quarta-feira, 5 de julho de 2023

Relativas, não, são todas ditaduras!

 Démerson Dias


Só acredita em democracia quem não está sob a alça de sua mira.


A habilidade retórica e o carisma de Lula às vezes o colocam tão à frente no debate político que esquerda e direita se esfacelam tentando decifrá-lo. Ainda assim, Lula é convenientemente impreciso quando diz que a democracia é relativa.

Por exemplo, um panfleto reacionário paulista critica a fala de Lula depois de já ter cuspido o termo “ditabranda”. Canalhas, por canalhas, vamos escolher os canalhas que não relativizam o fascismo. Como faz absolutamente toda mídia comercial brasileira.

O caso é que, ainda hoje, mais ou menos dois mil anos depois que gregos como Platão, ou Sócrates, consideraram a democracia melhor apenas que a tirania, não fomos capazes de inventar uma democracia condizente com  o nome, ao menos em etimologia honesta. Em lugar algum no mundo. 

Inclusive porque outras culturas como as africanas, as ameríndias e as asiáticas jamais haviam se iludido com essa utopia liberal “civilizada”.

Dialogando com Lula, o que são relativas mesmo são as ditaduras e o mundo de hoje vive, primordialmente, sob o tacão de ditaduras burguesas, sendo a principal, o imperialismo estadunidense.

A fábula de que um regime político é democrático porque possui instrumentos e disposições de consultas de opinião é um engodo. As eleições são basicamente pesquisas de mercado. Nos EUA as eleições nem sequer são diretas. O regime cubano é imensamente mais democrático.

No Brasil, desde Collor, não importa quem seja eleito, o único programa de governo em voga é neoliberal. Mesmo afrontando violentamente a Carta de 88 que, para o PT, era insuficiente, mas hoje parece tão ingovernável quanto o era para o coronel beletrista José Sarney.

Ficamos brincando de democracia quando elegemos os sociais democratas tucanos e o social liberalismo lulista, enquanto, na prática a coisa funciona assim, quando as esquerdas eleitas governam como direita, só resta à direita, ao vencer a eleição, pender para o fascismo. Como do resto a esquerda mesma se incumbe, do contrário, se não o fizer, a direita não se distingue.

Aquilo lá, deu nisso ali. Sejamos um pouco menos hipócritas.

E para justificar e nos convencer que as ditaduras burguesas são democracias existe toda sorte de expediente, debates exaustivamente técnicos e filosóficos que aludem à república, alternância de poder que são pouco mais do que troca de turno dos carrascos. Uns mais, outros menos dóceis, enganosos e convincentes.

Como é assim no paradigma máximo, os Estados Unidos, em que a população  é ufanada a escolher a quantidade de torques no torniquete opressor que está no pescoço da população.

Em caso recente, a própria esquerda endossa o engano quando anuncia a título de acusação que Nicolás Maduro é ditador na Venezuela. Claro que é ditador. Pouco mais, pouco menos que Lula, Biden Xi Jinping, ou Putin. Ou qualquer outro que governe sob os auspícios de um estado de classes.
Onde a democracia?

A seu favor, Maduro não pode ser acusado de estar invadindo país algum, nem promovendo uma cruzada ensandecida como a da Otan na Ucrânia. E o que dizer dos demais países europeus que se constituíram apenas por conta de colonialismos execráveis e criminosos? Mantidos ainda hoje, pela inversão dos ciclos coloniais, inspirados rigorosamente por aquela prática.

É preciso mesmo condescendência e autoengano para não notar que o que chamamos de democracia anda de costas para a justiça social, para o bem-estar geral, aliás, anda de costas para o que supomos ser nossa própria humanidade.

E sempre existirão as almas benemerentes consolando os oprimidos de que os opressores não existem, que as opressões são contingências temporárias e que heróis estão trabalhando abnegadamente em nosso favor, ou a favor de todos.

A questão não é quantos heróis nos salvam. Onde existe Estado, há um segmento (classe) esmagando outro, ou outros. Realmente não são as democracias que são relativas, elas simplesmente não existem. Somos nós que temos o péssimo hábito de relativizarmos, atenuamos e tolerarmos as variáveis de ditaduras que estão no cardápio dito civilizado.

Enquanto a “civilização” brinca de mais democracia e menos democracia o que sobra para os degradados da terra é a oscilação perversa entre morrer de morte matada, ou de morte morrida. Guerras, pragas, desterro eterno, fome de tudo.

Como alegar uma democracia que prescinde da justiça? Que destrata seus indefesos? Qualquer um que reivindique alguma democracia e feche os olhos para as desgraças das maiorias é, no mínimo, cínico. Relativo, mesmo é chamar de democracia os regimes que oprimem, encarceram, esfolam, estupram e matam exatamente as maiorias.

Voltando aos nossos exemplos do cotidiano brasileiro, desde a abolição da escravocratura explícita, o Brasil está em guerra civil contra pretos e pobres. E a sobrevivência deles é, nada menos, do que a mais longa rebelião da coragem e virtude contra forças opressoras.

