domingo, 1 de fevereiro de 2026

Querido 2025!


Démerson Dias*


Que el dolor no me sea indiferente

Que la reseca muerte no me encuentre

Vacío y solo sin haber hecho lo suficiente

Solo Le Pido a Dios, León Gieco



Geração Gemini. Prompt Démerson 1/2/26

Alguns textos são mais difíceis de escrever.

Retomo o assunto das relações nas redes sociais.

Estou recém aposentado e posso olhar com um pouco mais de calma para um assunto que me incomodou pelos últimos 20 anos: O que as redes sociais efetivamente nos oferecem?

Tomei contato com milhares de pessoas (considerando o conjunto das redes). Minha conta no X está abandonada, sem perspectiva. O Twitter foi a segunda rede em que efetivamente me engajei. Sobretudo no contexto do obscurantismo saindo do armário. Não sei o que fazer com aquilo, sob a tomada hostil do Musk.

Como lidar com algo que foi bom, poderia ainda ser, se sobre aquilo repousa um dos episódios mais insólitos da história humana recente (e como seguimos dando vazão a seres insólitos!!)? O Twitter foi, ao menos para mim, a rede mais libertária (no ótimo sentido da palavra). Curiosamente, conseguiam realizar uma curadoria que protegia a sanidade social, sem encurralar formas de opressão estética. Estabeleci bons contatos ali (nem sei se consigo lançar esse texto ali de alguma forma, gostaria que algumas pessoas lessem).

O facebook por muito tempo foi meu território preferido. Embora o tio Zuquibrega esteja apenas pouco abaixo do celerado elon almascarado.

Todos temos muitas pressas. Deixo às pessoas estimadas, e a quase todas neste facebook um pedido de desculpas e a manifestação de intenção.

A depressão que me acompanha desde 2009 decididamente me tornou arredio. No entanto, sobretudo o afeto, mantive cultivado. Não carrego desafetos, são pesados e caros. E talvez isso seja o que mais me incomoda. Potenciais desafetos eu tendo a relegar ao acaso, que pode construir bons vínculos, ou consolidar o distanciamento.

O que mais me constrange é que foram tantos anteparos de proteção que não dou conta de identificar e desmontar todos. E as redes sociais tornaram-se ambiente de risco por natureza. Além do pedido de desculpas, preciso declarar àquelas pessoas que foram parceiras constantes em diversos momentos, que a ausência não foi negligência, mas necessidade.

Ainda assim, o desafio de retomar a interlocução nesses ambientes me constrange. O quanto é possível sermos nós mesmos por aqui? Essa questão existia antes, mas o território se tornou inóspito, quase insalubre.

“Ainda estou aqui”, e sigo aberto às potencialidades e incertezas das relações humanas. Mais do que reaprender a frequentar esses “espaços”, sobram inseguranças, não apenas aqui, mas esse mundo que nos permeia, mas também invade. Não há como distinguir o que é voluntário, ou impositivo nas relações em redes virtuais.

Nos conformamos em fazer promessas de ano novo. Meu desafio é prometer ao meu eu do ano passado que a intenção é fazer diferente. Superar constrangimentos e desesperanças. O ano é novo, mas os desafios, nem tanto. Alguns são as promessas descumpridas, arredias e negadas. Não me incomoda tentar ser uma pessoa nova. Quero recuperar o que é promissor e gentil no meu eu de antigas pessoas. O que nos resta é buscar ser, pelo máximo de tempo possível, o melhor de nós mesmos.

Felizes promessas à todos, que estejamos à altura de nossos passos mais ousados, generosos e, quanto mais, humanos.

E que sejamos, nós mesmos, nossa melhor promessa e realização.


*Démerson Dias. Alguém que opta pelo o passo incerto e vacilante, aos medos e desafios diante do desconhecido. 01/02/26.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Palestina e Maduro - A destituição da ordem pós-guerra

 Palestina e Maduro - A destituição da ordem pós-guerra

Démerson Dias


Mas não se preocupe meu amigo

Com os horrores que eu lhe digo

Isso é somente uma canção

A vida realmente é diferente

Apenas um Rapaz Latino Americano - Belchior




Imagem gerada no Gemini. Prompt do autor

Não nos enganemos, o imperialismo sediado nos EUA realiza movimentos desesperados para permanecer no poder, ou ainda, para permanecer relevante.

O genocídio na Faixa de Gaza entrou em modo farsa. Anunciaram um armistício para “o mundo ver”. A limpeza étnica continua, agora numa versão talvez mais cirúrgica, e sem os holofotes que fazem o mundo se escandalizar. Israel mudou o viés da propaganda de proselitismo bélico explícito para ação camuflada.

A ONU, com todos seus instrumentos, inclusive seu Conselho de Segurança mostrou-se incompetente e incapaz. Não estou endossando essa farsa, sabemos a que servem os poderes de veto. Concretamente, se Hitler tivesse assento e poder de veto na Onu, a história da Segunda Guerra teria transcorrido de forma praticamente idêntica. Afinal, as políticas de não agressão da época serviram apenas para dar ao Reich a chance de se fortalecer até ter condições de rompê-las.

O sequestro de Nicolás Maduro, após mais um ato criminoso dos EUA, é tanto um abuso, quanto uma medida de desespero. Tanto pior que os EUA tenham Trump “no comando”. Tendo erguido seu império com base em negociatas, fraudes e falcatruas, seu governo não teria condição de agir de maneira distinta.

Após a longa fase de blefes — dos quais teve que recuar, exceto diante dos países que lambem as botas do imperialismo —, Trump restringiu vertiginosamente tanto sua área de atuação, quanto os recursos à disposição.

Porém, para uma seita radicalizada, medidas de força são evidência de "atitude correta" e hombridade. Assim como tantos afirmam que deus está com eles em todos os momentos de virilidade, estão todos prontamente dispostos a mudarem a chave seletora quando deus os abandona , nas mudanças de “sorte”.

Fato semelhante ocorre com o bolsonarlismo. Viril, impetuoso e virtuoso enquanto os contornos do poder permitiram, tornam-se mansos, vitimizam-se, denunciam quando a onda da história muda. Frisemos com todas as ênfases. Se a visão de mundo aludida, ditadura, torturas e bandido bom é bandido morto estivessem efetivamente em vigor. Estariam todos mortos das forma mais infames possíveis. Pois esse era o paradigma de realidade que reivindicavam. É deplorável ver defensores incondicionais de um ditadura repudiarem a “severidade” da ordem em um Estado Democrático de Direito.

Não é por outra razão que a única coisa que não devemos tolerar é a intolerância (apud Karl Popper).

Ainda que o genocídio em Gaza e o sequestro de Maduro estejam em escalas de violência incomparáveis, ambos seguem o mesmo roteiro. O imperialismo encolheu porque o mundo se expandiu.

Se a ONU não fosse uma farsa cada vez mais desmoralizada, talvez o próprio Trump devesse ser sequestrado até que liberassem Maduro, e cessassem o suporte sem o qual  Israel não sobreviveria a uma reação coordenada em defesa da Palestina.

Estas palavras têm ênfase maior na indignação do que no exame rigoroso sobre a situação real. Isso é apenas uma crônica.


"A vida realmente é diferente, quer dizer: Ao vivo é muito pior"


PS: Depois de publicar notei que para alguns pois ter sido sutil demais. Usei hombridade, virilidade etc porque uma das características dessa seita é a adesão ao patriarcado.