrumental de análise marxiano para estender ao máximo a capacidade de sobrevida do capitalismo a partir de intensas e extenuantes ressignificações de suas crises estruturais. A ponto de que prospera, por exemplo, no Brasil, em plena crise sanitária espetacular investida política de desmonte inclusive do sistema público de saúde.

Enquanto setores das esquerdas ainda tentam derrotá-lo no campo da economia política. E não se trata apenas de reconhecer que amplos setores das esquerdas seguem acreditando na governabilidade burguesa.

O fato é que não é possível derrotar o capitalismo dentro de seus próprios fundamentos e subjetividades. É preciso ir muito além e entender que negar o capitalismo, em hipótese alguma, pode ser confundido com emancipação. Estamos exauridos justamente pela negação maniqueísta do capitalismo.

Mais do que afirmar o novo, cabe aos comunistas afirmar o básico e o comum. Não como mera denúncia dos resultados da opressão. Mas como afirmação a partir dos sujeitos revolucionários, ou seja, nos cabe afirmar que "mundo novo'' é esse que irá emancipar a sociedade do capitalismo.

Nossas expressões de poder, desde os estados constituídos, até nossas práticas em organizações sociais, sindicais, partidos, não vão além das expressões que o próprio capitalismo prescreve.

Mesmo quando nos anunciamos como libertários, insinuamos uma liberdade que não enxerga além da revolução francesa. Aquela não é a mesma liberdade que cabe a sujeitos históricos, pertence a um território de liberdade coletivista, como aventou a Comuna, mas não emancipatória, muito menos que seja comum por incluir a todos.

Ainda nos apegamos a um ideal humano iluminista. Como se o iluminismo não fosse uma espécie de reserva moral do capitalismo. Mesmo admitindo que não há problema em ceder por simpatia, ou nostalgia, ao que preconiza o iluminismo, convém ter em mente que a ruptura com o capitalismo está fora do alcance de sua visão de mundo.

Faria sentido supor que precisamos de um novo iluminismo? Talvez, mas o novo não pode ser o velho reformado. O capitalismo está esgotado, mas não conseguimos parir seu sucessor, embora a humanidade esteja prenhe de certezas sobre qual futuro não queremos.

Não se trata mais apenas de deter o capitalismo, mas de desarticular a barbárie na qual já estamos imersos. É possível até, que a própria crítica ao capitalismo seja obsoleta diante do desafio que é descobrir qual outro mundo é efetivamente possível, não como solução para a barbárie, mas como reversão das formas insustentáveis de economia, política e mesmo percepção da realidade.

Evidentemente, podemos recusar destruir nossas ilusões políticas. Mas sem isso jamais conseguiremos construir uma escapatória para a enrascada em que já estamos plenamente metidos. E afundando.