As prisões brasileiras tem muito mais rebeldes despercebidos do que bandidos e criminosos. A classe desses últimos, ocupam mansões, posições requintadas e de prestígio, de poder e posses. Podemos chamá-los de burguesia. Esses que detém absoluto controle sobre os Estados.

O caráter de uma democracia é medido pela extensão e lástima de suas vítimas.

Só acredita em democracia quem não está sob a alça de sua mira.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Arrombaram a Babilônia

Démerson Dias


“E apesar dos pesares do mundo

... segurar essa barra

Minha saúde não é de ferro, não é não

Mas meus nervos são de aço

É pra pedir silêncio eu berro, pra fazer barulho eu mesma faço, ou não... Au!”

Rita Lee / Lee Marcucci - Jardins da Babilônia



Resumir Rita Lee é algo entre a tolice e a veleidade. Segundo alguns a mulher que vendeu mais discos no país. Isso já não seria pouco. Rita ser colocada junto com Raul Seixa como matrizes do rock nacional, talvez dê melhor a dimensão da coisa toda. Que o rock no Brasil não seria o que é sem Rita Lee, também descreve a contento, mas existem nuances relevantes.

Estamos falando de uma mulher que arrombou a festa do machismo e não me parece honesto falar de Rita Lee sem mencionar o seu papel como desbravadora (libertária, como ela talvez preferisse). Efetivamente, ela estraçalhou o machismo. Nesse sentido, rock, música, sucesso, é ímpar.

Será que alguém considera sua obra “água com açúcar”? Acho que vale mandar os críticos tomarem banho de sol, como os índios que bailam na tribo. Como se o rock fosse território frequentado pelos irmãos Campos e Schoenberg. Rock cabeça é o progressivo, Beatles não conta porque  foram uma espécie de canto chão. No mais, rock é desbunde, transversalidade, transgressão.

Rita fazia a gente sacudir o corpo, a cabeça e a alma. Uma Chiquinha Gonzaga contemporânea, com toda a majestade e desenvoltura.

Não dá pra resumir, nem sintetizar. Nem devemos. A obra de Rita, além de falar por si mesma, deve ser degustada com apreço e sem moderação.

Depois que encontrou Roberto de Carvalho conseguiu um parceiro que não tentou ofuscá-la, mas valorizar o que já havia de bom (tipo, quase tudo). Provavelmente seu principal parceiro na música e (certamente) na vida. Até então, Rita sobreviveu tendo que impor seu talento em territórios intoxicados pelo machismo, nos quais ela se recusou a ser o vaso pra enfeitar o ambiente.

Desculpem-me os que preferem um exame minucioso da obra. A maior virtude de Rita foi a insubordinação de ser ela mesma. E eu nem mesmo seria a melhor pessoa para a tarefa, nunca tentei examinar Rita Lee, ela sempre foi desbunde demais para ficar pensando ou decifrando. Sua obra é auto explicável, coisa que ela , felizmente, não é.

Inclusive por isso, me recuso a pensar em minuto de silêncio, talvez um minuto de algazarra, berros, arroubos e bunda-lelê. Não dá pra chorar pela partida de Rita, temos muita música pra revisitar e, se existe algo molhado nessa partida é água na boca, porque por muito tempo ainda, teremos mania de Rita Lee.



quarta-feira, 5 de abril de 2023

A indecente falta de educação.


Démerson Dias



Talvez se eu não fosse filho de professora, seria menos sensível à questão educacional.

Escola Estadual Chácara das Corujas, no Grajau (Rivaldo Gomes/Folhapress)
O contexto geral atual do país (e do mundo) atingiram meu limite de estarrecimento em relação aos bens sociais mais imprescindíveis da humanidade, educação e saúde.

A começar que sem a primeira, não existe a segunda.

Mas é também a educação que nos apresenta ao termo dignidade. Por isso é mais perseguida que qualquer terrorista ou traficante. Que, convenhamos, são funcionários das burguesias, assim como todos os facínoras.

Alcançamos um ponto em que a educação vigente é um projeto para reverter a civilização (como se essa já fosse grande coisa comparadas aos povos originários do mundo.

A frase de Darcy Ribeiro não é apenas denúncia, é profética: “A crise na educação não é crise, é projeto”.

O modelo educacional vigente, patrocinado pelas burguesias e agora arregaçado em seu despudor através do vetusto “novo” ensino médio, é inúmeras vezes pior do que o antigo projeto MEC-Usaid, denunciado, dentre outros pelo controverso, mas redimido deputado e jornalista Marcio Moreira Alves (Beabá dos Mec-Usaid).

A domesticação e assujeitamento do Brasil ao segundo plano na economia e protagonismo político é produto direto do projeto educacional burguês. Somos um país adestrado para ser servil a parasitas.

A cultura popular brasileira, incluídas a dos povos originários e afrodescendentes é disruptiva em relação aos ditames senhoriais da alta burguesia internacional.

Nos tornamos ponta de lança da investida neofacista no mundo porque chegamos ao fundo do poço humanitário. Restou à burguesia exaltar o obscurantismo estrutural e estruturante. 

Não tem jeito. Se o projeto de povo e nação brasileiros é deixado à própria sina, revolucionamos a realidade. É preciso um projeto de adestramento que nos prive absolutamente da alma, desejo e potencialidades. E essa é a matriz educacional do país: desnaturar os povos que vivem na sucessora de Pindorama. Estuprar melodia e verso da obra de Bandeira e Villa-Lobos em defesa da pátria.

O Brasil não é um país pacífico, é de luta. Até o aterramento civilizatório patrocinado pelo varguismo, o país viveu algo como uma média de levantes populares ou rebeliões a cada cinco anos de história.

Não somos um país pobre. A injustiça é mecanismo de obstrução da realização de potencialidades. Se o Brasil fosse liberal estaríamos além de uma quinta potência econômica (um marco humanamente pueril, reconheço), onde já quase chegamos como resultado de um mínimo assistencialismo turbinado.

Inventamos um sistema de saúde ímpar, o SUS. O maior do mundo em ousadia.

O Brasil não tem Nobel porque isso seria vexatório para a burguesia parasitária brasileira que se esmera febrilmente para manter o país numa avassaladora posição servil. Por que é a servidão das multidões que garante a uma das mais desqualificadas burguesias do mundo, bocejar pelas favelas vistosas e bem acabadas de Miami. Nem se quer se envergonham de serem reconhecidamente bestiais, pedantes e intelectualmente indigentes.
A propósito, é preciso emburrecer a brasilidade originária para que não fique escancarada essa indigência intelectual. É preciso muito esforço para ser mais idiota que a burguesia brasileira. E é assim porque é o que prescreve para um país subalterno a grande burguesia.

As violências, assassinatos, desterro existencial nos quais sucumbem as unidades educacionais e seus prisioneiros: alunos, professores e gestores, são o ponto fulcral da luta de classes no país. Talvez devêssemos começar por ali a revolução emancipadora brasileira. Temo que os revolucionários brasileiros, não tenhamos amor, nem coragem suficientes.


Essa reflexão é motivada e dedicada à minha mãe e as, felizmente, incontáveis pessoas da área da educação (inclusive educação popular) com quem convivi, convivo e admiro. Inclusive a Bruno e Thifany, minhas luzes.


sábado, 21 de janeiro de 2023

Brasil, terra em guerra

Démerson Dias


Se um crime foi planejado, ordenado, compreendido e implementado, seus comandantes devem ser executados. Sumariamente. Considerei inverter um sentido mencionado numa das introduções da obra de Sun Wu (Sun Tzu), “A arte da guerra” para não deixar dúvida sobre o tipo de atitude que julgo cabível diante das reiteradas e ostensivas provas de desobediência à disciplina militar praticada pelos bandidos sucessores da ditadura de 1964. A bandalheira cívico militar e seus “cabeças” A essa altura, mais de 20 dias após a posse do novo governo e mais de dez após o mais surpreendente ataque a instituições republicanas, toda a cúpula atual das forças armadas deveria estar presa, bem como os da reserva que serviram ao atentado civilizatório que alguns ainda reconhecem como governo Bolsonaro. Não vivemos quatro anos de um governo. Tratou-se de um acinte civilizatório que negou toda a construção razoável que a humanidade vem tentando construir há séculos. Ainda que com percalços. AS recentes fotos de Yanomamis explicitam a degradação que menciono. Três nomes, em minha opinião, deveriam encabeçar a lista de punições, em particular por serem os mais indecentemente conhecidos: Sérgio Etchegoyen que recentemente, afronta publicamente o comandante em chefe das forças armadas. Assume abertamente o papel de porta voz da insubordinação. Eduardo Villas Bôas que, convenhamos, já está sobrando faz tempo, como um dos avatares desse golpismo e explicitamente apresentado como um dos mentores do movimento. E já o era desde a época da molecagem de Sergio Moro et caterva. E Augusto Heleno, último chefe do GSI que avalizou e viabilizou a destruição de patrimônio público na sede máxima da república. Como folclore podemos anuir que parece disposto a provar que múmias amaldiçoadas podem efetivamente caminhar à luz do dia. Destaco particularmente os criminosos usurpadores militares. Os civis ainda dependem de apuração, já os militares estão aberta, explícita e ostensivamente em insubordinação ao comandante e à constituição. São os mais conhecidos comandantes dos traidores. Dispensa desonrosa é o mínimo cabível para crime de sedição. No entanto, apenas após cumpridas as penas de detenção. Ok, são vetustos e velhacos, apliquem-se os dispositivos pertinentes. Seria irônico ressuscitar a Lei de Segurança Nacional, vomitada pelos depravados de 1964. Pela lei que a substituiu, todos estão enquadrados crimes contra o Estado Democrático de Direito, contra a soberania e contra as instituições, pelo menos. Observo que mesmo o Superior Tribunal Militar, como justiças entre pares, não é confiável a essa altura. É corresponsável por “isso tudo que está aí”, quando isentou o meliante terrorista Jair Bolsonaro em 1988 (por 9 a 4, diga-se). Pessoalmente tenho algumas boas referências sobre as autoridades do STM, inclusive as de patentes. Em todas as oportunidades que tive de interlocução com aquela corte, os diálogos sempre foram de alto nível e grau de respeito. Por vezes até mais francos do que com alguns membros da magistratura civil. Dura lex sed lex Mas vivemos tempos de excepcionalidades. E tudo o que se relaciona à vida militar está conspurcado pelos vândalos que dilapidaram qualquer resquício de civilidade nos últimos quatro anos. Como não houve coragem de insubordinação contra o vandalismo disciplinar, todos são coniventes. Ou seja, não existe militar no Brasil que não tenha parcela de responsabilidade, ainda que por omissão, com a bandalheira. Essa é uma convicção minha, política e civil, óbvio. O vandalismo institucional, em hipótese alguma é abonado pelo Código Penal Militar que rege a conduta do segmento. Um título inteiro desta lei trata dos crimes contra autoridade e disciplina. Trata do aspecto militar. Nem todos vão entender que militar, rigorosamente, não existe como expressão civil. Porque a disciplina é que os define. E a autoridade máxima é o presidente. Isso é o que reza a Constituição em vigor. Outros poderes, instâncias e disposições são cabíveis. Mas o chefe máximo e, praticamente, incontestável das forças armadas hoje é Luis Inácio Lula da Silva. Deixa eu repetir por que me dá prazer e quero provocar a bilis dos degenerados. Militar que não obedece Lula já é imediatamente, criminoso. Mais do que qualquer civil que o faça. Precisa desenhar? Militar que ousar dirigir a palavra a Lula sem que tenha permissão, tem que ir pra cadeia. Militar não tem voz. Bate continência e diz “sim senhor!” e só fala quando explicitamente lhe é dada a palavra. Pra constar ainda hoje tentamos discutir a extensão dos direitos humanos em sede militar. Não é um debate simples, nem fácil. Na justiça militar, funcionários civis ainda se debatem para ter seu status civil plenamente reconhecido, perante os rigores da disciplina militar. Estou assumindo que é um desafio para a sociedade encarar.

Em se tratando de militares, no entanto, o fato é que eles têm a letra de uma a lei muito rigorosa explicitando as exceções de direitos, em relação ao mundo civil. A saber: Militar não pode se reunir, agindo contra a ordem recebida de superior, ou negando-se a cumpri-la; recusar obediência a superior, assentir em recusa conjunta de obediência. Pena: “reclusão, de quatro a oito anos, com aumento de um terço para os cabeças”. Art 149. Insubordinação e incitação é crime punível com prisão. De insubordinação a motim, existe prescrição para uma quantidade grande de transgressões. como recusar obedecer a ordem do superior, regulamento ou instrução: Pena - um a dois anos, de detenção. Art. 163

Promover ou participar para discutir (contestar) ato de superior, de seis meses a um ano de detenção a quem promove e dois a seis meses apenas por ter participado da conspiração. Art. 165. Criticar publicamente ato de seu superior ou assunto atinente à disciplina militar, ou a qualquer resolução do Governo: detenção, de dois meses a um ano. Art. 166. Oi, Etchegoyen! Você não sabe ler, ou a demência está batendo? Existem dois códigos penais em vigor para a disciplina militar. Não os cotejei, são assemelhados. Como não é minha praia, não sei porque ambos os códigos de 44 e de 69 seguem em vigência. Os termos mencionados são da lei de 1969. Tutela militar, ou soberania das leis? Alguém tem dúvida que esses militares desconhecem que estão em afronta explícita ao código penal militar? Alguém tem dúvida de que estão expressamente afrontando a lei e a autoridade presidencial? Porque a lei não está sendo cumprida e eles presos? Não acompanho a mídia burguesa, mas não vi uma citação sequer desses dispositivos penais. Já se disse que imprensa burguesa é, sobretudo, o que ela omite. São OBRIGAÇÕES. Se tem uma coisa inerente aos militares é o cumprimento da disciplina. Sem isso, ou afrontando isso, são, basicamente, criminosos armados, perigosos e predispostos a matar. Se uma pessoa com um guarda chuva pode ser assassinada, imagine pessoas armadas e treinadas, que tipo de reação deveria receber do poder constituído? E se isso não ocorre e porque nesse país a lei só vale para punir pretos pobres e brancos pobres como pretos. E esses militares são todos branquelóides. E seus mandantes, idem. Detalhe, como a disciplina é rigorosa, a aplicação das penas é basicamente imediata, tão logo constatada a transgressão. Demorô, como se diz. Uma exceção civil se faz necessária, trata-se da pessoa em função civil hoje da mais alta responsabilidade, depois dos bolsonaros: José Múcio tem acobertado absolutamente tudo. É mais um conspirador. Cadeia pra ele também. E há um detalhe que não sei como é recepcionado na Constituição de 1988. O código militar prevê pena de morte. A farsa da anistia em causa própria Gritos como Anistia nunca mais, sem Anistia, ou Anistia é o caralho ecoam por todos os cantos do país. O ultimo não me incomoda, mas nunca consigo decifrar o grau de machismo encerrado na expressão. Um debate ficou insepulto, mesmo com diversas iniciativas de comissões de memória e restauração quanto aos crimes da ditadura. Não existe hipótese de comparação a qualquer dos crimes cometidos pelos insurgentes aos crimes cometidos pelo Estado, ou a seu serviço. Isso é elementar no debate de direitos humanos. Quando inventaram a Lei da Anistia, o que prevalecia era o cinismo. Que anistia alcançou os mortos, assassinados e suicidados? E foram milhares. A ideia da anistia é procedimento de recuo tático, quando se sabe que a maré vai mudar e se pretende promover impunidade. Alguns setores da esquerda reivindicam como conquista. Não deixa de ser, mas enquanto resposta dos militares, a intenção era proteger os seus. Não houve nem sombra de intenção democrática na anistia pautada pelos militares. Foi um movimento tático que atestava o enfraquecimento do regime. Podemos ler como avanço nosso, mas foi um recuo deles. Militarmente há diferença entre esses dois movimentos. O que me leva a pensar o papel do atual governo. Farda, camisetas ou paletó? Lula é experimentado. Talvez não exista no Brasil político mais experimentado com ele. Ainda assim, não é infalível. E ele mesmo menciona a necessidade de ser cobrado. Vamos às cobranças, então! Registro dois possíveis erros na condução do governo em torno dessa questão. O primeiro e mais grave, pela minha perspectiva é tratar política como um jogo palaciano. Democracia sem povo é regime estéril, ou ditadura burguesa. O segundo é sua resistência em agir como comandante em chefe das forças armadas. Há circunstância em que isso pode configurar crime de omissão. Como já demonstrei, em termos republicanos militar não é poder e em termos militares insubordinação dá cadeia. Não cumpriu ordem, cadeia. Desobedeceu a autoridade, cadeia. Deixou de cumprir suas obrigações, cadeia. Falou quando não devia, cadeia. Lula está tratando militares como se tivessem direitos civis. Em relação ao comandante em chefe, militar só abre a boca quando autorizado. Fora disso a única coisa que pode dizer é sim senhor. No contexto de dimensão pública, militar é o polichinelo da democracia, defende com a própria vida quando o país é atacado e morre se necessário. Será que é preciso desenhar? Paira ao largo da questão que deixar os ataques dos militares à Lula e à presidência sem resposta afeta a própria instituição do cargo, as instituições propriamente ditas, bem como a própria constituição. Lula não pode tratar a questão apenas como uma indisposição contra a sua liderança. No contexto do ataque à democracia, o país todo é alvejado. O povo, a história. A mentalidade que acha razoável ofender a autoridade presidencial é a mesma que considera a vida dano colateral. Falta ao governo alcançar a dimensão pública desses ataques. A impunidade desses atos “justifica” nas cabeças dementes dos insurretos, a liberdade para seguir torturando, matando, exatamente o lado vitorioso da democracia. Não se trata de jogo retórico. 700 mil pessoas são a prova material, que não podem ser esquecidas, nem negligenciadas. Observo outro erro de procedimento, no caso, bastante específido, quando Lula se comporta como magistrado, enviando ou confiando em interlocutores. Quem examina, sopesa e pondera em situações de relevância é o judiciário. No executivo, ordem, ou decisão adotada fora de hora costuma gerar desastres. Alguns dirão que exatamente por isso a cautela é necessária. Pode ser em outras circunstâncias e na vida civil. Insubordinação militar só possui um tipo de resposta válida. E isso é regra, é lei. Se um comandante admite ser desautorizado, ainda que esteja errado, está semeando a sublevação da tropa. Ninguém precisa concordar com o regimento militar, mas é a própria constituição que determina que o presidente deve ser o comandante máximo. Se ele não se comporta como tal, também está desrespeitando a constituição. Quanto mais tempo Lula demora para usar suas prerrogativas e atribuições, mais o fantasma da tutela se espraia pelos corredores da república. Não se trata de decidir que vestimenta manda no país, se a farda, o paletó, ou pijamas e camisolas. Estamos patinando em território em que as certezas são incandescentes. Quando nos esgueiramos por razões obtusas, como suspeitar se existe prerrogativa civil por parte dos militares, estamos afirmando que a tutela efetivamente se sobrepõe à constituição. Na dúvida, vamos chamar a Gaviões da Fiel, eles parecem ter disposição pra resolver impasses como esse. Não basta denunciar o fascismo, temos que ser antifascistas A disposição alemã de que se 10 não se levantam quando um fascista se senta, são onze fascistas não é anedota. Fascismo não se tolera. Quem tolera, o endossa. A burguesia brasileira endossa o fascismo. Hoje mesmo, não está rejeitando vandalismo do 8 de janeiro, o que rejeita é ser associada a ele. Quantos emitiram desagravo? Lemann o homem mais poderoso do Brasil repudiou a ação fascista ao longo dos últimos anos? Sendo o país capitalista, como se comportam as pessoas físicas que detém a quase totalidade da riqueza do país? O que o cretinismo pedagógico da burguesia vai prescrever em suas instituições de ensino sobre esses atos? É quase comovente que o grupo globo tenha descrito os atentados como terrorismo. O discurso, no entanto, não era a favor da democracia, mas em defesa da própria linha editorial que endossou quase tudo o que permitiu que isso ocorresse, a começar pela validação da política econômica totalmente blindada pelo grupo. Além da naturalização de uma campanha que em 2018 já era francamente fascista. Concretamente, Bolsonaro é descartado porque falhou. Não fosse sua incompetência, por mais mortes que tenham ocorrido na pandemia. ainda estaria sendo o plano A da burguesia. O mesmo ocorreu no regime inaugurado em 64. Caiu porque se enfraqueceu, não porque a burguesia queria a redemocratização. A mídia, um dos partidos da burguesia, já tem sua política de redução de danos preparada e não envolve os piores criminosos das forças armadas e milícias. Bolsonaro é mau militar, segundo Geisel. Não foi salvo pelo STM, ao contrário, foi inocentado exatamente para não fragilizar a autoridade militar, então sob ataque. Não pode atenuar os crimes do fascismo. A massa de manobra do fascismo em alguma parte é também vitimada pela manipulação. Mas por enquanto só ela está sendo alcançada pelo judiciário. No Brasil fascismo foi gestado por dentro das forças armadas, sem esquecer que as milícias envolvem precipuamente as polícias militares nos Estados. Uma organização criminosa que permitiu, tolerou e endossou não apenas toda forma de tráfico contrabando como também a entrada e organização de células neofacistas como batalhão azov. Claro que existem forças policiais que não coadunam com essas vertentes. Policiais e organizações anti-fascistas tem dado combate e garantido resistência em todos os espaços que podem. No momento, o governo Lula precisa entrar nessa guerra, não basta condenar o fascismo é preciso ser antifascista. Não posso concluir sem mencionar que, a despeito, ou em anuência a tudo o que escrevi pergunto-me se eu mesmo não estarei sendo condescendente, afinal, o paradigma que temos para punir fascistas é o Tribunal de Nuremberg.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Deslumbramento


Démerson Dias

Queria invadir sua paz
Talvez para acalmá-la mais depois
Primeiro virá-la do avesso
A paz e você.

Retirar seus limites
Ocupar seus desejos
Completar seus espaços
Não porque são vazios
E sim, porque demandam
minha atenção
Tumultuam meus desejos

Por isso também te quero linda
Risonha, inquieta, ou assustada
Descabelada, pelo vento
Ou pelas minhas mãos afoitas
Que querem te percorrer inteira
Cada meandro, cada limite

Quero provocar seu riso
Seu gozo e também seu sono
Satisfeita de tesão
Exausta de cansaço
Ou entendiada pelo mundo
Que não te reconhece
E o outro que não sabe de ti

Quero beijar você toda
Com sofreguidão, ou carinho
Na forma que você preferir
No momento em que achar necessário

Ou me calar ao seu lado
Olhando os silêncios
Ouvindo as dores
Ou sentido seu tempo
Passado e futuro

Quero preencher você toda
Não com o que tanto já sobra
Quero dar de mim
O que te completa
mesmo sem fazer falta
Ou ainda, que faça
Você tem de mim
O que vier ao seu encontro
E te deixe mais inteira
Do que você já é



L'Origine du monde - Gustave Courbet - 1866 - Óleo sobre tela - Museu de Orsay, Paris. fonte: wikipedia


segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Derrotar Bolsonaro o quanto antes, e sempre.

Démerson Dias


Laerte Coutinho - 2019

Esse não é um texto que vai fluir como outros. É uma opção diante da falta de opção. E não me refiro à opção de votar em Lula no primeiro turno. Isso é prosaico e se tiver sorte, consigo explicar o porquê antes do final do texto.

Votar em Lula no primeiro turno é mais necessário do que útil. E a primeira necessidade é mesmo afetiva. 

Tamanho desamor destilado em todas as áreas e territórios exige que busquemos restaurações. O quanto antes. É preciso nos permitirmos soltar a respiração presa, sobressaltada a cada gesto, violência ou cretinismo a que fomos expostos impiedosamente. No mínimo há 680 mil razões para votar contra Bolsonaro. Logo. Urgente.

Estamos nas ruas divulgando nossos candidatos, mas com um olho em movimentos suspeitos e provocações. Alguns acabam cedendo, o que é quase inevitável. Bolsonaro organizou um exército que vai às ruas pronto para matar e, por ele, morrer até, se for o caso. Isso só não foi observado porque não tem sido essa a nossa disposição.

As forças policiais e militares estão, preliminarmente, ao lado do fascistas. E parte delas, são de criminosos militarizados. Não bastasse isso, os CACs são uma força armada de mais de meio milhão de vândalos e assassinos.

O que consideramos civilidade está por um triz. E o triz não está sob a responsabilidade, nem das forças da ordem, nem das autoridades. Se o pólo da sociedade  que vai derrotar a familícia nas urnas estivesse disposto à guerra, já estaríamos em guerra civil. 

Ela já existe e é patrocinada pelo Estado, só não está declarada porque para a parcela branca e remediada, lutar a guerras dos pretos e pobres não vale a pena. É mais cômodo deixá-los morrer com a voz esganiçada e sufocada. Pretos, pobres, e ainda, as mulheres, indígenas, lgbtqiap+.

Até crianças e desvalidos.

À sombra da reinauguração do Museu do Ipiranga me ocorre a letra de outro hino, o da república “nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país”. O que não sabemos mesmo é quando o país deixou de ser um exterminador de futuros, esperanças e vidas.

É quando temos um facínora com uma caneta de mandatário que descobrimos a real vocação, já que nenhum escrúpulo institucional foi capaz de evitar que chegasse ao poder alguém que já fez todas as promessas e ameaças possíveis, desde, inclusive de fazer “o trabalho que o regime militar não fez, matando uns trinta mil, começando com FHC”. Foram 680 mil mortos e estávamos todos avisados. Não existe brasileiro um com mais de 22 anos que não tenha adquirido ao menos uma nódoa hipócrita na alma. Convém sabermos disso quando alguém reivindicar a qualidade da democracia brasileira. 

O pior inominável só não ocorreu por imperícia do outro lado. Bolsonaro só não deu o golpe “no mesmo dia! no mesmo dia!” por que além de incompetente político é covarde. Já a competência para ludibriar os alucinados não é a mesma necessária para articular forças sociais minimamente sóbrias. 

Ainda assim, corromper alguns milhares de militares e civis para desconstruir o esboço civilizatório é algo muito mais fácil. Destruir não exige mais do que construções, materiais ou abstratas. E Bolsonaro foi profundamente bem sucedido como um governo de demolição.

Não deveria ter sido eleito. Eleito não deveria ter tomado posse, e isso teria ocorrido se o TSE fosse cioso e coerente com seu papel. Como não foi, está até hoje servindo cafezinho para militares de moral cívica pra lá de duvidosa.

Como Bolsonaro tomou posse, deveria ter sido derrubado por um brasilianaço como o ocorrido na Argentina, novamente, como não se deu, deveria ter sido deposto por um impeachment. No limite, condenado por omissão nas 680 mil mortes, atestadas como criminosas, por omissão, prevaricação e conluio numa CPI em que os crimes foram escancarados.

Perdemos todas as oportunidades. O país perdeu. Essa sopa protonacional que temos por aqui foi incapaz de reconhecer e inibir a pior força destrutiva que surgiu entre nós, mesmo após uma das ditaduras mais estúpidas do mundo.

Entendo setores das esquerdas, que fazem ressalvas, mas o que ainda não elaboramos suficientemente é que essa eleição está apenas devolvendo o país a 31 de agosto de 2016.

O pastelão criminoso da burguesia parasitária inventou um “não país”, uma excepcionalidade cívica que custou muito e  há muitos custou tudo. Refiro-me a 680 mil mortos, reitero, reafirmo, se pudesse citaria a todos nominalmente (exceto os bolsonaristas, talvez). Não se trata de dar uma vitória a Lula no primeiro turno. Em 2 de outubro de 2022. A derrota de Bolsonaro está atrasada há mais de 2100 dias.

Pelo aspecto eleitoral, concluiria aqui. No entanto, a situação é mais complexa do que pressionar botões. 

Nem mesmo Lula será suficiente para calcinar a chaga cívica que se abriu tanto com o golpe, quanto com a eleição de 2018. Em alguns casos, o país regrediu décadas, o modelo constitucional do bolsonarismo, com sorte, é o de 1968. E isso foi implementado no país, sem que uma lei sequer fosse revogada. Apenas pelo silêncio dos bons” mencionado por Luther King.

A questão aqui não é se Lula é a melhor opção, mas que o governo Bolsonaro exige uma resposta civilizatória de um tipo que ainda não inventamos. E talvez nem sejamos capazes. Decidir as eleições em 2 de outubro nunca foi tão urgente e nem, também, tão dramático.

Assim que ouvirmos o sinal sonoro da urna, o que somos instados a fazer pelo passado e para o futuro é  respirar fundo e, enquanto ainda choramos pelos nossos mortos, erguer a cabeça para ir à luta construir o país que nem existiu e já sofreu um atentado quase fatal. Morte ao fascismo!


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Quando o nome da morte é dor

 

Démerson Dias


Internet, sem indicação de autoria

Tenho o privilégio de poder usar a caneta, quando poderia usar a faca.

O setembro amarelo, por enquanto é uma boa intenção, não muito mais que isso. Porque sem mudar a civilização, efetivamente, não mudamos suas ciladas, seus espinhos, seus algozes.

E não vou deixar de afirmar que o capitalismo é o mais longe que a civilização humana conseguiu chegar, mas é também a pior face dela, ainda que outras formas de opressão, tenham assassinado bruxas, promovido guerras e torturado esperanças.

A depressão e o suicídio são expressões de um modelo civilizatório que nos adoece, esmaga, apaga e ainda nos larga no beco do desaparecimento social. Cultivamos dores quando poderíamos cultivar esperanças e oportunidades. Cultivar felicidades, nem pensar.

Conforme o poder econômico se assenhora de tudo e das relações parciais e totais da humanidade, o acesso a ele torna-se passaporte para realizações, ou para morte. Ou seja, morre-se, de todo jeito, de fome. Ora a fome física, ora a psíquica e a afetiva.

Levei alguns anos em terapia para entender que existe dor psíquica. Devo isso a um psicanalista que considero tão amigo quanto terapeuta. Nos vídeos que fiz acerca do suicídio consegui pavimentar (ou simbolizar) um território em que depressão e suicídio subsistem numa realidade. Pois não tratamos, nem combatemos o que não denominamos.

Num contexto bastante enviesado posso dizer que eu tenho dois motivos maravilhosos, que, por enquanto, estão poupando minha vida. Nem vou mencioná-los aqui porque, felizmente, ainda não entendem o quanto suas duas vidas lindas e pulsantes sustentam a minha. Caso isso sobre em alguma posteridade espero que leiam nas entrelinhas o quanto me orgulham como pessoas e como esperança.

Mas é um caminho meu, solução minha, e apenas enquanto admito transitar por alguma sanidade e lucidez. Esse é um fio tênue. E não vai me servir para sempre. Vai saber se não me escapa em um instante fugidio logo adiante.

Um dos nomes da morte, para mim, é dor. Existem, dois movimentos essenciais que separam a vida dessa morte morrível , nominar e expressar. A morte que ainda não consegui equacionar é o desespero. Irracional, súbito, contundente.

Por enquanto é o máximo que conseguimos oferecer, enquanto civilização para sustentar a vida. Você que está lendo, não acha muito pouco que a civilização que vai à lua, constrói monumentos inescapáveis aos sentidos, não seja capaz de dizer mais do que: sua vida é problema seu?

A antropóloga Margaret Mead cunhou uma frase formidável, que carrego como ontologia da humanidade, dizendo com outras palavras que nossa civilização começa quando não deixamos nossos enfermos para trás, à mercê da própria morte. Pois bem, com a autoridade um potencial suicida (vá lá, que autoridade é louvável em nossa sociabilidade) acho que vale dizer para o mundo que o que ainda fazemos com os que têm a psique fraturada, no máximo, é lançarmos uma corda e dizermos, “ergam-se com suas próprias forças”. Espero que a frase entregue o sentido da desesperança.

Temos subestimado muito o desespero, em nossa civilização. Com ele também, a desesperança. Já vi especialista reduzindo que suicidas se matam por que se equivocam ao supor a morte é uma solução para seus problemas. Uma coisa muito idiota de se ouvir, principalmente por alguém que suponha dizer algo inteligente. E as dores psíquicas? Como você explica para uma dor que ela deve cessar gentilmente?

Na natureza, aquela da qual nos apartamos covardemente, sabemos de situações em que presas comem as próprias patas, caso suas opções sejam se devorar ou serem mortas. Existem diferenças excruciantes entre morrer, e se matar. Quem não é capaz de entender que se matar é um antídoto para as indecentes formas de mortes sutis e indiferentes, deveria nos poupar de suas leviandades. A tortura psíquica a que estamos expostos, não é uma ilusão da nossa psique, nem se resolve apenas porque sabemos dela.

Negligenciamos também a eutanásia, com ela, a constatação diante da decrepitude, ou falência progressiva e paulatina.

Enquanto pregamos bestamente a valorização da vida, semeamos, cultivamos e até produzimos enxertos de morte morrível pelo desespero. As escutas aos suicidas são, hoje, a única resposta que tem efetivamente salvado vidas. Mas ainda tratamos a questão como um problema deles. Nos recusamos a aceitar que o que somos nós é o que garante o que são eles.

Louvo incansavelmente a solidariedade da escuta, mas isso é insuficiente. Por enquanto temos nos recusados a ouvir e entender os clamores das mortes, que não são poucos.

Seria um bom começo entendermos que cada comprimido de antidepressivo, antipsicótico ou frase de um terapeuta industrial comportamental, que são produzidos, pode representar um prego no caixão de um suicida. Esses recursos negam a validade das dores, afirmando que não é o que está fora que massacra o que está dentro. Ou seja, o suicídio é uma resposta alucinada de alguém incompetente para de lidar com as próprias dores.

Produzimos ciladas civilizatórias e os que desabam em suas garras possuem apenas o argumento da morte sobre ela mesma. A dor autoinfligida ainda é, para alguns, a única alternativa contra uma determinação da dor pelo outro às vezes certo, às vezes indefinido, explícita, crua e eloquente.

Por que armamos ciladas? Por que produzimos mortes industrializadas e embaladas graciosamente. E por que a maioria de nós é capaz de virar a cara e dizer que essas mortes estão apenas nas cabeças das nossas vítimas.

Vós que sentis dores psíquicas, intangíveis, abandonais todas as esperanças. Dos nossos doutores e remédios, nada temos a vos oferecer.

Pense nisso, um dia por aí, quando lhe sobrar tempo e estiver dizendo que se solidariza com a prevenção ao suicídio.

E a nós outros, só posso dizer, cuidem-se, não desperdicem frestas e desvãos de graciosidade e alegria. Tentem conhecer por onde transitam suas dores, para que elas não lhes surpreendam irresistivelmente.

Nada mais. Desce o pano.